Escritas

Lista de Poemas

Corpos

Das noites de néon que celebramos
perdura a chama
e queimam ainda meus lábios
as memórias
que não se dissolvem nos dias

Cada gesto novo
recomeça a viagem, a descoberta,
e no amplexo das tuas coxas, perdida
eu reencontro
os sons e os cheiros
num lugar qualquer de mim guardados,
antes de partir

Entre os meus e os teus olhos
estende-se a languidez cúmplice
decifrando sinais
de velhos amantes,

da tua à minha boca
a curta distancia
de um sopro vai
e tudo em nós se mistura...

em tuas mãos, o ritual do fogo se inicia
e cresce a lava do desejo
que nos arrasta
por entre sussurros e explosões

E é num mar de calmaria,
na embriaguez dos ópios naturais,
que nossos corpos
húmidos, quentes, saciados
desaguam.
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Astro Rei

Lá vem
do fundo do nada
que à vida me trouxe..
ígneo me devolve
a luz e à beira-ser.

Deito-me no seu ocaso
e deixo-o acontecer
como um quente
e doce afago
dentro de mim

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Os Olhos do Tempo

Espraiam-se
meus gestos
insinuando desejos que se calam à passagem
do tempo em mim,
mas teimo ainda ser e acreditar

Desfio esperas e no meu regaço
silencio suspiros,
e é na brancura de um certo vazio
que ensaio abraços
perdidos na noite
que se deita a meu lado

E fico pensando
num pássaro que risca
breve o imenso espaço,
quisera eu planar
e voar assim também…

Mas meu coração,
hoje agrilhoado
prende-me a este instante…
quero o que me enche,
quero o que me falta
tenho o que não quero
tenho o que me farta

Olho o tempo e sinto-me
ser a fiandeira do irrepetível
momento que passa
e sinto crescer dentro do meu peito
como prenhe ventre
a imensa a saudade
que não sei se mata
ou aviva a alma

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Verbo

As
palavras são o que são...

delas fazemos pedras raras
farpas com que ferimos
oração com que nos ungimos,
revelação, descoberta, desocultação.

Com as palavras mordemos a boca
que sente o beijo contido na palavra,
com palavras matamos
ou fazemos reviver a alma,
com as palavras construímos ilusões,
destroçamos vidas refazemos corações

Com as palavras erguemos pirâmides de amor,
e no seu vértice estendidos em oferenda ao sol dourado
deitamos corpos amantes
no momento em que se transmudam
de sujeito em objecto amado

Com palavras mordemos
amamos, ferimos, oramos, refazemos,
pensamos destruímos
as palavras onde nos pomos
as palavras com que nos fazemos
as palavras que também somos.

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Cerrado

Toma- me....
pela mão ou inteira
e despe-me de tudo
o que não seja vida

Leva-me a um lugar
onde em mim te sinta
e adormeça a ira
de ser no presente
um ser adiado

Leva-me
ao lugar onde a vida se escuta
no mais fundo silêncio,
onde as pedras são corpos
que ao nosso se ajustam
e onde um sussurro
- vindo, quem sabe de onde-
vive preso ao ar...

Lá, onde à raiz, profundas
as águas nos devolvem
me deitarei, um dia
pronta para a terra
me engolir inteira
e parir de novo

E assim renascida
a dentes eu rasgo
o umbilical fio
que me traz suspensa
entre a noite presente
e as manhãs de oiro
onde a vida a esmo
não me furta os sonhos.

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Regresso

Gritámos por liberdade,
exigimos sua vivência,
e quando nos encontramos no centro desse imenso território,
quantas vezes não somos prisioneiros
da liberdade que não sabemos fruir...

a liberdade dos outros
esse umbral onde sempre paramos( ou deveríamos parar)
nos assusta mais ainda, quando do amor falamos...

mais do que a liberdade do outro
tememos que seu voo seja demasiado ousado,
como ave que vai e não regressa ao mesmo lugar.

É na verdade que se desenha nesse voo,
que vale a pena embarcar,
sentir e saber
que a ave, reconhecendo o caminho,
livre regressa ao beiral.

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Eu Não Sei

Dizer Adeus

Eu
não sei dizer adeus.
Adeus tem o som laminado de farpa
atravessando o ar
directa ao cerne da ferida
Nunca soube dizer adeus.
Abri rasgos nas veredas do sentir
para reconhecer nelas as marcas impressas
e Identificar meus sinais
Como dizer adeus?
Em alerta me quedo ao som de um adeus,
lembra-me viagem que não tem retorno
e por determinismo regresso às indeléveis marcas deixadas
ao jeito de revisitação
Não direi adeus, jamais....creio!
Quem sabe tão só
adeus por enquanto
se um adeus sem coragem
espreitar nos gestos quotidianos
se um esboço de adeus
inexpresso ou omisso
me acenar do outro lado
Eu não sei dizer adeus...
quiçá adeus por enquanto!
(28.12.99)

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Faltas-me!

Faltas-me
ainda que saciada
pelos dias plenos
da tua presença

Faltas-me
mais ainda
se não estou só
e outros acordam
a distancia em mim

Faltas-me
no tempo que desfio
em calendários

Faltas-me!..

e ainda assim te guardo
na força do meu querer
na paz que chega
se te lembro
no riso, na voz
nas marcas,

no lugar
que o  sonho traça
e a que regresso!

se me faltas.
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Instantes

Espanto e
assombro
navegam meus dias
e na visão de uma gota de orvalho
toda a luz de um cristal plangente
se revela no instante
em que o mistério se acerca.

Diante das coisas do mundo
se abrem feridas
e cascatas de luz se derramam também
se abertas as fendas
por onde entrar possam
os sinais aos olhos invisíveis

Estremeço
diante de um beijo
que se sente como pura vibração
num recanto de uma esquina qualquer
trocado, marcado em duas bocas
que ignoro, exibindo ao mundo
na expressão de um beijo
a incontida força que assoma à boca
da paixão

Em tudo me sinto,
e nada é ausência ou sem sentido
se desço ao centro do assombro
que rasga meus olhos
e deixa perenes sinais

Sobre a varanda dos meus dias
espero a luz da revelação,
e pressagio
em cada momento que passa
o inesperado mensageiro
do mistério da vida
que persigo.

Deixo-me levar no que vem
abraçando isso que não sei dizer
e na doce melopeia que me embala,
surgida desse ficar atenta
sacudo resquícios de raiva insuspeita
e sinto-me perto...mais perto de mim.
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Sintonia

Na superfície do meu corpo
palmilhada pelos teus dedos
reluzem cristalinos ainda
os sinais de tuas mãos
que são de sal e suor
Das paredes e dos móveis
e até dos espaços vazios,
nos lugares por onde andamos,
na retina, e na memória
ressurge a tua presença.
E esse estares em mim
tempo de colheita
o tempo de tudo ter,
é o banquete da vida
que nos devolve ao principio
de sentir que tudo volta
a ser na sua inteireza.
E nesse estado de graça
não busco fundo nem longe
o nirvana dos ascetas,
me basta a luz que emanas
e sentir que a batida
no meu peito é igual
à pulsão que te anima.

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Comentários (1)

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claraluz1952
claraluz1952
2018-07-20

Doy especiales gracias a la gran artista y escritora Angela Santos por colorear este inconmensurable universo con sus majestuosas palabras. Sus poemas y escritos cristalizan la auténtica luz que ella trasporta en su espíritu. Un enorme abrazo y mi eterno cariño, desde Viena, Miriam M. Vargas