Escritas

Lista de Poemas

O Negócio Bem Sortido

O perfeito negociante vende tudo.
Vende a seda mais fina de Lyon,
o áspero pano da fábrica da Pedreira,
a renda de Malines e a do Norte.
Todas as miudezas de armarinho.
Todos os gêneros do país.
Chapéus-de-sol e de cabeça.
Toda espécie de calçados,
inclusive o “Andarilho”:
não produz calos nem os oprime,
sola impermeabilizada por processo novo,
dispensa graxas e pomadas.

À direita uma parede inteira
ostenta licores importados,
conservas inglesas, molhos raros
para os Messers da mina, altos clientes.
(Escondo por trás dessas riquezas
a barra de chocolate sonegada
ao olho distraído do patrão,
e de longe em longe, disfarçando,
mastigo este salário extraordinário.)

Ao fundo, em úmida sombra,
mantas de toucinho rosa-sal,
caixotes de milho, barricas de batatas,
sacos de feijão, ferragens rudes
(enxadas: curvo destino nacional).
É provação dominical, antes da missa,
(falta descobrir a semana inglesa)
tropeçar os dedos na massa trêmula do porco,

recortar a facão
e pesar cinco quilos de gordura.
Por que escolheste vida de caixeiro,
vida de cachorro, o trocadilho exato,
quando podias bem ficar no casarão
em ocioso bem-bom de filho de Coronel?

Bobagens: quem explica
as que a gente faz?
Eu sei: foi para, em longas horas estagnadas,
em que ninguém compra, mas conversa
à beira arranhada do balcão
— as horas quase todas do comércio —,
discutir a guerra de 14 que lavra lá no longe
e em que te empenhas tanto do mau lado.

Não é fero o patrão.
Decerto preferia
que falasses menos, trabalhasses mais.
E se perceber que o chocolate some,
sem sabor e fumaça, no papel prateado?
Se descobrir? Se te pilhar?

Erram pesadelos de caixeirinho
na noite gelada montanhesa.
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Mrs. Cawley

Vem a americana com seu fox terrier,
vestido róseo desenvolto,
loura em mata morena, sol de milho,
sorriso aberto em português estropiado,
mas tão linda!
linda de soluçar
de apunhalar
meu assombro caipira colegial.

Vem a americana com o marido,
visita
as famílias importantes dos senhores de terras.
Seu sorriso compra as terras, compra tudo
fácil, no deslumbramento.

O americano, mero aposto circunstancial.
O americano, que me importa?
Daria, se tivesse, um reino inteiro
para ter esta mulher a vida inteira
sorrindo a boca inteira
só para mim na sala de visitas.
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Imprensa

Nossos jornais sorriem para a vida.
Trescalam doçura nos cabeçalhos:
A Primavera. O Jasmim.
Mas surgem humoristas no jardim:
O Tira-Prosa.
E pasquineiros violentíssimos:
O Raio.

O Raio irrompe antes da missa de domingo
por baixo de todas as portas.
E sidera. A manhã
ia ser de porcelana-rosa, ficou
paisagem de cacos
e dores revoltadas.

Onde estão Artur e Teófilo,
onde está Francisco Guilherme?
Estes fundaram a grande imprensa
na rua pequena.
The Times de Londres?
Le Temps de Paris?
O Tempo da vila pobre,
onde só havia tempo, não havia notícias,
morreu de falta de assunto.
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Orgulho

Com toda a sua pomada
e seu horror a pedir,
ao ver a Agência fechada,
Manduca diz, soberano:
“Meu tio, quer me emprestar
um selinho de cem réis?”.
“Pois não, lhe empresto, sobrinho.”
A carta segue seu rumo,
passa um dia, um mês, um ano
e Manduca, muito ancho,
se gaba de não dever
nem um tostão a ninguém.
“Alto lá, sobrinho, então
eu não lhe emprestei um selo
justamente de tostão?
Se me pagar nesta hora,
prometo não desmenti-lo,
dispenso juro de mora,
mas você fica devendo
o preço desta lição.”
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Cortesia

