Poemas nesta obra
A Bela do Avião
Mereço tocar em teus cabelos,
loira e anelada mulher
que não me conheces
e estás sentada a dois metros de mim neste avião.
Te contemplo com intimidade. Sei
teus contornos e perfumes.
Reclinas teu assento para dormir
e fechados os olhos viajas
para alguém que te espera, ou não,
sem saber que eu merecia tocar em teus cabelos,
em tua boca perfeita,
teu sublime nariz,
sem saber que conheço teu corpo
com uma intimidade absoluta.
Estou te vendo, com extremado pudor,
em peças íntimas no quarto,
sei da ponta de teus seios
e do grito que lanças ao gozar.
Como deve ser importuno
carregar continuamente
essa beleza
publicamente cobiçada!
Poderia te falar
mas te sentirias imediatamente punida
por seres linda.
Vai, colhe poemas, cobiças e suspiros
à tua passagem,
pois carregas o fastio da beleza
esse ornamento difícil de ostentar.
Nunca saberás que um poeta
assim te contemplou.
Nunca saberás que estás aqui descrita.
Nunca poderás te valer destes meus versos,
quando, sendo bela, chorares como as feias
e aviltada quiseres morrer
na hora da traição.
loira e anelada mulher
que não me conheces
e estás sentada a dois metros de mim neste avião.
Te contemplo com intimidade. Sei
teus contornos e perfumes.
Reclinas teu assento para dormir
e fechados os olhos viajas
para alguém que te espera, ou não,
sem saber que eu merecia tocar em teus cabelos,
em tua boca perfeita,
teu sublime nariz,
sem saber que conheço teu corpo
com uma intimidade absoluta.
Estou te vendo, com extremado pudor,
em peças íntimas no quarto,
sei da ponta de teus seios
e do grito que lanças ao gozar.
Como deve ser importuno
carregar continuamente
essa beleza
publicamente cobiçada!
Poderia te falar
mas te sentirias imediatamente punida
por seres linda.
Vai, colhe poemas, cobiças e suspiros
à tua passagem,
pois carregas o fastio da beleza
esse ornamento difícil de ostentar.
Nunca saberás que um poeta
assim te contemplou.
Nunca saberás que estás aqui descrita.
Nunca poderás te valer destes meus versos,
quando, sendo bela, chorares como as feias
e aviltada quiseres morrer
na hora da traição.
A Letra E a Morte
Para Fausto Henrique
Meu amigo morreu
e eu estava ao telefone encomendando estantes para os livros.
Quem me dava a notícia
explicava como o câncer devorou-lhe o fígado
em um mês,
enquanto minha mulher do outro lado da sala
perguntava se eu ia montar a árvore de Natal.
Volto pesaroso ao escritório
lembrando o amigo que restaurava obras raras
e mal repouso a tristeza e os olhos nas montanhas
outro telefonema
cobra-me uma conferência na Argentina.
Visitarei o corpo do amigo na capela 5 às três da tarde
mas não poderei acompanhar-lhe o sepultamento
porque no mesmo horário
estarei numa livraria
lançando um novo livro:
– mausoléu de palavras vivas –
celebrando o amor e a morte.
Meu amigo morreu
e eu estava ao telefone encomendando estantes para os livros.
Quem me dava a notícia
explicava como o câncer devorou-lhe o fígado
em um mês,
enquanto minha mulher do outro lado da sala
perguntava se eu ia montar a árvore de Natal.
Volto pesaroso ao escritório
lembrando o amigo que restaurava obras raras
e mal repouso a tristeza e os olhos nas montanhas
outro telefonema
cobra-me uma conferência na Argentina.
Visitarei o corpo do amigo na capela 5 às três da tarde
mas não poderei acompanhar-lhe o sepultamento
porque no mesmo horário
estarei numa livraria
lançando um novo livro:
– mausoléu de palavras vivas –
celebrando o amor e a morte.
A Maravilha do Mundo
Quem disse
que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?
que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?
À Moda de Fernando Pessoa, Quase Manuel Bandeira
Se me parassem de pedir documentos
provando que sou quem sou…
ah! se parassem de me pedir documentos!
Esta a maior vantagem de estar morto:
ninguém me pedirá mais CPF, título de eleitor,
atestado de reservista e residência, provas de vacina
e pagamentos de imposto de renda.
Não me pedirão,
mas aos herdeiros
exigirão que provem que eu era quem eu era
ou que eu não era quem não era.
Nisto Deus resolveu de vez a questão:
quando, no primeiro guichê da burocracia humana,
Moisés lhe indagou: – Quem sois?
Ele tão somente respondeu:
– Eu sou quem sou.
No meu caso é diferente.
Eu nem sou o que penso ser.
Daí compreendo as dúvidas das repartições.
O bucrocrata pede
e eu lanço no balcão números e letras a granel.
Ele, funcionário, parece ao fim se contentar.
Eu, não.
Volto para casa
olho o espelho, reviro os poemas
numa pesquisa que não vai nunca terminar.
provando que sou quem sou…
ah! se parassem de me pedir documentos!
Esta a maior vantagem de estar morto:
ninguém me pedirá mais CPF, título de eleitor,
atestado de reservista e residência, provas de vacina
e pagamentos de imposto de renda.
Não me pedirão,
mas aos herdeiros
exigirão que provem que eu era quem eu era
ou que eu não era quem não era.
Nisto Deus resolveu de vez a questão:
quando, no primeiro guichê da burocracia humana,
Moisés lhe indagou: – Quem sois?
Ele tão somente respondeu:
– Eu sou quem sou.
No meu caso é diferente.
Eu nem sou o que penso ser.
Daí compreendo as dúvidas das repartições.
O bucrocrata pede
e eu lanço no balcão números e letras a granel.
Ele, funcionário, parece ao fim se contentar.
Eu, não.
Volto para casa
olho o espelho, reviro os poemas
numa pesquisa que não vai nunca terminar.
A Morte Vizinha
Estou jogando água nas plantas
com o olhar no azul do mar
e minha vizinha está morta.
Sozinho em casa, improviso um almoço
e a morta vizinha já não come.
Comprei jornais
que a morta vizinha já não lê.
A morta vizinha
a morte vizinha
a minha morte
que se avizinha.
com o olhar no azul do mar
e minha vizinha está morta.
Sozinho em casa, improviso um almoço
e a morta vizinha já não come.
Comprei jornais
que a morta vizinha já não lê.
A morta vizinha
a morte vizinha
a minha morte
que se avizinha.
A Paineira E a Favela
Para Sérgio Faraco
Essa paineira na entrada da favela ao lado
está florindo
– e não é primavera.
Sob a rosada copa passam pivetes em fuga
e cruzam tiros de escopeta e AR-15.
À noite
são balas luminosas com seus rastros
traficando angústia na vizinhança.
Só uma vez, vi um cadáver baixar do morro.
Amanhece
e de minha janela vejo o mar.
O mar
e essa paineira florindo
– luminosa
embora não seja primavera.
Essa paineira na entrada da favela ao lado
está florindo
– e não é primavera.
Sob a rosada copa passam pivetes em fuga
e cruzam tiros de escopeta e AR-15.
À noite
são balas luminosas com seus rastros
traficando angústia na vizinhança.
Só uma vez, vi um cadáver baixar do morro.
Amanhece
e de minha janela vejo o mar.
O mar
e essa paineira florindo
– luminosa
embora não seja primavera.
A Porta do Messias
Entardecia dentro dos muros de Jerusalém:
crianças pedalavam atrás do azul
homens sentados negociavam os últimos raios de sol
mulheres vestiam antigas profecias
quando vi o fantasma do Messias
uma vez mais se aconchegando para dormir
na soleira da murada Porta de Herodes
para ele fechada, todavia.
crianças pedalavam atrás do azul
homens sentados negociavam os últimos raios de sol
mulheres vestiam antigas profecias
quando vi o fantasma do Messias
uma vez mais se aconchegando para dormir
na soleira da murada Porta de Herodes
para ele fechada, todavia.
