Lista de Poemas
Velha Anedota
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;
Lá um dia deixou de andar à malta,
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:
— Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso? —
Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: — Juízo. —
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
Milagre
Deu de comer a cinco mil pessoas!
Eu não me assombro disto,
Pois tu, que o meu espírito magoas,
Tens um só coração,
E amas, contudo, uma população!
In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
Musa Infeliz
Musa, peço-te, pois, que me remetas
Versos que tenham rútilas facetas,
E não revelem trovador bisonho.
Meia noite bateu. Sai risonho...
Brilhava — oh, musa, não me comprometas! —
O mais belo de todos os planetas
N'um céu que parecia um céu de sonho.
O mais belo de todos os prazeres
Gozei, à doce luz dos olhos pretos
Da mais bela de todas as mulheres!
Pobres quartetos! míseros tercetos!...
Musa, musa infeliz, dar-me não queres.
O mais belo de todos os sonetos!...
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
Que Horror
Sorumbático e sombrio...
Vi de longe um bonde elétrico!
Não faço versos, não rio...
In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
O Relógio
E, saudoso de ti, sem ti me deito,
Fica tão espaçoso o nosso leito,
Que me parece o campo de Sant'Anna!
Quando não vens, oh! pálida tirana,
Torna-se lúgubre o quartinho estreito!
Com muitas flores, flor, debalde o enfeito:
Falta-lhe a flor das flores soberana.
In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
Miserável
O noivo, como noivo, é repugnante:
Materialão, estúpido, chorudo,
Arrotando, a propósito de tudo,
O ser comendador e negociante.
Tem a viuvinha, a noiva interessante,
Todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
Alabastro, marfim, coral, veludo,
Azeviche, safira e tutti quanti.
Da misteriosa alcova a porta geme,
O noivo dorme n'um lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contem-me!
Ela deita-se... espera... Qual! Revolto,
O leito estala... Ela suspira... freme...,
E o miserável dorme a sono solto!...
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
Sorte
Que a negra traição das pérfidas requinta,
Eu nunca mais a vi, pois, de ouropéis faminta,
De um bem fingido amor quebrara a ardente jura.
Alta noite, porém, vi-a pela ventura,
Numa avenida estreita e lobrega da quinta...
Painel é que se cuida e sem color se pinta,
De alvo femíneo vulto ou madrugada escura.
Maldito quem sentindo o pungitivo açoite
Do desprezo e na sombra a sombra de um afeto
A pular uma grade, um muro não se afoite.
— Prometes ser discreto? - O' meu amor! prometo...
Se não fosses tão curta, o'bem ditosa noite!
Se fosses mais comprido, o'pálido soneto!
In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
Uma Valsa
Valsa ditosa
Vertiginosa
Que delícia nos fazes gozar!
Débil cintura
Com mão impura
O direito nos dás de apertar!
Túmidos seios,
Cerúleos veios
Junto ao peito sentimos arfar!
Há melhor gosto
Que um lindo rosto
A' distância de um beijo fitar?
Quatro imprudentes
Lábios ardentes
Por acaso se podem tocar...
Eternas horas,
Noites e auroras,
Uma valsa devera durar!
(...)
É agora!
Lá vão,
Embora
Cansados!
Danados
Estão!
O moço
Destroço
Na trança
Causou:
O cravo
— Que agravo! —
Na dança
Roubou!
A trança
Rolou!
E todos
Tais modos
Lamentam,
Comentam:
— Audácia!
— Filáucia!
— Tunante!
— Tratante!
Já chovem
Protestos.
— Que horror! —
E o jovem,
Os restos
Beijando
Da flor,
Pulando,
Suando,
Mostrando
Furor,
Não pára,
E, a cara
Metendo,
Vai tendo
Lugar!
A triste
Resiste
Nos braços
Devassos
Do par.
O esposo,
Furioso,
A banda
Não manda
Calar!
A bela
Senhora
Desmaia:
Na sala,
Sem fala
Descai!
Descaia!
Que, embora
Sem ela,
O ovante
Dançante
Lá vai!
— Mas pare!
— Repare!
— Faz mal!
Aviso
De siso
Não val!
— Pisou-me!
— Matou-me!
— Socorro,
Que eu morro
Papai!
— Borracho
Estará?
— Eu acho
Que está!
E a banda
Tão rara,
Nefanda,
Não pára!
O amigo
Co'as pernas
Ligeiras
E eternas
Levando
Consigo
Cadeiras,
Quebrando
Sofás,
A gente
Pisando
Que frente
Lhe faz,
Não cansa
Na dança,
Zás, traz!
E lhe ouço
— Que moço!
