Escritas

Lista de Poemas

Moinho

A mó da morte mói
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.

Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e o nem sequer semeado.

Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.
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Outubro

Outubro eleitoral, que desabrochas
da vaga primavera de setembro,
misturando biquínis e galochas,
ardor a frio, e coisas que relembro;

outubro já verão na areia clara
de praias leblonianas, espera
um silfo, uma sereia, forma rara
a desfazer-se em rosa na atmosfera;

outubro a despertar em rebeldia
(ó meu passado!) e tropas se alinhando
no caminho do Túnel: quem diria
que a liberdade é um não sei quê nem quando?

Outubro que em tu mesmo te pintavas
para fazer do sangue o selo rubro,
penhor de novos tempos, fúrias, lavas
de puro entusiasmo, ingênuo outubro;

eis que de novo trazes no regaço,
político, um mistério, ó mês estranho.
Outubro, tem paciência, o tempo é escasso
à solução de enigma assim tamanho.

À tua brisa, outubro, se renova
nossa velha esperança malograda
depois de tanta luta e tanta prova,
rumo a Juarez e Mílton, na alvorada.

Que nos darás, amigo? Um homem puro,
numa quadra de paz e grandes feitos?
Ou temos de chorar, de encontro ao muro,
nossos erros, nos erros dos eleitos?

Voltará o passado, outubro, outubro?
Voltarão as misérias e os enganos?
(Como sacerdotisa no delubro,
a musa explora em vão os teus arcanos.)

Que depende de nós, eu sei. No entanto,
à cósmica energia de teu bojo,
o amante e o cidadão se enchem de espanto,
e sob o influxo astral tombam de rojo…

Outubro escorpional, meu aracnídeo
postado entre Balança e Sagitário:
Órion persegue Diana? em vão: agride-o
teu pungente ferrão, de efeito vário.

Outubro americano, porta aberta
a mundos novos que eram velhos mundos,
permite-nos chegar à descoberta
de nós mesmos, nos pegos mais profundos.

Outubro, que afinal não és diverso
de outro qualquer dos meses da folhinha,
perdoa a sem-razão deste meu verso,
que eu te agradeço, outubro, a croniquinha.
02/10/1955
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O Pagamento

Quando é que sai o pagamento?
O pagamento está difícil.

Quando se fará a folha
e se construirá a máquina
que fará o cálculo e os descontos?

E quando se fabricará o dinheiro,
espécie nova de dinheiro,
para fazer o pagamento?
Quem receberá no primeiro lote
quem no segundo e no terceiro
se antes de tudo vier a morte
poupar serviço ao tesoureiro?

O pagamento está difícil.

A espera, quem é que paga a espera
e os extraordinários da esperança
e os serviços (esquecidos) dos pais
e dos avós e dos antiquérrimos?

O pagamento está difícil.

Que contador porá em dia as contas
e qual será o seu critério?
Irá medir produtividade
assiduidade, pequenos méritos
oblíquas faltas, imperfeitos
serões, tarefas de má vontade?
Só sairá o pagamento
depois do inquérito concluído?

O pagamento está difícil.

Nem um simples apontamento
foi tomado, não há controle
e direção?
Ou não houve serviço nunca,
ninguém jamais se empregou
nem patrões existiram nem
saiu produção de nada?
Não houve encomenda de nada
na fábrica inexistente,
e ninguém podia tomar nota
alguma em nenhum escritório?
Não cabe pois reclamar
nem salário nem horas extras
nem demora ou juros de mora?

O pagamento está difícil.

Difícil é o pagamento
ou conceber a estranha folha
que nunca sai
e saindo, não se registra
e registrada, não se paga
e pagando, não vale a cédula
e valendo, o vento a carrega
e carregando, foi bem feito
se não havia o que pagar?

O pagamento está difícil
porque não há com que pagar
o que não era de ser pago
e contudo está-se cobrando?
cobrando com unhas, gritos
com bater pé, suplicar,
exigir latir bramir
chorar,
de lei na mão, uma lei feita
só de parágrafos riscados
outra vez escritos, outra vez
riscados escritos riscados
etc.?

O pagamento está difícil
ou já foi feito antes de tudo
há 40 anos, à sorrelfa,
que ninguém lembra ou se acaso lembra
é que o dinheiro era falso
era marcado era maldito
era por todos refugado?

O pagamento está difícil?
Depois de tão anunciado,
solenemente prometido,
foge o caixa, são massacrados
os condutores do dinheiro
tudo é furtado num segundo
e o próprio assalto é simulado?

Some a ideia de pagamento
de tal sorte que ninguém mais
lhe conhece o significado
e os que reclamam não reclamam
com intenção de receber
mas por força do triste hábito?
e tornam-se mudos
de voz e gesto
e se esquecem todos
de reclamar e de adiar
e de negar?