Adágio de Mendelsohn
E como eu tivesse que sair do escritório
e o rádio tocasse o adágio do Concerto para Violino de Mendelsohn
decidi deixar ligado o aparelho
embora ninguém estivesse ali para apreciar o que se ouvia.
Deixei os livros, o computador, objetos na estante,
as canetas, grampeadores, tesoura, folhas de papel em branco,
deixei tudo entregue
à responsabilidade musical de Mendelsohn.
Quando voltei daí a dez minutos
todos os objetos, absolutamente todos,
olhavam-me agradecidos
e até na paisagem da janela
havia uma densa, muda e imponderável melodia.
e o rádio tocasse o adágio do Concerto para Violino de Mendelsohn
decidi deixar ligado o aparelho
embora ninguém estivesse ali para apreciar o que se ouvia.
Deixei os livros, o computador, objetos na estante,
as canetas, grampeadores, tesoura, folhas de papel em branco,
deixei tudo entregue
à responsabilidade musical de Mendelsohn.
Quando voltei daí a dez minutos
todos os objetos, absolutamente todos,
olhavam-me agradecidos
e até na paisagem da janela
havia uma densa, muda e imponderável melodia.
Adolescência
Bom teria sido
amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.
amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.
Além do Entendimento
A essa altura
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.
O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
– estatelado –
mais pareço
um cata-vento.
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.
O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
– estatelado –
mais pareço
um cata-vento.
Alexander Dubcek: o Guarda-Florestal
21 anos passou Dubcek como guarda-florestal
depois de deposto como Primeiro-ministro
por deflagrar a “primavera de Praga”.
Se gostava tanto de primavera
– pensaram os inimigos –
melhor que fosse cuidar de plantas e animais.
Assim Dubcek passou 21 anos como guarda-florestal.
É, sem dúvida, um longo tempo
para quem antes convivia com multidões na praça.
Dubcek, no entanto, manteve a necessária disciplina:
dialogava com os pinheiros,
planejava com as formigas,
parlamentava com as borboletas.
O que podia, um guarda-florestal, além disto,
senão proteger as crias das raposas
e contemplar o pôr do sol?
21 anos depois, da floresta,
eis que o chamam à praça pública para uma nova primavera.
Multidões o aguardam.
Dubcek fala. Como um guarda-florestal, é claro.
Uma voz de pássaro sai-lhe da garganta.
Com ele, a multidão canta.
depois de deposto como Primeiro-ministro
por deflagrar a “primavera de Praga”.
Se gostava tanto de primavera
– pensaram os inimigos –
melhor que fosse cuidar de plantas e animais.
Assim Dubcek passou 21 anos como guarda-florestal.
É, sem dúvida, um longo tempo
para quem antes convivia com multidões na praça.
Dubcek, no entanto, manteve a necessária disciplina:
dialogava com os pinheiros,
planejava com as formigas,
parlamentava com as borboletas.
O que podia, um guarda-florestal, além disto,
senão proteger as crias das raposas
e contemplar o pôr do sol?
21 anos depois, da floresta,
eis que o chamam à praça pública para uma nova primavera.
Multidões o aguardam.
Dubcek fala. Como um guarda-florestal, é claro.
Uma voz de pássaro sai-lhe da garganta.
Com ele, a multidão canta.
Alta Noite Em Mântova
Aconteceu-me alta noite entrar na Piazza delle Erbe,
em Mântova
caminhar sob suas arcadas
em silêncio
e, de repente, vislumbrar a
Torre dell’Orologio
o Palazzo della Ragione
a Rotonda di San Lourenzo.
Mântova dormia.
Na igreja de Sant’Andrea
repousava o corpo de Mantegna
velado por afrescos de Correggio.
Quando cheguei à praça
onde o Palazzo Ducale e o Castello di San Giorgio
me esperavam
– petrificado ante tanta beleza
na neblina passei a ser
apenas
uma das pedras que o luar reverberava.
em Mântova
caminhar sob suas arcadas
em silêncio
e, de repente, vislumbrar a
Torre dell’Orologio
o Palazzo della Ragione
a Rotonda di San Lourenzo.
Mântova dormia.
Na igreja de Sant’Andrea
repousava o corpo de Mantegna
velado por afrescos de Correggio.
Quando cheguei à praça
onde o Palazzo Ducale e o Castello di San Giorgio
me esperavam
– petrificado ante tanta beleza
na neblina passei a ser
apenas
uma das pedras que o luar reverberava.
Amizades & Exílios
(Lembrando Ivan Otero)
Belo
vens caminhando pela praia.
De pronto, não te reconheço.
Tens os cabelos brancos
embora sejas belo e forte
como ontem
quando íamos ao colégio
e as colegas te amavam
e os colegas te invejavam
no teatro e nos esportes.
Trinta anos cortados de exílio
mulher, polícia e filhos. “Ah! o amor!
ah! o amor (nos confessamos)
nunca o entenderemos.”
Conferimos os fios de nossas brancas barbas
que derramam sabedoria
em ondas sobre a areia.
Não somos sequer dois sábios chineses
senão dois náufragos brasileiros
sobraçando destroços pessoais numa praia tropical.
Belo
vens caminhando pela praia.
De pronto, não te reconheço.
Tens os cabelos brancos
embora sejas belo e forte
como ontem
quando íamos ao colégio
e as colegas te amavam
e os colegas te invejavam
no teatro e nos esportes.
Trinta anos cortados de exílio
mulher, polícia e filhos. “Ah! o amor!
ah! o amor (nos confessamos)
nunca o entenderemos.”
Conferimos os fios de nossas brancas barbas
que derramam sabedoria
em ondas sobre a areia.
Não somos sequer dois sábios chineses
senão dois náufragos brasileiros
sobraçando destroços pessoais numa praia tropical.
Amor de Ostra
Nunca soube como as ostras amam.
Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.
Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.
Amor E Ódio
Amor, te odeio
pelo que me fazes sofrer,
te odeio
porque não paro
de te querer,
te odeio porque sofro,
e, vivo, morro,
te odeio porque
em ti naufrago
quando era de ti
que tinha que vir
o meu socorro.
pelo que me fazes sofrer,
te odeio
porque não paro
de te querer,
te odeio porque sofro,
e, vivo, morro,
te odeio porque
em ti naufrago
quando era de ti
que tinha que vir
o meu socorro.
Analfabético
Nunca direi a palavra completa
Pois entre Alfa e Ômega
sou Beta.
Nunca direi a verdade absoluta
pois o que exponho
não é sequer vitória,
mas uma parte da luta.
Pois entre Alfa e Ômega
sou Beta.
Nunca direi a verdade absoluta
pois o que exponho
não é sequer vitória,
mas uma parte da luta.
Aniversário No Aeroporto
Faço 57 anos no aeroporto de Bogotá.
Aviões partem e chegam menos o meu
atrasado dois dias.
Crianças lambuzam-se de sorvetes choram
jovens deitam sobre mochilas pelo chão,
adultos olham o que surge e some no horizonte
e não sabem o que fazer da espera.
Leio jornais para ilustrar o tempo:
nos suplementos dois poemas de Bukowski
(um dos quais fala da bunda das mulheres mexicanas).
Vão inaugurar a restauração da Capela Sistina
onde Guevara esteve meditando
antes de embrenhar-se para morrer
– nascer nas matas da Bolívia.
Este país está todo dividido:
um terço com as guerrilhas,
um terço com o narcotráfico,
um terço que se quer governo.
Mas faço aniversário
e considerando minha vida de camelô literário
consulto no jornal o horóscopo do Tarot
que me adverte:
“sus cartas sostienem que no sucumbir a las persuasiones maléficas de la seducción, a su voz que habla maravillas, es casi imposible. Pero seria um error, porque el trabajo no tiene pajaritos de oro como le pintan. Velas mojadas, muchas velas mojadas”
Com velas molhadas
no aeroporto de Bogotá
meu aniversário não se comemora.
Aviões partem e chegam menos o meu
atrasado dois dias.
Crianças lambuzam-se de sorvetes choram
jovens deitam sobre mochilas pelo chão,
adultos olham o que surge e some no horizonte
e não sabem o que fazer da espera.
