Lista de Poemas

Poesia

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto

do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças
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Arte poética e não

A poesia é o signo extremado. Estremecendo, plástica, a palavra rasga. Contra a opacidade dos dias, a cristalização da frase, límpida, com seus sintagmas oferecendo ao lado de lá da tela a história original de um mundo. Estremecendo, o leitor sobrevive e insiste em reler passagens que, de algum modo, o penetram por imagens, flashes. Assim, contra os actos não há argumentos – e a poesia, se construída em verdade, produz novas formas de perceber as idades de que é feita, afinal, a nossa vida: metro, verso, estrofe, cadência rítmica, corpo a corpo, combate entre vida e morte. Extremidades da linha de fogo.
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Lente

De tarde tudo começava
e lá fora a elipse do vento
desenhava a casa e circulava
um perímetro maior de desalento

Era como se a poesia me ofuscasse
e o corpo em suspensão se mantivesse
à espera da morte ou regressasse à vida
depois do amor que se fizesse

Era a lente de aumentar essa paisagem
quase familiar mas indiferente
de rostos junto ao teu
Mas a imagem diminui
agora o mundo lentamente
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Variação

Regressas sempre aos versos
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no silêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta
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NA LÍNGUA

É na língua a pátria recordada
o tempo de dizer palavras duras
Na língua o sal do mar e a procura
de um modo de dizer menos ocluso
Poesia se faz corpo já fonético
e amor e sexo se fazem nela, língua.

Não tem de ser portuguesa a pátria
(nem tudo quanto é dito é luso...)
Língua se escreve como se vive um corpo:
pátria total onde talvez o uso
da língua em seu fazer de facto
comprova o fogo do amor em seu palato.
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Argila do sono

A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos

Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
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Um barco no rio

Rompem barcos
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio

Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos

a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
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É o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho

Hoje sou eu quem como o rio transluz
                                              Hoje sou eu quem sem primícias seca
                                                                                 Luiza Neto Jorge


é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
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Poética

Como pedra lançada ao mar da infância quando a mãe abria a porta de casa e trazia o vento e o gelo Mar agitado nos seus círculos pétreos Quem dera eu encontrasse a repercussão das formas antigas e perfeitas até ao ponto em que das margens avistasse o epicentro da dor e da alegria.
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S. PEDRO DE ALCÂNTARA, MIRADOURO / MEMÓRIA DO VERÃO

Como cinzento-rosa a cidade
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança

O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo

... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)

Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
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