Então, de todos olvidado
não mais pensado ou referido
nem na lousa dos dicionários
o pagamento — afinal — saiu.
Para cada um e seu irmão,
seu amigo e seu inimigo,
seu desconhecido, seu antípoda,
seu ascendente e descendente,
seu curió demissionário, seu gato escaldado, seu cachorro caduco,
suas plantinhas de vaso (sem sol) da janela,
seu coração
de válvulas paradas
seu coração
entranhado de cisco
seu coração
já sem forma de
coração.

O pagamento total geral
saiu! saiu!
o pagamento sem escrita
sem cifrão
sem limitação
sem explicação
sem razão
sem código
sem termo
saiu.

Não havia quem recebesse.
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Oh Minha Senhora Ó Minha Senhora

Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de... não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh... esses seios são seus ou é uma aparição e esses pelos essas nád... tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...
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Essas Coisas

“Você não está mais na idade
de sofrer por essas coisas.”

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?
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A Outra Porta do Prazer

A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.

Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreito átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.
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Nascer de Novo

Nascer: findou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
a dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
sem alma, no regaço
do cofre maternal, sombrio e cálido.
Agora,
na revelação frontal do dia,
a consciência do limite,
o nervo exposto dos problemas.

Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e suas lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?

Eis que um segundo nascimento,
não adivinhado, sem anúncio,
resgata o sofrimento do primeiro,
e o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
de sentido no absurdo de existir.
O real veste nova realidade,
a linguagem encontra seu motivo
até mesmo nos lances de silêncio.

A explicação rompe das nuvens,
das águas, das mais vagas circunstâncias:
Não sou eu, sou o Outro
que em mim procurava seu destino.
Em outro alguém estou nascendo.
A minha festa,
o meu nascer poreja a cada instante
em cada gesto meu que se reduz
a ser retrato,
espelho,
semelhança
de gesto alheio aberto em rosa.
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Ainda Que Mal

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.
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Conversa Informal Com o Menino

Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa…
Industrializar o tema,
eis o mal.

Como posso, pergunto, o ano
inteiro, viver sem Cristo
(por sinal,
na santa paz do gusano)
e agora embalar-te: isto
é Natal?

Os outros fazem? Paciência,
todos precisam de vale…
Afinal,
em sua reta inocência,
diz-me o burro que me cale,
natural.

E o boi me segreda: Acaso
careço de alexandrino
ou jornal
para celebrar o caso
humano quanto divino,
hein, jogral?

Perdoa, Infante, a vaidade,
a fraqueza, o mau costume
tão geral:
fazer da Natividade
um pretexto, não um lume
celestial.

Por isso andou bem o velho
do Cosme Velho, indagando,
marginal,
no seu soneto-cimélio,
o que mudou, como, quando,
no Natal.

Mudei, piorei? Reconheço
que não penetro o mistério
sem igual.
Não sei, Natal, o teu preço,
e te contemplo, cimério,
a-pascal.

Vou de novo para a escola,
vou, pequenino, anular-me,
grão de sal
que se adoça ao som da viola,
a ver se desperto um carme
bem natal.

Não será canto rimado,
verso concretista, branco
ou labial;
antes mudo, leve, agrado
de vento em flor no barranco,
diagonal.

Não venho à tua lapinha
pedir lua, amor ou prenda
material.
Nem trago qualquer coisinha
de ouro subtraído à renda
nacional.

Nossa conversa, Menino,
será toda silenciosa,
informal.
Não se toca no destino
e em duros trechos de prosa
lacrimal.

Não vou queixar-me da vida
ou falar (mal) do governo
brasilial.
Nem cicatrizar ferida
resultante do meu ser-no-
-mundo atual.

Deixa-me estar longamente
junto ao berço, num enleio
colegial.
(Àquele que é menos crente,
um anjo leva a passeio:
é Natal.)

Prosterno-me, e teu sorriso
sugere, menino astuto
e cordial:
careço de ter mais siso
e vislumbrar o Absoluto
neste umbral.

Sim, pouco enxergo. Releva
ao que lhe falta a poesia,
e por al.
Gravura em branco, na treva:
a treva se aclara em dia
de Natal.
23/12/1956
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A Carne É Triste Depois da Felação

A carne é triste depois da felação.
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
após esse tremor? Só esperar
outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já se dilui o orgasmo na lembrança
e gosma
escorre lentamente de tua vida.
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Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
2024-05-15

Um pouco mais Drummond na vida.

Bruna de Castro Alves
Bruna de Castro Alves
2023-10-28

Conheci este poema aos 12 anos e ele me tocou profundamente. Na época pensava sobre Hiroshima, mas sua sagacidade abriu minha consciência para o horror do poder e da perversidade humana. Viva Drumond!

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2023-08-27

O eterno poeta... o maior , o mias belo... o imortal encantador.