Leio jornais para ilustrar o tempo:
nos suplementos dois poemas de Bukowski
(um dos quais fala da bunda das mulheres mexicanas).
Vão inaugurar a restauração da Capela Sistina
onde Guevara esteve meditando
antes de embrenhar-se para morrer
– nascer nas matas da Bolívia.
Este país está todo dividido:
um terço com as guerrilhas,
um terço com o narcotráfico,
um terço que se quer governo.
Mas faço aniversário
e considerando minha vida de camelô literário
consulto no jornal o horóscopo do Tarot
que me adverte:
“sus cartas sostienem que no sucumbir a las persuasiones maléficas de la seducción, a su voz que habla maravillas, es casi imposible. Pero seria um error, porque el trabajo no tiene pajaritos de oro como le pintan. Velas mojadas, muchas velas mojadas”
Com velas molhadas
no aeroporto de Bogotá
meu aniversário não se comemora.
Ansiedade, 1983
Eu vi um homem
matar um animal
e ninguém o defendeu.
Eu vi um homem
matar outro homem
e ninguém o defendeu.
Eu vi um povo
exterminar outro povo
e ninguém o defendeu.
Prevejo homens
destruindo o mundo inteiro
e ninguém para detê-los.
Ninguém.
Nem você nem eu.
Nem Deus.
matar um animal
e ninguém o defendeu.
Eu vi um homem
matar outro homem
e ninguém o defendeu.
Eu vi um povo
exterminar outro povo
e ninguém o defendeu.
Prevejo homens
destruindo o mundo inteiro
e ninguém para detê-los.
Ninguém.
Nem você nem eu.
Nem Deus.
Antes Que Escureça – 2
Levanto-me para olhar o mar
antes que escureça.
Sopra um vento de leste
e eu sei que as águas estão mais frias.
Considero as plantas do jardim.
Na estante os livros me contemplam.
Levanto os olhos pesquisando o nada
e vejo uma gaivota no horizonte.
Ruídos da tarde me enternecem:
– uma buzina
– um grito de criança
– o cão latindo persistente.
O Sol se põe à minha direita, exausto.
De tantas tardes esvaídas
esta grafou-se naturalmente no papel.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para estrelas.
Escrevo. Venta o leste.
Escurece. E algo em mim
aos poucos se esclarece.
antes que escureça.
Sopra um vento de leste
e eu sei que as águas estão mais frias.
Considero as plantas do jardim.
Na estante os livros me contemplam.
Levanto os olhos pesquisando o nada
e vejo uma gaivota no horizonte.
Ruídos da tarde me enternecem:
– uma buzina
– um grito de criança
– o cão latindo persistente.
O Sol se põe à minha direita, exausto.
De tantas tardes esvaídas
esta grafou-se naturalmente no papel.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para estrelas.
Escrevo. Venta o leste.
Escurece. E algo em mim
aos poucos se esclarece.
Antropologia Sexual
Pela Natureza o homem é um ser polígamo.
(Há exceções. Poucas).
Pela Natureza a mulher é ser monógamo.
(Há exceções. Muitas).
Há quem discorde.
De qualquer maneira
a biologia comportamental dá provas.
Pela Cultura o homem tenta ser monógamo.
(Tenta).
Pela Cultura a mulher tenta ser polígama.
(Tenta).
Nisto já se vão muitos mil anos.
Convenhamos,
a passagem da Natureza à Cultura
e a tentativa de se chegar a um acordo
tem sido
um notável esforço do casal.
(Há exceções. Poucas).
Pela Natureza a mulher é ser monógamo.
(Há exceções. Muitas).
Há quem discorde.
De qualquer maneira
a biologia comportamental dá provas.
Pela Cultura o homem tenta ser monógamo.
(Tenta).
Pela Cultura a mulher tenta ser polígama.
(Tenta).
Nisto já se vão muitos mil anos.
Convenhamos,
a passagem da Natureza à Cultura
e a tentativa de se chegar a um acordo
tem sido
um notável esforço do casal.
Aprendizados
Uns aprendem a nadar
outros a dançar, tocar piano,
fazer tricô e a esperar.
Na infância cai-se
para se aprender a andar,
cai-se do cavalo e do emprego
aprendendo a viver e a cavalgar.
Em alguns aprendizados
chega-se à perfeição.
Em alguns.
No amor, não.
outros a dançar, tocar piano,
fazer tricô e a esperar.
Na infância cai-se
para se aprender a andar,
cai-se do cavalo e do emprego
aprendendo a viver e a cavalgar.
Em alguns aprendizados
chega-se à perfeição.
Em alguns.
No amor, não.
Arqueologia
Já sei o bastante sobre a infelicidade de meu vizinho
para poder dedicar-me melhor
a salvar a vida dos extintos etruscos.
Pelo meu vizinho
pouco posso fazer mais do que faço.
Mas pelos etruscos, posso ajudá-los
quando Furio Camillo
vier saqueá-los em 396.
Salvarei aquele vaso de alabastro de Volterra,
aquela cabeça feminina, em mármore, em Selinunte,
o sarcófago de Vila Giulia
com o relevo dos esposos nus se amando.
Os pobres e miseráveis
sempre os tendes convosco,
mas a beleza é rara e avara.
Se eu não a resgatar em mim
não poderei cuidar do meu vizinho
quando vier a peste negra de 1348.
para poder dedicar-me melhor
a salvar a vida dos extintos etruscos.
Pelo meu vizinho
pouco posso fazer mais do que faço.
Mas pelos etruscos, posso ajudá-los
quando Furio Camillo
vier saqueá-los em 396.
Salvarei aquele vaso de alabastro de Volterra,
aquela cabeça feminina, em mármore, em Selinunte,
o sarcófago de Vila Giulia
com o relevo dos esposos nus se amando.
Os pobres e miseráveis
sempre os tendes convosco,
mas a beleza é rara e avara.
Se eu não a resgatar em mim
não poderei cuidar do meu vizinho
quando vier a peste negra de 1348.
Arte Mortal
Anda me cercando a morte
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro da casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai e vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro da casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai e vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.
As Idades do Homem
Em Le Tre Etá dell’uomo de Giorgione,
o jovem de boné, ao centro, lê,
o pai, com o dedo erguido – como nas pinturas clássicas
– ensina,
o velho calvo é o avô, olhando para o lado
como se a resposta de tudo se encontrasse
fora da moldura, além do quadro.
o jovem de boné, ao centro, lê,
o pai, com o dedo erguido – como nas pinturas clássicas
– ensina,
o velho calvo é o avô, olhando para o lado
como se a resposta de tudo se encontrasse
fora da moldura, além do quadro.
Austin, 1976
E como caminhássemos à beira-rio no entardecer
e a filha menor nos perguntasse
se antes de nascer
já nos amávamos à beira-rio
minha mulher
se adiantou
– Sim, filha, a gente se amou
à beira desse e de outros rios
antes
e depois de você
e, sobretudo, sem rio.
e a filha menor nos perguntasse
se antes de nascer
já nos amávamos à beira-rio
minha mulher
se adiantou
– Sim, filha, a gente se amou
à beira desse e de outros rios
antes
e depois de você
e, sobretudo, sem rio.
Batalha de Boyne, 1966
(Em 1690 travou-se em Boyne, perto de Dublin, a histórica batalha entre o rei católico James II e o rei protestante William III. As sequelas do conflito continuam até hoje na vida da Irlanda conforme os jornais)
Bois tranquilos pastam
onde James II e William III
travaram a batalha de Boyne.
Ruídos de espadas e escudos
escorrem pelo rio da morte.
A grama é um verde eco de vida.
Há mel nas flores
e anúncios pós-modernos na estrada,
mas a batalha continua:
– James II e William III
guerreiam esta tarde nos subúrbios de Belfast.
Bois tranquilos pastam
onde James II e William III
travaram a batalha de Boyne.
Ruídos de espadas e escudos
escorrem pelo rio da morte.
A grama é um verde eco de vida.
Há mel nas flores
e anúncios pós-modernos na estrada,
mas a batalha continua:
– James II e William III
guerreiam esta tarde nos subúrbios de Belfast.
Batismo No Jordão
Numa tarde banhei-me no rio Jordão.
