Escritas

Lista de Poemas

Poesia

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto

do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças
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NA LÍNGUA

É na língua a pátria recordada
o tempo de dizer palavras duras
Na língua o sal do mar e a procura
de um modo de dizer menos ocluso
Poesia se faz corpo já fonético
e amor e sexo se fazem nela, língua.

Não tem de ser portuguesa a pátria
(nem tudo quanto é dito é luso...)
Língua se escreve como se vive um corpo:
pátria total onde talvez o uso
da língua em seu fazer de facto
comprova o fogo do amor em seu palato.
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S. PEDRO DE ALCÂNTARA, MIRADOURO / MEMÓRIA DO VERÃO

Como cinzento-rosa a cidade
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança

O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo

... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)

Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
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Este é o canto mais perfeito da noite

este é o canto mais perfeito da noite.
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
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Poética

Como pedra lançada ao mar da infância quando a mãe abria a porta de casa e trazia o vento e o gelo Mar agitado nos seus círculos pétreos Quem dera eu encontrasse a repercussão das formas antigas e perfeitas até ao ponto em que das margens avistasse o epicentro da dor e da alegria.
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Ao leitor

Escreves quando as fábulas escavas.
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?

E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és

ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos

aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
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Skin deep

Adorei a cor do teu vestido
A cor de quando à noite a pele nos toca
Pudessem as minhas mãos ser o vestido
(estrangular-te a pele que me provoca)
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Poesia realista

É esta a rua
O rio da vida
A vida tua

Quem por demasiado
tempo se entregou
ao exercício

de escrever
como quem morre
e quer viver

saberá um dia
se foi de verdade
amado?

Não é a escrita
essa rede realista
que agarra a vida

nas malhas de fogo
ou no trânsito do cianeto?
Quem escreve saberá

que escrevendo prolonga
o dia acabado
em mais uma noite

longa como
corpo esgotado?
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A sombra

a sombra (o tigre de blake) a lira breve
a sombra horizonte da música
o revolver das mãos por dentro da pele
a voz na envolvente superfície do instante
a sombra no limite é o corpo a palavra
isto é o mármore da memória a fala
a cadeia de saliva em espessa floração
a sinuosa areia do deserto o sentido
perseguido na linha de sombra
a linha invisível a invasão antiga
a fonte grega a alegria súbita do êxtase
o poema é o rosto de alguém connosco
habitante como nós da imensa solidão
da sombra levada ao limite do signo
isto é do tecido rítmico
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Ecos

Errar todo o discurso de teus anos
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre

e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)

Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…

Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
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