Armando Cortes-Rodrigues

Armando Cortes-Rodrigues

1891–1971 · viveu 80 anos PT PT

Armando Cortes-Rodrigues foi um poeta e escritor português, cuja obra se insere nas correntes do Simbolismo e do Modernismo. A sua poesia é marcada por uma profunda musicalidade, por um tom melancólico e por uma exploração de temas como a morte, o tempo e a saudade, muitas vezes evocados através de uma linguagem rica em simbolismo e imagética sensorial. Foi também um importante divulgador da literatura e da cultura portuguesa.

n. 1891-02-28, Vila Franca do Campo · m. 1971-10-14, Ponta Delgada

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Anoitecer

Ficou o céu descorado…
E a Noite, que se avizinha,
Vem descendo ao povoado,
Como trôpega velhinha.

Para a guiar com cuidado
Veio-lhe ao encontro a Tardinha,
Não fosse a Noite sozinha
Perder-se em caminho errado.

Vão as duas caminhando…
E como o Sol já não arde,
Para o caminho ir mostrando

A primeira estrela brilha…
Então diz a Noite à Tarde:
– Vai-te deitar minha filha.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Armando de Campos Cortes-Rodrigues, conhecido como Armando Cortes-Rodrigues, foi um poeta, ensaísta, crítico literário e professor português. Nasceu em 1906 e faleceu em 1971. A sua obra poética é frequentemente associada às correntes simbolista e modernista, tendo sido um dos fundadores da revista "Presença", um marco do Modernismo português. Era licenciado em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Infância e formação

Armando Cortes-Rodrigues nasceu e cresceu num ambiente que lhe permitiu aceder a uma sólida formação académica. A sua licenciatura em Filologia Germânica em Coimbra revela um interesse precoce pelas letras e pelas línguas, bem como uma abertura a influências literárias estrangeiras. A sua formação intelectual foi fundamental para o desenvolvimento do seu pensamento crítico e da sua sensibilidade estética, absorvendo as tendências literárias e culturais do seu tempo.

Percurso literário

O percurso literário de Armando Cortes-Rodrigues foi multifacetado. Começou por se destacar como poeta, publicando obras que o inseriram no panorama literário da época. Foi um dos fundadores e colaboradores ativos da influente revista "Presença", o que demonstra o seu papel central no movimento modernista português. Para além da poesia, dedicou-se ao ensaio, à crítica literária e à tradução, contribuindo para a difusão e análise da literatura portuguesa e estrangeira. A sua atividade como professor universitário, especialmente em Coimbra, também marcou o seu percurso.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Armando Cortes-Rodrigues é notável pela sua musicalidade, pelo lirismo denso e pela exploração de temas como a morte, o tempo, a saudade e a efemeridade da existência. O seu estilo é frequentemente classificado como simbolista, com uma linguagem cuidada, rica em imagens sensoriais e metáforas evocativas. O uso do verso, por vezes com influências do verso livre, contribui para a fluidez e o ritmo das suas composições. O tom da sua poesia é, por vezes, elegíaco e introspectivo. Para além da poesia, os seus ensaios e críticas literárias são importantes para a compreensão do seu pensamento e do contexto literário da época. A sua obra dialoga com a tradição poética portuguesa, mas incorpora as inovações e as sensibilidades do Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Armando Cortes-Rodrigues viveu num período de grandes transformações em Portugal e na Europa. O movimento "Presença", do qual foi um dos fundadores, procurava renovar a literatura portuguesa, alinhando-a com as vanguardas europeias. O seu trabalho como professor em Coimbra colocou-o no centro da vida intelectual e académica do país. A sua posição como crítico e teórico literário permitiu-lhe intervir no debate cultural da sua época, estabelecendo diálogos e, por vezes, tensões com outros escritores e correntes literárias.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Armando Cortes-Rodrigues manteve uma vida dedicada ao estudo, à escrita e à docência. As suas relações pessoais e afetivas, embora menos documentadas publicamente, certamente moldaram a sua visão de mundo e influenciaram a sua obra. A sua dedicação à carreira académica e literária sugere uma personalidade focada e intelectualmente ativa. As suas posições filosóficas e culturais são mais evidentes na sua obra ensaística e crítica do que em revelações autobiográficas detalhadas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Armando Cortes-Rodrigues foi significativo, especialmente no meio intelectual e académico. A sua fundação da revista "Presença" e a sua participação ativa no movimento modernista consolidaram a sua importância. A sua obra poética é apreciada pela sua qualidade estética e pela profundidade dos temas abordados, sendo estudada e valorizada pela crítica literária. A sua atuação como professor também lhe conferiu um estatuto de respeito.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Cortes-Rodrigues foi influenciado por poetas simbolistas europeus e pela tradição lírica portuguesa. A sua obra, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas e críticos, especialmente no que diz respeito à renovação da linguagem poética e à exploração de temas existenciais. O seu legado reside não só na sua produção literária, mas também no seu papel como impulsionador do Modernismo em Portugal através da revista "Presença" e da sua atividade académica.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Armando Cortes-Rodrigues tem sido alvo de diversas interpretações críticas, que destacam a sua mestria formal, a complexidade simbólica e a ressonância dos seus temas existenciais. A análise da sua poesia revela uma profunda reflexão sobre a condição humana, a passagem do tempo e a busca por transcendência.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da vida de Armando Cortes-Rodrigues, como a sua relação com a cidade de Coimbra para além do seu percurso académico, ou detalhes sobre os seus hábitos de escrita e de investigação, poderiam enriquecer a compreensão do seu perfil. A análise de correspondência ou de manuscritos inéditos, se existentes, poderia revelar facetas adicionais da sua personalidade e do seu processo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Armando Cortes-Rodrigues faleceu em 1971. A sua memória é mantida viva através da sua obra, que continua a ser lida e estudada, e do seu papel histórico na promoção do Modernismo português. Publicações póstumas ou edições revistos da sua obra consolidam o seu lugar na literatura e na cultura portuguesas.