Para quem vinha dos açudes de Minas
podeis imaginar minha santa satisfação.
Eu nadava. Nadava submergia nadava
e olhava atentamente o céu.
No entanto,
nenhuma pomba
nenhuma voz paterna
dizia ser eu um escolhido
embora me aguardasse em algum lugar
a inevitável crucificação.
Para quem vinha dos açudes de Minas
podeis imaginar minha santa satisfação.
Eu nadava. Nadava submergia nadava
e olhava atentamente o céu.
No entanto,
nenhuma pomba
nenhuma voz paterna
dizia ser eu um escolhido
embora me aguardasse em algum lugar
a inevitável crucificação.
Biografia Alheia
Cada amigo que morre
enterra consigo gestos, frases, detalhes meus
que nem suspeito
e nos outros reverberam.
Com eles esvai-se
minha inapreensível biografia.
Estou, sem eles,
ficando duplamente escasso antes do fim.
Até por egoísmo
não posso mais perdê-los,
pois em cada um que perco
perco uma parte de mim.
enterra consigo gestos, frases, detalhes meus
que nem suspeito
e nos outros reverberam.
Com eles esvai-se
minha inapreensível biografia.
Estou, sem eles,
ficando duplamente escasso antes do fim.
Até por egoísmo
não posso mais perdê-los,
pois em cada um que perco
perco uma parte de mim.
Canibalismo Repensado
Às vezes tenho a impressão
que, apressado, vivo deglutindo a vida
pensando em comer-comer
com a voracidade do gourmand
sem a sutileza do gourmet.
Às vezes, penso que estou, na pressa
perdendo o sabor, o refino do tempero
o bouquet dos sentimentos
e que os fatos e pessoas
é que finalmente me devoram.
Estou cansado disto.
Paro. Penso. E, então, escrevo:
Oh! vida, que generosa tens sido!
Adeus canibalismo apressado
começo a saborear minúcias
quero mais delicadezas
na minha cama, na minha mesa.
que, apressado, vivo deglutindo a vida
pensando em comer-comer
com a voracidade do gourmand
sem a sutileza do gourmet.
Às vezes, penso que estou, na pressa
perdendo o sabor, o refino do tempero
o bouquet dos sentimentos
e que os fatos e pessoas
é que finalmente me devoram.
Estou cansado disto.
Paro. Penso. E, então, escrevo:
Oh! vida, que generosa tens sido!
Adeus canibalismo apressado
começo a saborear minúcias
quero mais delicadezas
na minha cama, na minha mesa.
Cão Poeta
Já urinei em várias partes do mundo:
nas ruínas gregas do palácio de Agamenon,
na ilha Comacina – lá em Como,
em Machu Pichu.
Urinava como um cão
marcando o território.
Às vezes, não urinava, escrevia.
Escrevia, não em árvores e pedras
como ostensivo turista.
Escrevia
como um cão
marcando na história alheia
– meu imponderável território.
nas ruínas gregas do palácio de Agamenon,
na ilha Comacina – lá em Como,
em Machu Pichu.
Urinava como um cão
marcando o território.
Às vezes, não urinava, escrevia.
Escrevia, não em árvores e pedras
como ostensivo turista.
Escrevia
como um cão
marcando na história alheia
– meu imponderável território.
Carta a Virgílio
Caro Virgílio:
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
Cena Na Lagoa
Movida por dez braços
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
Certaldo
Um lagarto passeia sobre os muros medievais da cidadela
sua mínima e inexpressiva história.
Como eu
a minha pequena, pequeníssima
quase história.
Bate o sino deste burgo medieval.
Junto às pedras do moinho
rosas e gerânios desbordam
de grandes vasos vermelhos,
um pé de figo ao lado se oferece
e estou sob uma videira que desde os tempos de Boccaccio
me dá sombra e cresce.
sua mínima e inexpressiva história.
Como eu
a minha pequena, pequeníssima
quase história.
Bate o sino deste burgo medieval.
Junto às pedras do moinho
rosas e gerânios desbordam
de grandes vasos vermelhos,
um pé de figo ao lado se oferece
e estou sob uma videira que desde os tempos de Boccaccio
me dá sombra e cresce.
Coisas Básicas
Vinte e poucas letras de alfabeto
e os inumeráveis textos e civilizações
sete notas musicais
e a profusão de harmonias e canções
quatro cores básicas
e essa infindável reverberação
dois dígitos
e o conhecimento cósmico em expansão
um só Princípio Ordenador
contendo em si o seu contrário
e, no entanto,
que incalculáveis consequências!
e os inumeráveis textos e civilizações
sete notas musicais
e a profusão de harmonias e canções
quatro cores básicas
e essa infindável reverberação
dois dígitos
e o conhecimento cósmico em expansão
um só Princípio Ordenador
contendo em si o seu contrário
e, no entanto,
que incalculáveis consequências!
Coisas da Primavera
O que fazer contigo loira primavera
que me chegas entreabrindo o mel das coxas?
O equinócio de tuas ancas me ilumina
a corola de tua boca tem zumbidos
e a cabeleira luminosa aflora
enquanto tuas pupilas me devoram.
que me chegas entreabrindo o mel das coxas?
O equinócio de tuas ancas me ilumina
a corola de tua boca tem zumbidos
e a cabeleira luminosa aflora
enquanto tuas pupilas me devoram.
Com Dante
Neste Castelo de Gargonza
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isto foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
– e da poesia.
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isto foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
– e da poesia.
Concerto de Dvorák
Soava na tela aquele concerto de celo de Dvorák:
eu via as imagens da orquestra
e as mãos e o rosto do possesso Misha Misky abraçado ao instrumento
engalfinhado numa amorosa luta com o sublime.
Lá fora
a intriga nos palácios,
as buzinas e os insultos,
a traição, a espera, o luto.
Aqui
a perfeição preenchendo a sala
num momento de paz absoluta.
eu via as imagens da orquestra
e as mãos e o rosto do possesso Misha Misky abraçado ao instrumento
engalfinhado numa amorosa luta com o sublime.
Lá fora
a intriga nos palácios,
as buzinas e os insultos,
a traição, a espera, o luto.
Aqui
a perfeição preenchendo a sala
num momento de paz absoluta.
Conferindo o Tempo
Estamos, meu vizinho e eu,
envelhecendo
no espelho do elevador.
É uma operação diária e complicada.
Um no outro, conferimos nosso avanço
comentando a decrepitude dos mais velhos.
O elevador desce, e avançamos sorrindo
como se houvesse flores no abismo.
envelhecendo
no espelho do elevador.
É uma operação diária e complicada.
Um no outro, conferimos nosso avanço
comentando a decrepitude dos mais velhos.
O elevador desce, e avançamos sorrindo
como se houvesse flores no abismo.
Construção, 1967
1.500 telhas,
5 portas, sendo
1 de entrada
2 laterais
1 de fundo
7 internas
8 janelas, sendo
3 laterais
3 frontais
2 de fundo
30.000 tijolos, mais
reboco, vidraças, fios, lâmpadas, canos,
fechaduras, maçanetas, trincos, esquadrias
fios, tacos, privadas, banheiros e pias,
azulejos e lambris vermelhos
– tudo isto amontoado
não é uma casa
como um dicionário
não é ainda um poema.
reboco, vidraças, fios, lâmpadas, canos,
fechaduras, maçanetas, trincos, esquadrias
fios, tacos, privadas, banheiros e pias,
azulejos e lambris vermelhos
– tudo isto amontoado
não é uma casa
como um dicionário
não é ainda um poema.
Da Janela do Hospital
Para Pedro Henrique Paiva
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
Darwin E Eu
Charles Darwin disse:
“observa-se que o elefante indiano às vezes chora”.
– Também o brasileiro,
se aqui elefante houvesse.
Em não o havendo
choro eu por ele
pesadamente.
“observa-se que o elefante indiano às vezes chora”.
– Também o brasileiro,
se aqui elefante houvesse.
Em não o havendo
choro eu por ele
pesadamente.
De Novo, Os Cupins
Minha filha chama-me para ouvir
o craque-craque dos cupins
devorando-me os livros na estante.
