Resposta a Drummond
Ă sempre no meu sempre aquele nunca
Ă© sempre nesse nunca aquele agora
Ă© sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo Ă© nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela espârança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fĂșria de nĂŁo estar sonhando
Mas novamente dĂłi a dor no peito
e dĂłi no corpo o que nos vai passando
mĂĄgoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violĂȘncia tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nĂłs lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que jå não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frĂĄgil este dia vasto
esta vida feita no que Ă© morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este Ăłdio ao mundo que Ă© amor eterno