Escritas

Lista de Poemas

Inesperadamente

Hoje,
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia

Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia

Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho

Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda

E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.

Talvez…..

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Nega-Entropia

O
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.

Parada fico a olhar o inevitável!

Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.

E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.

Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.

Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.

Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
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A Nossa Casa

Entrando,
a luz a domina,
a canela e o  jasmim
se fundem e expandem

a nossa casa ...

Dentro
as paredes reflectem
a luz que a ilumina
e se derrama pelo chão...

Nossos livros, nossos quadros
musica, fotografias
nossa cama, nossas marcas
pelos cantos

Fora
colhem o dia e respiram
as flores,
e o serra da estrela, saltita
ao ver-te passar o umbral..

a nossa casa...

Abre-se a porta
a luz anuncia a chegada...
a rede baloiça,
acendo um cigarro
e deitas-te a meu lado...

A tarde serena cai
sobre as Buganvilias
e os coqueirais
e algo em nós se ilumina...

a mesma luz se derrama
nos brancos lençóis de linho
onde acordas tu e eu...
a luz de todas as manhãs
adentrando nossa casa,
invadindo nossas vidas...

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Inominável

Escoam-se
as palavras
com que teça e urda
o sentido da corrente

parcos os vocábulos
assomam no afã de transparecer
ou desvelar
o que emerge
da explosão da Vida

Acerca-se do inominável
do silente corpo
a palavra ...
falha o intento de dizer
e é só limite

No hiato das  palavras
consentido
habita o silêncio, indecifrável
acerto de luz e sussurros
fonte secreta do saber antigo

é vago e é tanto....

E tudo se ilumina,
nos indecifráveis signos nascentes
desse
saber  pressentido.

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Puros Sangue

Desgarra-se
do meu peito
sem freio o potro selvagem
e galopa ao compasso
do que em mim te quer e pensa...

Que de sentir e saber
é seu galope, seu trote
e à vista do puro sangue,
que em teu peito saltita
se desgarra mais ainda.

Esses dois potros selvagens,
se reconhecem no cheiro,
no galope que os parelha,
no fogo, na crina ao vento...

Selvagens potros de fogo
exaltam na liberdade
centelhas de uma outra vida....
Pégasos da nossa memória
centauros foram um dia

Livres e soltos
no teu e no meu peito desgarram,
potros de fogo, selvagens
do nosso ser a medida.

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Mil Sóis

De
noites de mil sóis

se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego

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Amor e Sotaque

Tem um
modo de você saber
aquelas coisas
que as palavras complicam
ao jeito doce que você me ensinou,
com minhas mãos,
meus quadris
minhas coxas,
minha boca,
meu sexo extático
se diluindo no seu
como é fácil dizer: amor.
E nesse cocktail
de línguas e sotaques
coco e pitangas
caipiras  e fado,
negros e brancos
ourixás, samba e axé
Pessoa  e Quintana
Verde vermelho
Azul amarelo.
Nós
no final  misturando ainda
tu com  você.
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Secreta Morada

Vem,
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .

Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.

Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.

Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada

abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.

Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!

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Rumores

Sentem-se os rumores
os gestos que anunciam
a liberdade que chega
e se faz anunciar
no tempo em que tudo irrompe
e renasce à flor da terra

E do corpo ressalta a chama
a vivacidade que sai
pelos poros, pelo coração
e uma serenidade fluida se improvisa
nos gestos em tom de azul…

Lembram - se os dias de sol
agosto vivo no meu tempo,
quando só a Primavera
emerge na sagração

E há odes de luz e som
que se derramam dos olhos
que bebem já do futuro
pressentido a cada passo
que leva mais adiante

O teu sonho em mim guardado
como corpo em gestação
este sentir já um só
este cruzar de destino
o mesmo sonho, o mesmo caminho.

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Depois do Amor

Cai
sobre os amantes
como diáfano manto
uma doce serenidade
depois do amor…

É como se tudo parasse
e nada mais existisse
no momento em que suspensos
ficam o mundo, as dores
e o tempo

Serenidade…
só a serenidade emana
dos corpos amantes
depois do amor
depois da explosão
que tudo aquietou.

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Comentários (1)

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claraluz1952
claraluz1952
2018-07-20

Doy especiales gracias a la gran artista y escritora Angela Santos por colorear este inconmensurable universo con sus majestuosas palabras. Sus poemas y escritos cristalizan la auténtica luz que ella trasporta en su espíritu. Un enorme abrazo y mi eterno cariño, desde Viena, Miriam M. Vargas