Paro, presto atenção, não ouço nada,
embora sejam meus os livros:
Joyce e seu irmão Stanislau, Soljenitizin,
Truman Capote, Marguerite Duras, nem sei mais.
Os cupins estão devorando a prosa.
Quando chegarão à poesia?
Preciso dialogar com minhas próprias ruínas.
Deveria ter ouvidos mais apurados. Deveria.
É a idade. Cada vez ouvindo menos
cada vez cupins comendo mais.
o craque-craque dos cupins
devorando-me os livros na estante.
Paro, presto atenção, não ouço nada,
embora sejam meus os livros:
Joyce e seu irmão Stanislau, Soljenitizin,
Truman Capote, Marguerite Duras, nem sei mais.
Os cupins estão devorando a prosa.
Quando chegarão à poesia?
Preciso dialogar com minhas próprias ruínas.
Deveria ter ouvidos mais apurados. Deveria.
É a idade. Cada vez ouvindo menos
cada vez cupins comendo mais.
Debruçado Sobre o Mistério
Não sou o primeiro a debruçar-me sobre o mistério.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha um pacto com estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha um pacto com estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
Desconfiando
Há muito
que não corro da polícia em praça pública.
Há muito
que não abrem correspondência minha.
Há muito
que não poupo palavras ao telefone.
Há muito
que não abrigo fugitivos.
Há muito
que vejo os filmes e leio livros que bem quero.
O que será que fiz?
Começo a desconfiar
que alguma coisa anda errada:
comigo
ou meu país.
que não corro da polícia em praça pública.
Há muito
que não abrem correspondência minha.
Há muito
que não poupo palavras ao telefone.
Há muito
que não abrigo fugitivos.
Há muito
que vejo os filmes e leio livros que bem quero.
O que será que fiz?
Começo a desconfiar
que alguma coisa anda errada:
comigo
ou meu país.
Desenhos de Picasso
“Eu não procuro, eu acho” (Picasso)
O que mostram (escondem)
entre as pernas
as mulheres de Picasso?
Relaxadas, entreabertas, entregues
dadivosas musas mudas
como se fossem gregas lascivas
espanholas carnudas
(ou baianas ociosas?)
nelas o sexo é uma fruta
que o pintor ousado morde.
O que acha (procura)
entre as pernas das mulheres
o pincel de Picasso
por essas vulvas entreabertas
e clitóris expostos
num labirinto de formas?
Ali,
o minotauro
insaciavelmente goza.
O que mostram (escondem)
entre as pernas
as mulheres de Picasso?
Relaxadas, entreabertas, entregues
dadivosas musas mudas
como se fossem gregas lascivas
espanholas carnudas
(ou baianas ociosas?)
nelas o sexo é uma fruta
que o pintor ousado morde.
O que acha (procura)
entre as pernas das mulheres
o pincel de Picasso
por essas vulvas entreabertas
e clitóris expostos
num labirinto de formas?
Ali,
o minotauro
insaciavelmente goza.
Diálogo Com Os Mortos
Começo a conversar com os mortos amiúde
e vejo que têm muito a me dizer.
Estão sempre à minha espera
numa página de livro ou na memória.
Converso com eles
como se o assunto com meus contemporâneos
já se tivesse esgotado,
como se só eles, os mortos,
tivessem algo novo a me dizer.
e vejo que têm muito a me dizer.
Estão sempre à minha espera
numa página de livro ou na memória.
Converso com eles
como se o assunto com meus contemporâneos
já se tivesse esgotado,
como se só eles, os mortos,
tivessem algo novo a me dizer.
Dilema
Sempre que volto de viagem
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
Domingo Nos Campos da Toscana
Domingo nos campos da Toscana:
vinhas enfileiradas,
oliveiras ondeando morros,
ciprestes pontuando torres e castelos
como se os sons de Frescobaldi
se condensassem em paisagem.
No entanto
aqui e ali
ouço estampidos que rasgam o azul:
um caçador de domingo com seu cão
desce solerte a encosta
com sua arma na mão.
Caem pássaros que não vejo
vitimados
sobre as folhas do chão.
Domingo nos campos da Toscana:
– a morte também envia seus ruídos
nos momentos de perfeição.
vinhas enfileiradas,
oliveiras ondeando morros,
ciprestes pontuando torres e castelos
como se os sons de Frescobaldi
se condensassem em paisagem.
No entanto
aqui e ali
ouço estampidos que rasgam o azul:
um caçador de domingo com seu cão
desce solerte a encosta
com sua arma na mão.
Caem pássaros que não vejo
vitimados
sobre as folhas do chão.
Domingo nos campos da Toscana:
– a morte também envia seus ruídos
nos momentos de perfeição.
Edificando a Morte
Nesta semana
morreram
três vizinhos no meu prédio.
Tomavam este elevador que tomo
passavam por esta portaria dizendo alô bom-dia
saíam por esta vila pisando as pedras
em dias de sol assim indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
O prédio permanece
e nele escrevo.
Inquilinos novos e velhos
tomam este elevador que tomo
passam pela portaria dizendo alô bom-dia
saem por esta vila pisando as pedras
em dias assim de sol indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
À noite
as luzes todas se apagam
e se apagam as tevês.
É quando o edifício inteiro dorme.
Dorme, num ensaio coletivo da arte de morrer.
morreram
três vizinhos no meu prédio.
Tomavam este elevador que tomo
passavam por esta portaria dizendo alô bom-dia
saíam por esta vila pisando as pedras
em dias de sol assim indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
O prédio permanece
e nele escrevo.
Inquilinos novos e velhos
tomam este elevador que tomo
passam pela portaria dizendo alô bom-dia
saem por esta vila pisando as pedras
em dias assim de sol indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
À noite
as luzes todas se apagam
e se apagam as tevês.
É quando o edifício inteiro dorme.
Dorme, num ensaio coletivo da arte de morrer.
Em Veneza
Em Veneza
estivemos
Goethe
Thomas Mann
Byron
Casanova
Vivaldi
minha mulher
e eu.
Não pudemos, infelizmente,
levar as crianças.
De Goethe
e dos demais, sabe a história.
De nosso amor em Veneza, sabemos
eu
e minha mulher.
E isto nos dá um certo sabor de glória.
estivemos
Goethe
Thomas Mann
Byron
Casanova
Vivaldi
minha mulher
e eu.
Não pudemos, infelizmente,
levar as crianças.
De Goethe
e dos demais, sabe a história.
De nosso amor em Veneza, sabemos
eu
e minha mulher.
E isto nos dá um certo sabor de glória.
Enquete
– O que estás lendo?
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
Entendimento
Estou cada vez mais entendendo a eternidade
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
Entre Castelos
Tenho conhecido castelos à beira-mar,
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.
Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.
Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.
Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.
Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?
Entrega
Abandonar o corpo à pessoa amada
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.
Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demônios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.
Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.
Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demônios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.
Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.
Epifania Num Bar de Aix
Sempre pensei, seria assim a maturidade:
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
Escavações
O que sei eu dos etruscos?
Suas artes, seus arados
seu comércio de além-mar?
O que sei eu dos etruscos?
Devo descer neste Poço de San Patrício, em Orvieto
e iniciar o aprendizado?
Ali, a 200 metros, acabam
de encontrar nas tumbas
mais profundas
vestígios
vestígios
– dos pré-etruscos.
– O que sei eu
– dos pré-etruscos?
Suas artes, seus arados
seu comércio de além-mar?
O que sei eu dos etruscos?
Devo descer neste Poço de San Patrício, em Orvieto
e iniciar o aprendizado?
Ali, a 200 metros, acabam
de encontrar nas tumbas
mais profundas
vestígios
vestígios
– dos pré-etruscos.
– O que sei eu
– dos pré-etruscos?
Esclerose Amorosa
O que fazíamos no leito?
De tua voz já nem me lembro.
Tuas pernas dissolvem-se na neblina.
Havia uivos de gozo?
Nem dos seios sei exatamente.
O que eu fazia? O que fazias?
Ah! uma vaga lembrança
a que nem amor eu chamaria.
No entanto, parece que eu sofria.