Girando,
Gritando,
Dizer:
— Almejo,
Desejo
Dançando,
Valsando
Morrer! —
(...)
Imagem - 01140002
In: AZEVEDO, Artur. Contos em verso. Rio de Janeiro: Garnier, 1910. Poema integrante da série Contos Brasileiros
Por decoro
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;
quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;
os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranqüilos,
olham, meu doce amor, de tal maneira,
que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.
Eterna Dor
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.
Desde esse dia um látego iracundo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti não me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.
Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!
E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu túmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura!
Comentários (7)
Obviamente que sim
Logicamente ?????
Artur Azeredo, um dos melhores e maiores escritor. Um homem bem exemplar para o universo ????
Arthur Azevedo, um dos melhores escritores
Arthur Azevedo, um dos melhores escritores
Quem foi Arthur Azevedo?
Anedota | Poema de Artur de Azevedo com narração de Mundo Dos Poemas
O Repórter Brasil lembra os 160 anos de nascimento de Arthur Azevedo
Contos, volume 1 by Artur de AZEVEDO read by Various | Full Audio Book
Guia SP | Rua Artur de Azevedo
Igreja Presbiteriana da Aliança - Rua Artur de Azevedo 1007, Pinheiros - SP
Contos, volume 2 by Artur de AZEVEDO read by Various | Full Audio Book
Contos, volume 3 by Artur de AZEVEDO read by Various | Full Audio Book
De cima para baixo, de Artur de Azevedo, com Matheus Natchergaele
Eterna Dor | Poema de Artur de Azevedo com narração de Mundo Dos Poemas
Artur de Azevedo, 289
Amor por Anexins by Artur de AZEVEDO read by | Full Audio Book
Artur de azevedo
PEÇA DE ARTUR DE AZEVEDO - AMOR POR ANEXINS
Ídolos: Ron Jones, Artur de Azevedo, Robert A. Heinlein e Vittorio De Sica | BDay
SOBRADO R ARTUR DE AZEVEDO
ARTUR DE AZEVEDO
Contos, volume 1 | Artur de Azevedo | Humorous Fiction, Short Stories | Audio Book | 1/2
Contos, volume 2 | Artur de Azevedo | Humorous Fiction, Short Stories | Talking Book | 1/2
Rua Artur de Azevedo
4k - Av. Henrique Schaumann x Rua Artur de Azevedo - Pinheiros - São Paulo/SP
Contos, volume 2 | Artur de Azevedo | Humorous Fiction, Short Stories | Book | Portuguese | 2/2
A ama seca (Conto), de Artur de Azevedo
Contos, volume 1 | Artur de Azevedo | Humorous Fiction, Short Stories | Audiobook | 2/2
Velha Anedota (Poema), de Artur de Azevedo
05 A polemica Contos de Artur Azevedo Artur de Azevedo
Fundo Marlene Colé - Medalha Artur de Azevedo
Carnaval 2018 Artur de Azevedo
Rua Artur de Azevedo nº 761 ap 51 ----- V E N D A
Rua Artur de Azevedo
LARANJAS DA SABINA (Artur de Azevedo) Pepa Delgado | Piano | 1906
Rua Artur de Azevedo
Os 160 anos de Artur Azevedo
#Pedalar - Ciclofaixa Artur de Azevedo
Contos, volume 3 Full Audiobook by Artur de AZEVEDO by Short Stories
Rua Artur de Azevedo
12 Duas apostas Contos de Artur Azevedo Artur de Azevedo
Contos, volume 3 | Artur de Azevedo | Humorous Fiction, Short Stories | Audio Book | Portuguese
RUA ARTUR DE AZEVEDO PINHEIROS 13 12 2012 TSUNAMI1
01 A conselho do marido Contos de Artur Azevedo Artur de Azevedo
Piedade filial (Conto), de Artur de Azevedo
História de um Soneto Artur de Azevedo Audiobook
Um trecho de Artur de Azevedo
Amor por Anexins | Artur de Azevedo | Plays | Audiobook Full | Portuguese
A Morta que Mata - Artur de Azevedo
Contos, volume 1 Full Audiobook by Artur de AZEVEDO by Humorous Fiction Audiobook
09 O Velho Lima Contos de Artur Azevedo volume 2 Artur de Azevedo
VOZ DO OUVINTE - Rua Artur de Azevedo
Contos, volume 2 Full Audiobook by Artur de AZEVEDO by Short Stories Audiobook
RUA ARTUR DE AZEVEDO ENCHENTE N 13461
Português
English
Español
Arthur Azevedo, um dos melhores escritores
Arthur Azevedo, um dos melhores escritores