Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

1937–2025 · viveu 87 anos BR BR

Affonso Romano de Sant'Anna foi um poeta, crítico literário e ensaísta brasileiro, conhecido pela sua poesia que explora a linguagem, a metalinguagem e a condição humana, frequentemente com um tom filosófico e irónico. A sua obra aborda temas como o tempo, a memória, a cidade e a relação do indivíduo com o mundo moderno, utilizando uma linguagem densa e imagética. Distinguido pela sua contribuição para a literatura e cultura brasileiras, Sant'Anna também se destacou como professor universitário e comentarista em diversos meios de comunicação, disseminando o conhecimento literário e a reflexão crítica. A sua poesia é marcada pela experimentação formal e pela profundidade temática, consolidando-o como uma das vozes mais relevantes da poesia contemporânea em língua portuguesa.

n. 1937-03-27, Belo Horizonte · m. 2025-03-04, Rio de Janeiro

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Limites do Amor

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.
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Poemas

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Isto & História,1968

Ontem, 67 estudantes foram presos na Cinelândia
enquanto se manifestavam contra o governo.
Mas outros tantos, 60 mil, talvez
foram à praia, no mesmo dia.
Fazia um sol estupendo.
Nenhum desses se importava com isto ou a história,
senão com o sol em suas peles bronzeadas, raquetes e pernas.
Que nenhuma folha ou fio de vossos cabelos caia
sem que Aquele que está no Céu o consinta.
Aqueles dois que bebem seu chope no bar da praia,
a babá que empurra o carrinho do bebê,
a colegial azul e branca que toma ônibus
o policial e o cacetete
isto ou aquilo – tudo é história.
Agora, por exemplo,
não estou lendo Marx, a Bíblia ou o que Levi-Strauss
escreveu sobre os bororos,
mas ouvindo os Blood, Sweat and Tears.
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Vou Ficar de Vez Na Porta Deste Cemitério

Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Assim, já não serei surpreendido
quando outro corpo dobrar a esquina.
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Farei aqui minha tenda como os antigos
que ali montavam feiras e quermesses
como tranquilos inquilinos.
Aguardarei aqui a morte
que há algum tempo começou a chegar. A morte
que há muito tempo começou a cavar. A morte
repentina, que diariamente abre sua oficina. A morte
matinal e vespertina. A minha morte
que há muito tempo
nasceu em mim, em Minas.
1 147

Antropologia Sexual

Pela Natureza o homem é um ser polígamo.
(Há exceções. Poucas).
Pela Natureza a mulher é ser monógamo.
(Há exceções. Muitas).
Há quem discorde.
De qualquer maneira
a biologia comportamental dá provas.
Pela Cultura o homem tenta ser monógamo.
(Tenta).
Pela Cultura a mulher tenta ser polígama.
(Tenta).
Nisto já se vão muitos mil anos.
Convenhamos,
a passagem da Natureza à Cultura
e a tentativa de se chegar a um acordo
tem sido
um notável esforço do casal.
1 145

Se Eu Dissesse

Se eu dissesse que o crepúsculo está coalhado de sangue
diriam que isto é uma banalidade
que só um mau poeta ousa escrever.
E, no entanto, o crepúsculo está coalhado de sangue.
Não só o crepúsculo, também a alvorada.
E quanto a isto não há muito que se possa fazer.
1 189

À Moda de Fernando Pessoa, Quase Manuel Bandeira

Se me parassem de pedir documentos
provando que sou quem sou…
ah! se parassem de me pedir documentos!
Esta a maior vantagem de estar morto:
ninguém me pedirá mais CPF, título de eleitor,
atestado de reservista e residência, provas de vacina
e pagamentos de imposto de renda.
Não me pedirão,
mas aos herdeiros
exigirão que provem que eu era quem eu era
ou que eu não era quem não era.
Nisto Deus resolveu de vez a questão:
quando, no primeiro guichê da burocracia humana,
Moisés lhe indagou: – Quem sois?
Ele tão somente respondeu:
– Eu sou quem sou.
No meu caso é diferente.
Eu nem sou o que penso ser.
Daí compreendo as dúvidas das repartições.
O bucrocrata pede
e eu lanço no balcão números e letras a granel.
Ele, funcionário, parece ao fim se contentar.
Eu, não.
Volto para casa
olho o espelho, reviro os poemas
numa pesquisa que não vai nunca terminar.
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Debruçado Sobre o Mistério

Não sou o primeiro a debruçar-me sobre o mistério.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha um pacto com estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
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Diálogo Com Os Mortos

Começo a conversar com os mortos amiúde
e vejo que têm muito a me dizer.
Estão sempre à minha espera
numa página de livro ou na memória.
Converso com eles
como se o assunto com meus contemporâneos
já se tivesse esgotado,
como se só eles, os mortos,
tivessem algo novo a me dizer.
1 079

Coisas da Primavera

O que fazer contigo loira primavera
que me chegas entreabrindo o mel das coxas?
O equinócio de tuas ancas me ilumina
a corola de tua boca tem zumbidos
e a cabeleira luminosa aflora
enquanto tuas pupilas me devoram.
1 147

Quando Viajas

Viajas, e desespero.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
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Poema Tirado de “Breve História da Ciência”

– a busca da verdade” do norueguês Eirik Newth
Aparentemente
existe um número infinito de seres vivos
que seguem a lei da probabilidade.
O astrônomo pode calcular
onde se encontrará o planeta Júpiter em três mil anos.
Mas nenhum biólogo
pode prever
onde a borboleta pousará.
928

Obras

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Gabriel
Gabriel

Não tem oque falar dessa lenda