Mil novecentos e pouco.
Se passava alguém na rua
sem lhe tirar o chapéu,
Seu Inacinho lá do alto
de suas cãs e fenestra
murmurava desolado
— Este mundo está perdido!
Agora que ninguém porta
nem lembrança de chapéu
e nada mais tem sentido,
que sorte Seu Inacinho
já ter ido para o céu.
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Suum Cuique Tribuere

O vigário decreta a lei do domingo
válida por toda a semana:
— Dai a César o que é de César.
Zé Xanela afundado no banco
vem à tona d’água
ardente
acrescenta o parágrafo:
— Se não encontrar César, pode dar a Sá Cota Borges, que é mãe dele.
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Cultura Francesa

Com mestre Emílio aprendi
esse pouco de francês
que deu para ler Jarry.

Murilo, diabo na aula,
tinha gestos impossíveis,
que nem macaco na jaula.

Mestre Emílio, tão severo
não via no último banco
o aluno de moral zero.

Os verbos irregulares
saltavam do meu Halbout,
perdiam-se pelos ares.

Nunca mais os encontrei…
Talvez Brigitte Bardot
me ensinasse o que não sei.
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Correio

A grande hora da chegada
do Correio.
Ninguém te escreve, mas que importa?
Correio é belo de chegar.
Surge no alto da ladeira
a mula portadora de malas,
trazendo o mundo inteiro no jornal.
O Agente do Correio está a postos
com os filhos funcionários a seu lado.
É família postal há muitos anos
consagrada a esse ofício religioso.
As malas borradas de lama
com registrados e impressos
que a chuva penetrante amoleceu
abrem-se perante os destinatários
como flores de lona
vindas de muito longe.
Cada família ou firma tem sua caixa aberta
onde se deposita a correspondência,
mas bom é recebê-la fresquinha das mãos
de Sô Fernando, que negaceia,
brinca de sonegar a carta urgente:
— Hoje não tem nada pra você.
— Mas eu vi, eu vi na sua mão.
— Engano seu. Quer um conselho?
Vai apanhar tiziu que está voando
lá fora.

Ver abrir a mala é coisa prima.
Traz as revistas de sábado
com três dias de viagem morro acima
abaixo acima, e o cheiro liso do papel
invadindo gravuras: Duque dança,
as barbas de Irineu bolem na brisa
do Senado, e na Rússia
o czar Nicolau tem o olhar vago
de quem vai ser fuzilado e ainda não sabe.

Tudo chega na hora
do Correio. A mula é mensageira
do Fato, e sabe
antes de nós toda a terrestre
aventura. Mal comeu
sua cota de milho, já prossegue
rumo do Itambé, levando o mundo.
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Os Charadistas

Passam a vida lenta decifrando
novíssimas,
sincopadas,
logogrifos.
Mandam soluções para o Almanaque Bertrand
e quedam à espera do navio de Lisboa que não vem,
não atracará nunca no Rio Doce,
trazendo em nova edição os nomes dos aficionados
triunfadores.
Chega a besta rústica do Correio.
Na mala, do volume encharcado de chuva,
não salta nenhuma vitória para a cidade,
salvo no ano esplendoroso de 1909
em que Juquinha Gago tirou menção honrosa.

Pobre (rico?) de mim,
que nunca fui além das cartas enigmáticas,
sem conclusão e sem prêmio,
mas também não sou nunca derrotado.
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O Dia Surge da Água

O chafariz da Aurora
faz nascer o sol.
A água é toda ouro
desse nome louro.
O chafariz da Aurora,
na iridescência trêmula,
bem mais que um tesouro,
é prisma sonoro,
campainha abafada
em tliz cliz de espuma,
aérea pancada
súbita
na pedra lisa,
frígida espadana,
tece musicalmente
a áurea nívea rósea
vestimenta do dia líquido.
Deixa fluir a aurora,
sendo um tão pobre
chafariz do povo.
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Comentários (12)

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Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
2024-05-15

Um pouco mais Drummond na vida.

Bruna de Castro Alves
Bruna de Castro Alves
2023-10-28

Conheci este poema aos 12 anos e ele me tocou profundamente. Na época pensava sobre Hiroshima, mas sua sagacidade abriu minha consciência para o horror do poder e da perversidade humana. Viva Drumond!

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2023-08-27

O eterno poeta... o maior , o mias belo... o imortal encantador.