Lista de Poemas
Uma Doença Chamada Homem
as coisas se arranjarem, à revelia de outros corpos,
se de nós a inteligência partir para fora
e de fora vier até nós; se algo assim
com Kipling não nos obrigar à capitulação
e isto for complicado porque em política
repressão nada significa e as palavras constituem
o que elas constituiriam se pensar fosse comer;
se nem na comida conseguimos unanimidade
mas antes uma laranja é fruto
de divisão; se pensamos que ser é ser indivíduo,
trabalhar com os outros, fornicar com os outros;
se a colisão de bocas na treva
não nos atar as línguas; se
por acaso a vida fosse um abuso
de força a esta atavicamente jorrasse
do bico de um pássaro, do furo de uma baleia;
se cada um de nós de repente se dispusesse
a inverter a evolução, a recomeçar outro movimento.
Que aconteceria? Seríamos
inúteis durante algum tempo. Não saberíamos
manipular um motor, estender uma roupa,
ou juntar as mãos. Seríamos
inúteis. Mas dessa inutilidade
não brotaria mais sentido? Que
aconteceria? Alinhar-nos-íamos entre
os gansos? Que
se passaria com a consciência? Oh! o esforço
de se beijar um mamilo, de
se dizer absolutamente porque somos.
Um esforço do qual
cada pessoa emergeria jovem,
um gesto feito quando chega a notícia.
Seríamos inúteis. Inúteis sem remorso.
Extraviados na liberdade de ignorar
a própria morte. Em vez disso sabemos como as coisas
caminham, temos noções exatas acerca de um
fusível, pagamos nossas dívidas,
e saboreamos a sensação
de morrermos muito antes do tempo.
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In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série O Abajur de Píndaro
Salmo das Aves do Céu
as águias
descem sobre vossos cordeiros
e os devoram
os abutres:
limpam vossas estâncias
os pardais:
dilapidam vossas hortas
Aprendei dos lírios do campo:
não trabalham nem fiam
é ali
que a hóstia mói-se
com o esperma de vosso suor
e o vinho
rebenta das pedras
Contemplai Salomão:
com todo o seu esplendor
chega (como um de vós) vestido
com o macacão de garagista
vai morrer crucificado
em vosso relógio-ponto
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série O Livro dos Salmos
Guitarra
teu corpo
guitarra de ponteio
que te desata à sombra
de outra sombra
guitarra de fome
que espanta
os pássaros de teu nome
oh guitarra
invisível garra
em que te derramas
para o bebedor
de tua flama
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série A Fabricação do Real
Clareira
ela está estendida
para o céu
e as pernas
reluzem
e a boca
tem o ar
de uma bicicleta junto
a uma macieira
e seu corpo
se move
e os seios
estão no tanque
dentro da sombra
tomo-a
mil vezes
e lhe sopro na boca
o ar
que esfriou na distância
que separa
a fruteira de cristal
dos lábios
que o moldaram
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série A Fabricação do Real
Via Sacra: Oitava Estação: O Convívio
crânios eram
serenos crânios
que não tiveram
no seu bulício
de coisas vivas
mas desvividas
a vã plumagem.
Cada cadáver
tinha um segredo
que não dissera.
E este segredo
Freud apalpara
no ventre ocluso
de cada fêmea.
Todos os crânios
de Auschwitz traziam
o odor intrínseco
de um grande início
que a quantidade
não conseguia
apequenar
com seu horror.
Perante os crânios
Deus estacou
dizendo um verbo
às que os pariram
e deste verbo
oval e duro
nasceram os
mil rouxinóis
da dor submissa.
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série A Uva que Ficou na Vinha
Tábua de Marinheiro
não me interessa.
Interessa-me o livro
que soca, desloca,
aumenta.
Interessa-me a cola,
a palha de arroz, a resina
que desgoverna
o pensamento.
Em um livro são margens
os braços que completam.
No livro,
todo estudante é citado.
Como réu.
Ou preso político.
Numa aula
o perigo não está
engaiolado. É livre.
Desde que livre, o perigo
monta as páginas do grego,
ou da eletrônica, com a mesma
montaria.
É perigo por ser
a distância entre a rua
e o que da rua veio.
É perigo assim mesmo.