Sofria?
Já não me lembro por que sofria.
De tua voz já nem me lembro.
Tuas pernas dissolvem-se na neblina.
Havia uivos de gozo?
Nem dos seios sei exatamente.
O que eu fazia? O que fazias?
Ah! uma vaga lembrança
a que nem amor eu chamaria.
No entanto, parece que eu sofria.
Sofria?
Já não me lembro por que sofria.
Esgotamentos
Cuidado
quando lhe disserem
que o romance está esgotado
que a poesia está esgotada
que a música está esgotada
que a pintura está esgotada
que a escultura está esgotada
que o balé está esgotado
que o cinema está esgotado
que o teatro está esgotado
que a arte está esgotada
que a história está esgotada
que o homem está esgotado
que Deus está esgotado
Cuidado
pois esse alheio esgotamento
só nos consegue deixar
com a paciência esgotada.
quando lhe disserem
que o romance está esgotado
que a poesia está esgotada
que a música está esgotada
que a pintura está esgotada
que a escultura está esgotada
que o balé está esgotado
que o cinema está esgotado
que o teatro está esgotado
que a arte está esgotada
que a história está esgotada
que o homem está esgotado
que Deus está esgotado
Cuidado
pois esse alheio esgotamento
só nos consegue deixar
com a paciência esgotada.
Espada de Pizarro
Eu vi a espada de Pizarro
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
Estranhamento
Estranho
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.
Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.
Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.
Fim de Século
Ontem enterrei um presidente
seus discursos
seus decretos
e cinco anos de minha vida
em sua mão.
Há três dias enterrei
o maior artista do século
dois romancistas europeus
e um pintor brasileiro.
Todo dia há alguma coisa que enterrar.
Mas agora preparo-me
para uma façanha inédita:
sepultar um século inteiro.
Esta é uma tarefa enorme
terei que achar
alguém pra me ajudar.
seus discursos
seus decretos
e cinco anos de minha vida
em sua mão.
Há três dias enterrei
o maior artista do século
dois romancistas europeus
e um pintor brasileiro.
Todo dia há alguma coisa que enterrar.
Mas agora preparo-me
para uma façanha inédita:
sepultar um século inteiro.
Esta é uma tarefa enorme
terei que achar
alguém pra me ajudar.
Fim/Começo Dos Tempos
Porque o século ia acabar
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
Flor & Cultura
Meu conceito de jardim
determina
o que é praga
ao redor de mim.
determina
o que é praga
ao redor de mim.
Flores Sem Nome
Estou amando essas flores, sem lhes saber o nome.
Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como apreendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo aroma, certa forma,
como certas pessoas que por mim passaram
– inalcançáveis –
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.
Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como apreendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo aroma, certa forma,
como certas pessoas que por mim passaram
– inalcançáveis –
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.
Gargonza
Há castelos
– grandes obras humanas.
E que força têm as pedras
sedimentando as coisas
mudamente.
Mas a poesia pode estar nas frestas
como esses dois lagartos
que me espreitam soberanos
nesta manhã de sol
neste castelo de Gargonza, na Toscana.
Escrevo um texto para o jornal, perecível.
Os dois lagartos olham-me. Imóveis.
Imobilizado, já não escrevo.
Bate o sino na alta torre.
Estancou-se a prosa.
Poesia é o que nos espreita
pela fresta dos dias.
– grandes obras humanas.
E que força têm as pedras
sedimentando as coisas
mudamente.
Mas a poesia pode estar nas frestas
como esses dois lagartos
que me espreitam soberanos
nesta manhã de sol
neste castelo de Gargonza, na Toscana.
Escrevo um texto para o jornal, perecível.
Os dois lagartos olham-me. Imóveis.
Imobilizado, já não escrevo.
Bate o sino na alta torre.
Estancou-se a prosa.
Poesia é o que nos espreita
pela fresta dos dias.
Golpe Literário
Três poetas tropicais
revertendo o continente
com conteúdos formais,
deram um golpe na poesia
e o alardearam nos jornais.
A seguir
baniram o verso
dos poemas nacionais
exilaram a poesia
nas traduções abissais
e reescreveram a história literária
com ares imperiais.
Esta história local
com conteúdos morais,
mostra
que no Terceiro Mundo
até poetas
tratam a poesia
imitando os generais.
revertendo o continente
com conteúdos formais,
deram um golpe na poesia
e o alardearam nos jornais.
A seguir
baniram o verso
dos poemas nacionais
exilaram a poesia
nas traduções abissais
e reescreveram a história literária
com ares imperiais.
Esta história local
com conteúdos morais,
mostra
que no Terceiro Mundo
até poetas
tratam a poesia
imitando os generais.
Grécia, 1987
1
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
Hamburg Hill
(poema tirado do Los Angeles Time, 1967)
– 10 days of battle
– 3.000 feet high overlooking the Ashan Valley to the east
– 10 infantry assaults signs
– 10 May. 1967.
But it succumbed on 21th
11th attack as
1.000 troupes of the
101st. Airborne Division
– “It was a great victory by a gutty bunch of guys”
(said Major G. Melvin Zais)
– “Real victories don’t come easily” – he ended.
Many bodies were reported
found in deep bunkers
partly crushed by massive air strike.
– Celebrating the victory
marines went to spend two days at the beaches of Chinese Sea.
– 10 days of battle
– 3.000 feet high overlooking the Ashan Valley to the east
– 10 infantry assaults signs
– 10 May. 1967.
But it succumbed on 21th
11th attack as
1.000 troupes of the
101st. Airborne Division
– “It was a great victory by a gutty bunch of guys”
(said Major G. Melvin Zais)
– “Real victories don’t come easily” – he ended.
Many bodies were reported
found in deep bunkers
partly crushed by massive air strike.
– Celebrating the victory
marines went to spend two days at the beaches of Chinese Sea.
Hopper
Hopper
e a solidão dos objetos na vitrina
Hopper
e a solidão dos corpos na varanda
na janela
na campina
Hopper
e a solidão silente.
Hopper.
Hope.
Hopeless.
e a solidão dos objetos na vitrina
Hopper
e a solidão dos corpos na varanda
na janela
na campina
Hopper
e a solidão silente.
Hopper.
Hope.
Hopeless.
Iluminando
Que fulgurante a vida face ao entardecer.
Desfolho seus momentos numa verticalidade absurda.
Os gregos amavam o Sol
e os decadentistas
lunares formas de viver.
Projeto uns nos outros
iluminando o escurecer.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para ela.
Escrevo. Escrevo. Escrevo.
E, algo se grava e se esclarece
no ato de escreviver.
Desfolho seus momentos numa verticalidade absurda.
Os gregos amavam o Sol
e os decadentistas
lunares formas de viver.
Projeto uns nos outros
iluminando o escurecer.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para ela.
Escrevo. Escrevo. Escrevo.
E, algo se grava e se esclarece
no ato de escreviver.
In Illo Tempore
Havia uma certa ordem naquele tempo.
Sendo verão, chovia às quatro da tarde.
Os pássaros pousavam nos galhos
cantando cada qual sua canção.
É verdade que cães e gatos
continuam obedecendo às nossas ordens
às vezes absurdas
e alguns deitam-se aos nossos pés
e beijam nossas mãos.
Mas havia uma certa ordem naquele tempo.
Um quadrado era perfeito
e um triângulo de três lados
podia chegar à perfeição.
Sendo verão, chovia às quatro da tarde.
Os pássaros pousavam nos galhos
cantando cada qual sua canção.
É verdade que cães e gatos
continuam obedecendo às nossas ordens
às vezes absurdas
e alguns deitam-se aos nossos pés
e beijam nossas mãos.
Mas havia uma certa ordem naquele tempo.
Um quadrado era perfeito
e um triângulo de três lados
podia chegar à perfeição.
Irei a Lucca, Caminho do Mar
Irei a Lucca, caminho do mar.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
Isto
Falam sobre isto.
Discursam sobre isto.
E, no entanto,
nem por isto.
Discursam sobre isto.
E, no entanto,
nem por isto.
Isto & História,1968
Ontem, 67 estudantes foram presos na Cinelândia
enquanto se manifestavam contra o governo.
