Escritas

Lista de Poemas

Duração

O tempo era bom? Não era.
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.

Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos
estou me lendo e relendo.

Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.

Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto
da raiz mesma do ser.
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Mimosa Boca Errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
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Ó Tu, Sublime Puta Encanecida

Ó tu, sublime puta encanecida,
que me negas favores dispensados
em rubros tempos, quando nossa vida
eram vagina e fálus entrançados,

agora que estás velha e teus pecados
no rosto se revelam, de saída,
agora te recolhes aos selados
desertos da virtude carcomida.

E eu queria tão pouco desses peitos,
da garupa e da bunda que sorria
em alva aparição no canto escuro.

Queria teus encantos já desfeitos
re-sentir ao império do mais puro
tesão, e da mais breve fantasia.
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Qualquer

Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.
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Vida Depois da Vida

A morte não
existe para os mortos.

Os mortos não
têm medo da morte desabrochada

Os mortos
conquistam a vida, não
a lendária, mas
a propriamente dita
a que perdemos
ao nascer.

A sem nome
sem limite
sem rumo
(todos os rumos, simultâneos,
lhe servem)
completo estar-vivo no sem-fim
de possíveis
acoplados.

A morte sabe disto
e cala.

Só a morte é que sabe.
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A Morte a Cavalo

A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.

A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos.

A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.

A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.

A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.

A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope

me deixou sobrante e oco.
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Cançoneta

Era um homem que andava indeciso
em viver na planície ou na serra.
Ponderou-lhe um velhinho de siso:
Já falou ao ministro da guerra?

Outro tipo queria somente
cultivar seu pedaço de terra.
Uma voz lhe soprou, suavemente:
Quem resolve é o ministro da guerra.

Um cristão de bigode e voz grossa
vai casar, e eis que tudo lhe emperra.
Num suspiro, a consciência diz: Nossa!
Que diria o ministro da guerra!

O brotinho, mal vence o concurso,
foge ao flash e em mosteiro se encerra
se lhe indaga um amigo (onça ou urso):
Quem mediu: o ministro da guerra?

Um compadre mui douto deseja
reformar o estatuto, mas berra
o moleque, na esquina: Ora veja
lá por trás o ministro da guerra!

Deputado já velho e sabido
à lonjura de Sirius se aferra.
Mesmo assim, quem escapa ao ruído,
ao clarão do ministro da guerra?

Peixe vivo, voador, diamantino,
a saltar entre o Cairo e Belterra,
não escutas bater este sino:
pescador é o ministro da guerra.
19/05/1956
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Verão

Pedes, amigo, novas da cidade
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
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A Castidade Com Que Abria As Coxas

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.
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Balanço de Agosto

Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.

Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.

O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.

Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.

Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.

Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.

Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.

Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.

Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove

sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.

Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?

Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.

E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.

Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
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Comentários (12)

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Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
2024-05-15

Um pouco mais Drummond na vida.

Bruna de Castro Alves
Bruna de Castro Alves
2023-10-28

Conheci este poema aos 12 anos e ele me tocou profundamente. Na época pensava sobre Hiroshima, mas sua sagacidade abriu minha consciência para o horror do poder e da perversidade humana. Viva Drumond!

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2023-08-27

O eterno poeta... o maior , o mias belo... o imortal encantador.