Inútil o professor
exigir-lhe silêncio.
Um livro
nunca está em silêncio.
(...)
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
Funilaria no Ar X
trazer o que no sótão amadureceu
para este momento de palavra e gume,
de melancolia enfiada no sangue.
Vamos, sem tardança, adoecer de instinto,
para que o comprido de nossa exigência
abarque a brevidade de quinhentos anos.
Estou contigo, dá-me a tua mão, sempre.
Vamos até à certeza de que o tremor
da terra que sacudiu a primeira manhã,
e a perdemos por ser infantes,
ressuscite em nós, seja um longo compromisso.
Vamos regredir, se preciso for, somos jovens,
o negro não nos doeu demais na carne,
nem o canibal arreganhou nossa ciência.
Ali estão, neles, os desmandos apetecidos.
Poderemos, por instante, escrever nossos nomes,
as mãos dadas são dadas também quando se separam;
mas as mãos caminham pelos pés, se a estes
incumbe o apoio sem o qual só pensamos.
Demo-nos as palavras, uns aos outros, irmão,
as palavras farejam o álcool da guerra,
cada guerra que se cogita traz dentro do peito
outra guerra maior, a guerra consigo mesmo.
Vamos, irmão! A funilaria está marcada
pela lata que se torce, enferruja, mas corta.
De poesia também se amassa o pão que empurra
o caminho preparado no silêncio do dia.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
Elegia 9
dos dedos
a água cerze orifícios.
Noite fora a lua afia pastagens.
Molda-se a argila do corpo
com lágrimas.
Outra precisão,
outra imobilidade:
a do pião
na retina
de uma criança.
In: TREVISAN, Armindo. A mesa do silêncio. Porto Alegre: L± Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Os Velhos
Poema-Granadino XI
o beiço que herdamos
sem cachimbo de um pilão
e de uma erva do mato.
Pajé deu de comer
na mão aos passarinhos,
e a Anchieta.
Uma cruz ruminou
a alma implumada.
Psiu! Entortaram
o coração deste país.
Quem amolecerá o bronze
da pele que era nossa?
Entortaram até a língua.
A cor deu de aleitar-se,
o mameluco chupou
o polegar por descuido.
Qualquer coisa é preciso
para encher de aroma,
de som,
o padre-nosso esquecido.
Fiquem onde ficarem
os galões de Rondon.
Igaçabas e cascavéis
são nossos.
É preciso desentortar
a pancada que mugiu
no cérebro desta terra.
E fazer da ciência
como cauim o delírio
de provetas e guindastes,
iluminação e portos.
Não se desentorte errado
o sangue! Sangue é vento
que vem de todo lado.
Respire-o quem puder,
e fique mais corado.
Desentorte-se o vesgo
de um fuzil amargo,
o dinheiro pago
pelo dizer
sim ao passado.
E outra vez
desentorte-se o não,
que é tino de mundo
logo depois da criação.
E se alguém souber
de um destino mais terreal,
fale grosso que a língua
que temos é de algodão.
Se falarmos como pudermos,
seremos o que quisermos.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
Acalanto para Marilyn Monroe
no teu seio
cresceu um lírio do campo.
São Francisco, com sua mão
de menino, o recolheu.
São Bernardo, a sós, olhou
o teu corpo inteiro como
se olha
um grande girassol.
Vieram santos, donzelinhas
de pescoço decepado;
Santa Catarina trouxe
sua roda rubra e egípcia.
Tua coxa foi ficando
do tamanho azul da lua,
e tu mesma, mais lunar,
ficaste de todo nua.
O mundo inteiro grasnou
que eras bela, que possuías
um morango em cada poro,
uma flor em cada pêlo.
Banqueiro: por que me fitas?
Governador: que desejas?
O repórter, não me comas!
Tornei-me tão pequenina
que o pecado que morava
em mim deixou-me sozinha
com Deus e comigo, livre.
Na distração dessa hora
engoli todas as pílulas
que uma mulher necessita
para sair deste mundo.
Livre, livre,
bela bela
recuperei o meu corpo
nascido antes de mim.
(...)
Publicado no livro A imploração do nada (1971).
In: TREVISAN, Armindo. Antologia poética. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986. p.25
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