Mas outros tantos, 60 mil, talvez
foram à praia, no mesmo dia.
Fazia um sol estupendo.
Nenhum desses se importava com isto ou a história,
senão com o sol em suas peles bronzeadas, raquetes e pernas.
Que nenhuma folha ou fio de vossos cabelos caia
sem que Aquele que está no Céu o consinta.
Aqueles dois que bebem seu chope no bar da praia,
a babá que empurra o carrinho do bebê,
a colegial azul e branca que toma ônibus
o policial e o cacetete
isto ou aquilo – tudo é história.
Agora, por exemplo,
não estou lendo Marx, a Bíblia ou o que Levi-Strauss
escreveu sobre os bororos,
mas ouvindo os Blood, Sweat and Tears.
enquanto se manifestavam contra o governo.
Mas outros tantos, 60 mil, talvez
foram à praia, no mesmo dia.
Fazia um sol estupendo.
Nenhum desses se importava com isto ou a história,
senão com o sol em suas peles bronzeadas, raquetes e pernas.
Que nenhuma folha ou fio de vossos cabelos caia
sem que Aquele que está no Céu o consinta.
Aqueles dois que bebem seu chope no bar da praia,
a babá que empurra o carrinho do bebê,
a colegial azul e branca que toma ônibus
o policial e o cacetete
isto ou aquilo – tudo é história.
Agora, por exemplo,
não estou lendo Marx, a Bíblia ou o que Levi-Strauss
escreveu sobre os bororos,
mas ouvindo os Blood, Sweat and Tears.
Jardinagem
Amadureço na morte alheia a minha morte.
Olho na lombada dos livros
os que se foram
e nos vazios endereços a amizade
que do outro lado evaporou-se.
Às vezes me penso um coveiro
semeando lápides em crônicas e poemas,
outras,
buscando flores e perfumes no que enterrei
– um aplicado jardineiro.
Olho na lombada dos livros
os que se foram
e nos vazios endereços a amizade
que do outro lado evaporou-se.
Às vezes me penso um coveiro
semeando lápides em crônicas e poemas,
outras,
buscando flores e perfumes no que enterrei
– um aplicado jardineiro.
Lindinha
É linda, é vida, é mulher
essa pequenina mariposa
que, clarinha, pousou
na folha branca de papel.
É linda, é vida, é mulher.
Parece a cinderela,
alguém em traje de noiva,
tão quieta, embora.
Na cabeça uma coroa.
Com seu manto de rainha
mexe as anteninhas. Para mim?
Querida:
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
Que mensagem me trazes?
Escrevo entortando a frase, a letra
para não te machucar.
Não ser zoólogo
para entender-te,
saber tua espécie,
teus anseios, ó lindinha,
vai, voa, leva meu afeto
ou, então, fica tranquila
enquanto folheio coisas já escritas
ou em silêncio escrevo
para daqui não te apartar.
Me olhas, que te escrevo.
Adiante a lareira arde,
lá fora, cantam grilos.
Certo tens uma biografia
como qualquer ser desconhecido.
Paro de escrever. Te observo.
Se eu vivesse no campo
como São Francisco
que belos amigos faria!
Entre uma folha e outra,
entre um minuto e outro
um ser vivo pequenino, como eu,
se instalou defronte a mim.
Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
És pequenina,
és linda, és vida, és poesia
e, certamente, mulher.
essa pequenina mariposa
que, clarinha, pousou
na folha branca de papel.
É linda, é vida, é mulher.
Parece a cinderela,
alguém em traje de noiva,
tão quieta, embora.
Na cabeça uma coroa.
Com seu manto de rainha
mexe as anteninhas. Para mim?
Querida:
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
Que mensagem me trazes?
Escrevo entortando a frase, a letra
para não te machucar.
Não ser zoólogo
para entender-te,
saber tua espécie,
teus anseios, ó lindinha,
vai, voa, leva meu afeto
ou, então, fica tranquila
enquanto folheio coisas já escritas
ou em silêncio escrevo
para daqui não te apartar.
Me olhas, que te escrevo.
Adiante a lareira arde,
lá fora, cantam grilos.
Certo tens uma biografia
como qualquer ser desconhecido.
Paro de escrever. Te observo.
Se eu vivesse no campo
como São Francisco
que belos amigos faria!
Entre uma folha e outra,
entre um minuto e outro
um ser vivo pequenino, como eu,
se instalou defronte a mim.
Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
És pequenina,
és linda, és vida, és poesia
e, certamente, mulher.
Linguística
Diz o linguista:
– “a palavra cão não morde”.
Morde.
Saí com a perna sangrando após a aula.
Diz o linguista
– “a palavra cão não late”.
Late
e não me deixa dormir
com seus latidos.
Diz o linguista
“a palavra cão não come”.
Come
e se alimenta de minha carne.
– “a palavra cão não morde”.
Morde.
Saí com a perna sangrando após a aula.
Diz o linguista
– “a palavra cão não late”.
Late
e não me deixa dormir
com seus latidos.
Diz o linguista
“a palavra cão não come”.
Come
e se alimenta de minha carne.
Luar Na Toscana
A mim me tocou uma lua cheia em San Geminiano.
O que mais pode querer a alma de um homem
amado por uns, por outros detestado,
que segue os pássaros com os olhos
que deixa fluir com os rios o seu desejo
e tem no bolso uns quatro ou cinco segredos?
A mim me tocou, de novo, a lua cheia
e foi em Certaldo Alto.
Recebi-a calado.
E como era por demais extasiante
depositei-a
– nos olhos de minha amante.
O que mais pode querer a alma de um homem
amado por uns, por outros detestado,
que segue os pássaros com os olhos
que deixa fluir com os rios o seu desejo
e tem no bolso uns quatro ou cinco segredos?
A mim me tocou, de novo, a lua cheia
e foi em Certaldo Alto.
Recebi-a calado.
E como era por demais extasiante
depositei-a
– nos olhos de minha amante.
Mais Beleza, Senhor
Tio Lemos, humilde servo e pastor,
em sua vida tão despossuída
inda dizia: – Chega de bênção, Senhor!
Na Toscana, neste azul outonal
banqueteando com o corpo e o espírito
sorvendo a glória artística dos santos
quase chego a dizer: – Chega de bênção, Senhor!
Porém, minha alma insaciável
parece nunca se bastar, e implora:
– Mais beleza, mais beleza, Senhor!
E o Senhor impaciente, ordena:
– Entra nesta igreja de Orvieto
e ante os afrescos de Lucca Signorelli
ajoelha e chora.
em sua vida tão despossuída
inda dizia: – Chega de bênção, Senhor!
Na Toscana, neste azul outonal
banqueteando com o corpo e o espírito
sorvendo a glória artística dos santos
quase chego a dizer: – Chega de bênção, Senhor!
Porém, minha alma insaciável
parece nunca se bastar, e implora:
– Mais beleza, mais beleza, Senhor!
E o Senhor impaciente, ordena:
– Entra nesta igreja de Orvieto
e ante os afrescos de Lucca Signorelli
ajoelha e chora.
Meu Cão
Meu cão ouve comigo
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
Modigliani E Eu
Modigliani e eu
gostamos de grossas coxas
alongando o desejo nu.
O corpo em repouso
entregue ao olhar.
Modigliani e eu
gostamos de grossas coxas nuas,
não como as que a Rubens apeteciam.
Gostamos Modigliani e eu
de coxas nuas, consistentes.
No olhar, o imponderável.
E no triângulo do sexo
o silencioso,
o discreto,
o imensurável
e doce abismo
a nos chamar.
gostamos de grossas coxas
alongando o desejo nu.
O corpo em repouso
entregue ao olhar.
Modigliani e eu
gostamos de grossas coxas nuas,
não como as que a Rubens apeteciam.
Gostamos Modigliani e eu
de coxas nuas, consistentes.
No olhar, o imponderável.
E no triângulo do sexo
o silencioso,
o discreto,
o imensurável
e doce abismo
a nos chamar.
Momentos de Glória
Todos têm seu momento de glória:
o tigre ante o antílope abatido,
a formiga com seu pedaço de folha às costas,
a rutilante buganvília na janela.
