Lista de Poemas
Dança do ventre
numa espiral de elétricos volteios,
na cabeça, nos olhos e nos seios
fluíam-lhe os venenos da serpente.
Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
que convulsões, que lúbricos anseios,
quanta volúpia e quantos bamboleios,
que brusco e horrível sensualismo quente.
O ventre, em pinchos, empinava todo
como réptil abjecto sobre o lodo,
espolinhando e retorcido em fúria.
Era a dança macabra e multiforme
de um verme estranho, colossal, enorme,
do demônio sangrento da luxúria!
.
.
.
Tortura Eterna
Ó Força inútil, ansiedade humana!
Ó círculos, dantescos da loucura!
Ó luta, ó luta secular, insana!
Que tu não possas, Alma soberana,
Perpetuamente refulgir na Altura,
na Aleluia da Luz, na clara Hosana
do Sol, cantar, imortalmente pura.
Que tu não possas, Sentimento ardente,
viver, vibrar nos brilhos do ar fremente,
por entre as chamas, os clarões supernos.
Ó Sons intraduzíveis, Formas, Cores!...
Ah! que eu não possa eternizar as dores
nos bronzes e nos mármores eternos!
Publicado no livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
A PERFEIÇÃO
A perfeição é a celeste ciência
da cristalização de almos encantos,
de abandonar os mórbidos quebrantos
e viver de uma oculta florescência.
Noss'alma fica da clarividência
dos astros e dos anjos e dos santos,
fica lavada na lustral dos prantos,
é dos prantos divina e pura essência.
Noss'alma fica como o ser que às lutas
as mãos conserva limpas, impolutas,
sem as manchas do sangue mau da guerra.
A Perfeição é a alma estar sonhando
em soluços, soluços, soluçando
as agonias que encontrou na Terra!
PIEDADE
O coração de todo o ser humano
foi concebido para ter piedade,
para olhar e sentir com caridade,
ficar mais doce o eterno desengano.
Para da vida em cada rude oceano
arrojar, através da imensidade,
tábuas de salvação, de suavidade,
de consolo e de afeto soberano.
Sim! Que não ter um coração profundo
é os olhos fechar à dor do mundo,
ficar inútil nos amargos trilhos.
É como se o meu ser compadecido
não tivesse um soluço comovido
para sentir e para amar meus filhos!
ALUCINAÇÃO
Ó solidão do Mar, ó amargor das vagas,
ondas em convulsões, ondas em rebeldia,
desespero do Mar, furiosa ventania,
boca em fel dos tritões engasgada de pragas.
Velhas chagas do sol, ensangüentadas chagas
de ocasos purpurais de atroz melancolia,
luas tristes, fatais, da atra mudez sombria
De trágica ruína em vastidões pressagas.
Para onde tudo vai, para onde tudo voa,
sumido, confundido, esboroado, à toa,
no caos tremendo e nu dos tempos a rolar?
Que Nirvana genial há de engolir tudo isto,
mundos de Inferno e Céu, de Judas e de Cristo,
luas, chagas do sol e turbilhões do Mar?!
IRONIA DE LÁGRIMAS
Junto da morte que floresce a Vida!
Andamos rindo junto à sepultura.
A boca aberta, escancarada, escura
da cova é como flor apodrecida.
A Morte lembra a estranha Margarida
do nosso corpo, Fausto sem ventura...
ela anda em torno a toda a criatura
numa dança macabra indefinida.
Vem revestida em suas negras sedas
e a marteladas lúgubres e tredas
das Ilusões o eterno esquife prega.
E adeus caminhos vãos, mundos risonhos!
Lá vem a loba que devora os sonhos,
faminta, absconsa, imponderada, cega!
Lésbia
planta mortal, carnívora, sangrenta,
da tua carne báquica rebenta
a vermelha explosão de um sangue vivo.
Nesse lábio mordente e convulsivo,
ri, ri, risadas de expressão violenta
o Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
a morte, o espasmo gélido, aflitivo...
Lésbia nervosa, fascinante e doente,
cruel e demoníaca serpente
das flamejantes atrações do gozo.
Dos teus seios acídulos, amargos,
fluem capros aromas e os letargos,
os ópios de um luar tuberculose...
Só
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;
Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito;
Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro!...
Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!
Publicado no livro Últimos Sonetos(1905)
Imortal Atitude
Oh! Basta crer indefinidamente
Para ficar iluminado tudo
De uma luz imortal e transcendente.
Crer é sentir, como secreto escudo,
A alma risonha, lúcida, vidente...
E abandonar o sujo deus cornudo,
O sátiro da Carne impenitente.
Abandonar os lânguidos rugidos,
O infinito gemido dos gemidos
Que vai no lodo a carne chafurdando.
Erguer os olhos, levantar os braços
Para o eterno Silêncio dos Espaços
e no Silêncio emudecer olhando...
Publicado no livro Últimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
DE ALMA EM ALMA
Tu andas de alma em alma errando, errando,
como de santuário em santuário.
És o secreto místico templário
as almas, em silêncio, contemplando.
Não sei que de harpas há em ti vibrando,
que sons de peregrino estradivário
que lembras reverências de sacrário
e de vozes celestes murmurando.
Mas sei que de alma em alma andas perdido,
atrás de um belo mundo indefinido
de Silêncio, de Amor, de Maravilha.
Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
mesmo da Morte ressuscita e brilha!
Comentários (4)
Para quem n entendeu, ele ta falando de, atenção - tire as crianças da sala - sexo.
cala a boca cuié vai lavar a louça<br />
Meu poeta preferido. A musicalidade e o ambiente de sonhos de seus versos me fascinam e inspiram.
Que pena que ele morreu era muito bom em poesia
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