Poemas

6

Passo triste no mundo

Passo triste no mundo, alheio ao mundo.
Passo no mundo alheio, sem o ver,
E místico, ideal e vagabundo,
Sinto erguer-se minh'Alma do profundo
    Abismo do seu Ser.

Vivo de Mim, em Mim, e para Mim,
E para Deus em Mim ressuscitado,
Sou Saudade do Longe donde vim,
E sou Ânsia do Longe, em que por fim
    Serei transfigurado.

Vivo de Deus, em Deus, e para Deus,
E minh'alma, sonâmbula, esquecida,
Nele fitando os tristes olhos seus,
Passa triste e sozinha, olhando os céus,
    No caminho da Vida.

Fui Outro, e, Outro sendo, Outro serei;
Outro vivendo a mística beleza,
Por esta humana forma que encarnei,
Por lágrimas de sangue que chorei
    Na terra da tristeza.

Espírito na Dor purificado,
Ser que passa no mundo, sem o ver,
Em esta pobre terra de pecado,
Amor divino em Deus extasiado,
O meu Ser é Não-Ser em Outro-Ser.
722

Ergo Meus Olhos

Ergo meus olhos vagos, na distância
      Da sombra do meu Ser...
Pairam de mim além, e a minha Ânsia
      Cansa de me viver.

Meus olhos espectrais de comoção,
Olhos da alma, olhando-se a si,
Nimbam de luz a longa escuridão
      Da vida que vivi.

Auréola de Dor, que finaliza
Na noite do abismo do meu nada;
Silêncio, prece, comunhão sagrada,
Sombra de luz que em Ti me diviniza,
      Tortura do meu fim,
            Alma ungida
                  E perdida
Na grandeza de Si. E já sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
      Agonizo de Ser-me.
895

Anoitecer

Ficou o céu descorado…
E a Noite, que se avizinha,
Vem descendo ao povoado,
Como trôpega velhinha.

Para a guiar com cuidado
Veio-lhe ao encontro a Tardinha,
Não fosse a Noite sozinha
Perder-se em caminho errado.

Vão as duas caminhando…
E como o Sol já não arde,
Para o caminho ir mostrando

A primeira estrela brilha…
Então diz a Noite à Tarde:
– Vai-te deitar minha filha.
698

Sinfonia de Cor

Sempre defronte
de mim
o mar azul, o mar imenso, o mar sem fim,
todo igual e azul até ao horizonte.

Neste dia delirante
de luz crua a jorrar, intensa, lá do alto,
uma vela distante
mancha de branco o seu azul-cobalto.

Um traço de espuma branca
junto à penedia
marca a linha da costa em enseada franca.

E a nota branca
das gaivotas em bando,
esvoaçando
à revelia,
e um ritmo novo de alegria,
de ruído e de graça.

Perto uma vela passa,
lenço branco a acenar...

Não ter asas também para poder voar
aonde me levasse a minha fantasia!
E ser gaivota e mergulhar
na água e bater asas,
alegre, todo o dia!

Poisar nos calhaus negros, que são brasas,
brasas negras a arder,
e ver aos pés a referver
aos borbotões de espuma.

Dar um grito e subir,
subir alto e distante,
já quando a terra se esfuma
e o mar aumenta, quanto mais avante.

Partir!

Partir para o delírio das alturas,
só, entre o céu e o mar,
longe do mundo e mais das criaturas.

Ah! Não ter asas e poder voar
de alma desvairada,
entontecer-me de espaço...

– Nota branca riscada
entre o azul do céu e o azul do mar.

Depois voltar
para ver
o sol morrer
num clarão de fogueira,
incendiando o céu, metalizando o mar...

E ver a noite abrir
o regaço
para deixar cair
uma a uma as estrelas.

Adormecer a vê-las...

Depois sonhar,
num delírio de cor, a noite inteira.
739

Vozes da Noite

Vozes na Noite! Quem fala
Com tanto ardor, tanto afã?
Falou o Grilo primeiro,
Logo depois foi a Rã.

Pobre loucura dos homens
Quando julgam entendê-las…
Só eles pasmam os olhos
Neste encanto das estrelas…

Lá no silêncio dos campos
Ou no mais ermo da serra,
Na voz das rãs dala a àgua,
Na voz dos grilos a Terra.

Só eles cantam a vida
Com amor e singeleza,
Por ser descuidada, alegre;
Por ser simples, com beleza.

Pudesse agora dizer-te,
Sem ser por palavras vãs,
O que diz a voz dos grilos,
O que diz a voz das rãs.
706

Canção do Mar Aberto

Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?

De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.

Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!...

Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar
790

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