Escritas

Lista de Poemas

A Caminho de Ser

Como
é difícil entender
os caminhos
que dentro de mim
não param de o ser

Vou, porque devo ir
e não me é dado
no tempo suspensa ficar.

Quero ir
tocar
olhar dentro das coisas
que os meus olhos buscam
poder alcançar.

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Reinvenção

Abrir-se
ao mundo
envolto nas palavras que calamos
percorrer caminhos,
antes recusados

Subir aos montes,
saborear o gosto da brisa
que quase uiva…

sobram dias de ruído
a confusão da Babel,
o vazio, o repetido
e a náusea permanente
de tudo ser sempre igual

Ah! pudesse eu regressar ali
onde tudo aconteceu
pela primeira vez…
pudesse eu entrar, lenta e docemente,
nas palavras ditas
que surgem à luz do primeiro brilho,
na génese do absoluto sentido.

Reinventar o vocabulário
como se rasga um caminho
a cada sílaba,
a cada nota,
a cada timbre,

E ante o inusitado pulsar
que nos assalta e acorda,
ver o novo onde o igual
ainda ontem surgia
naquele mesmo lugar.

Com as palavras, uma a uma,
refazer o mundo,
desvendar o centro de cada coisa que é
no instante urgente
em que o sentido grava,
indelevelmente
as marcas do ser.

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Longitudinal

Olhamos
os seres da gestação
espaço de chegada e de onde partimos,
viscosos restos de vidas vagas
desprendem-se da memória
lâmina

Nostálgicos retratos
do futuro adiante,
um adeus expresso em nossas vidas
longitudinal e sem remédio

roem interiores
os vermes da ausência
esse tanto que quisemos
esse pouco que logramos
esse nada que soubemos
da inexplicável presença.

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Meninos

Olho
os meninos que habitam a rua
casa que abriga
quem dentro das casas escoa os restos
da sua alma nua

E nas noites frias
em bando se juntam, sacudindo o frio
que trazem colado à pele e à vida,

Meninos,
perdidos pelas esquinas
nem sabem que existe um tempo adiante
que já não conjugam,
futuro imperfeito cravado nos dias.

E os meninos olham-nos
com seus olhos fundos que nos desafiam
e sentimos medo… não sentimos culpa!

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Fragilidade

Como
uma borboleta
frágil
apanhada de imprevisto
na perpendicular do tempo
assim me sinto

Borboleta
instante de ser alado
meu breve instante de infinito
lembras-me o tempo
fraccionado, ou indiviso?

Danço e rodopio
na luz, minha armadilha,
e só me detenho se chega a exaustão

sabendo que ali é o fim do voo
anseio ainda minhas leves asas
para me lançar na imensidão.

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Às Vezes

Às
vezes
eu fico sentada à espera
joelhos bem rentes à boca
mergulhada não sei em que águas
levemente agitadas

E ali , assim fico parada
na imensidão do vazio
que me acolhe amigo
e me estende a mão

E fico à espera de alguma coisa
vaga ou difusa
como se eu fosse corpo em gestação

E o que chega vem
sem dizer que vem é um vago torpor
que se agarra à alma…
e tremula a mão cinzela a palavra
na página branca
que sempre a aguardara.

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Casual

É
noite
uma casa ao longe,
pequenos olhos acesos
favos de gesso suspensos
na vertical

Azulejo púrpura
telhado de uniforme
laranja

E aqui tão perto
o miar de um felino…
fome ou cio?

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Humanum

Nada
mais,
além deste humano sentir…

à força de quê
calar a mágoa que nos afoga ?

Humano querer,
simples traço da humanidade,
indelével marca impressa
na verdade de humano
ser.

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Oikos

Oiço,
quedo-me serena
buscando decifrar as vozes
que emergem do fundo da terra
dos abismos do mar

O mistério …o obscuro
na transparência possível
vozes que emergem…
de onde?

Terra-mãe
mar, berço original
arvore sagrada verde serenidade
serena e erecta matriz do ser
na vertical.

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Aliança

Perscruto
os labirintos e os desertos
as palavras que rasgam
o fundo do silencio
em busca de uma centelha
apenas

vislumbre de noites
de estrelas veladas
onde emerge o sonho
teimando a opacidade
de horas desfiadas

e isso que agrilhoa
o gesto, a palavra, o querer
assoma à tona
de um mar de sargaços,
restos perdidos
vogam na memória
como exaustos náufragos.

Sim, ò Vida
quisera eu dizer-te
o sim da aliança,
coração, corpo, razão
todos os tempos
e lugares
onde me faço e fiz,
uma palavra só
eu nela inteira
e ela toda em mim.

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Comentários (1)

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claraluz1952
claraluz1952
2018-07-20

Doy especiales gracias a la gran artista y escritora Angela Santos por colorear este inconmensurable universo con sus majestuosas palabras. Sus poemas y escritos cristalizan la auténtica luz que ella trasporta en su espíritu. Un enorme abrazo y mi eterno cariño, desde Viena, Miriam M. Vargas