Todos têm seu momento de glória.
Não só Carlos Magno, Alexandre e César.
Esse grilo humilde na cortina da sala,
essa rosa inclinada sobre a tarde,
a estridente chama na lareira.
Mesmo um queijo, um vinho para ceia,
os objetos mínimos da casa
expostos na prateleira,
todos têm seu momento de glória.
O artesão ou Miguelangelo,
e o que comete o crime perfeito,
o poeta e seu poema,
todos têm seu momento de glória
como aquela empregada da corte
com suas pernas e seios
como nenhuma Rainha Vitória.
o tigre ante o antílope abatido,
a formiga com seu pedaço de folha às costas,
a rutilante buganvília na janela.
Todos têm seu momento de glória.
Não só Carlos Magno, Alexandre e César.
Esse grilo humilde na cortina da sala,
essa rosa inclinada sobre a tarde,
a estridente chama na lareira.
Mesmo um queijo, um vinho para ceia,
os objetos mínimos da casa
expostos na prateleira,
todos têm seu momento de glória.
O artesão ou Miguelangelo,
e o que comete o crime perfeito,
o poeta e seu poema,
todos têm seu momento de glória
como aquela empregada da corte
com suas pernas e seios
como nenhuma Rainha Vitória.
Morte do Vizinho
Meu vizinho acaba de se jogar do 15.º andar
e seu corpo caiu no playground
nesta ensolarada manhã de verão.
Estava com depressão, dizem.
Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor.
Sei que escrevia sobre Freud.
Seu corpo ainda está lá em baixo.
Se eu tivesse ido à janela há pouco
o teria surpreendido em pleno voo
e lhe estendido a mão.
Estendo-lhe, tardio, o poema
que não interrompe a queda
mas é o gesto possível que antecede o baque.
e seu corpo caiu no playground
nesta ensolarada manhã de verão.
Estava com depressão, dizem.
Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor.
Sei que escrevia sobre Freud.
Seu corpo ainda está lá em baixo.
Se eu tivesse ido à janela há pouco
o teria surpreendido em pleno voo
e lhe estendido a mão.
Estendo-lhe, tardio, o poema
que não interrompe a queda
mas é o gesto possível que antecede o baque.
Morte No Jardim
Ondulando anéis rubros e negros, a cobra
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
– num misto de temor e êxtase.
Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores no gramado.
Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.
A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre os crisântemos e dálias.
– A poesia
não resgata
– o que matamos no jardim.
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
– num misto de temor e êxtase.
Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores no gramado.
Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.
A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre os crisântemos e dálias.
– A poesia
não resgata
– o que matamos no jardim.
Mudam-Se Os Tempos
Estão, de novo, mudando o mundo
sem minha permissão
(embora a cumplicidade obrigatória).
Expulsam as raposas e castores de suas tocas
e trocam de endereço as oliveiras.
Há muito já obrigavam os pássaros a portar gravatas
e forçavam os peixes a nadar de costas.
Ontem de manhã arredondaram o último quadrado
e hoje à meia-noite
prometem aprisionar a fugitiva elipse.
sem minha permissão
(embora a cumplicidade obrigatória).
Expulsam as raposas e castores de suas tocas
e trocam de endereço as oliveiras.
Há muito já obrigavam os pássaros a portar gravatas
e forçavam os peixes a nadar de costas.
Ontem de manhã arredondaram o último quadrado
e hoje à meia-noite
prometem aprisionar a fugitiva elipse.
Música Nas Cinzas
Toda vez que soa esse adágio do concerto para oboé de Mozart
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.
Musicalidades
E eu que pensava, fosse o amor
um calmo oboé de Mozart.
Sim, também o é.
Mas súbito, pancadas do destino
arrebentando as portas se ouvem.
É o amor, e é Beethoven.
um calmo oboé de Mozart.
Sim, também o é.
Mas súbito, pancadas do destino
arrebentando as portas se ouvem.
É o amor, e é Beethoven.
Na 5.ª Avenida
Sou um homem de 47 anos
andando na 5.ª avenida de Nova York
e vivo num mundo onde todos se devoram.
Acabei de ver uma exposição mostrando
como Picasso, Braque, Brancusi, Modigliani, Giacometti e Wlaminck
se apropriaram da arte africana
e se apropriavam eles mesmos
da arte uns dos outros.
De Gauguin e suas figuras da Polinésia
Picasso tirou suas “Duas mulheres sentadas”.
– “Eu não procuro, eu acho” – dizia ele
e assim ia devorando artistas e mulheres.
Esta manhã li
que o deserto do Saara avança 6 a 12 milhas por mês.
Só em 1984 avançou 125 milhas
ameaçando engolir Sahel.
Como são vorazes os artistas e desertos!
Não é tão longe a África nem tão longe a Polinésia!
Ali na esquina, um cidadão acaba de matar
dois jovens canibais que o atacaram
e, nos jornais, virou herói.
andando na 5.ª avenida de Nova York
e vivo num mundo onde todos se devoram.
Acabei de ver uma exposição mostrando
como Picasso, Braque, Brancusi, Modigliani, Giacometti e Wlaminck
se apropriaram da arte africana
e se apropriavam eles mesmos
da arte uns dos outros.
De Gauguin e suas figuras da Polinésia
Picasso tirou suas “Duas mulheres sentadas”.
– “Eu não procuro, eu acho” – dizia ele
e assim ia devorando artistas e mulheres.
Esta manhã li
que o deserto do Saara avança 6 a 12 milhas por mês.
Só em 1984 avançou 125 milhas
ameaçando engolir Sahel.
Como são vorazes os artistas e desertos!
Não é tão longe a África nem tão longe a Polinésia!
Ali na esquina, um cidadão acaba de matar
dois jovens canibais que o atacaram
e, nos jornais, virou herói.
Na Praça de Florença
Subo quatrocentos e tantos degraus
do Campanile del Duomo de Florença
– obra de Giotto.
Mania de subir pirâmides
edifícios
catedrais.
Forma de não ficar aterrado diante de tanta história.
Em frente
Brunelleschi ergueu a cúpula de Santa Maria del Fiore
onde vejo alçados dezenas de turistas
que subiram seus degraus
e olham o horizonte que se desfaz atrás de mim.
No folheto está escrito
que para visitar a Piazza del Duomo é necessário
pelo menos meio dia.
O dia vai terminar
a noite me chama
e eu não esgotei
– o que a praça oferecia.
do Campanile del Duomo de Florença
– obra de Giotto.
Mania de subir pirâmides
edifícios
catedrais.
Forma de não ficar aterrado diante de tanta história.
Em frente
Brunelleschi ergueu a cúpula de Santa Maria del Fiore
onde vejo alçados dezenas de turistas
que subiram seus degraus
e olham o horizonte que se desfaz atrás de mim.
No folheto está escrito
que para visitar a Piazza del Duomo é necessário
pelo menos meio dia.
O dia vai terminar
a noite me chama
e eu não esgotei
– o que a praça oferecia.
Não Estarei Aqui Em Tardes Como Essas
Não estarei aqui em tardes como essas:
– mulheres airosas e suas soberbas coxas sobre areia
que outros olharão com devoção intensa.
Falta não farei, a elas
e aos verões que não verei.
Não estarei aqui em tardes como essas:
– o alarido de andorinhas, o zumbido das cigarras
o branco azul colegial voltando para casa,
o barulhinho do chap-chap da água na enseada.
Como antes, o mundo sobreviverá sem mim.
Nunca mais tocarei a cabeleira do entardecer
e as coxas, e os seios e sua boca.
Há muito que algo em mim começa a se despedir.
Às vezes é nos momentos de mais aguda beleza
que uma parte de mim se vai enquanto
outras ficam num desespero luminoso.
É tocante o espetáculo.
Quando terei a humildade necessária
para sair de cena?
– mulheres airosas e suas soberbas coxas sobre areia
que outros olharão com devoção intensa.
Falta não farei, a elas
e aos verões que não verei.
Não estarei aqui em tardes como essas:
– o alarido de andorinhas, o zumbido das cigarras
o branco azul colegial voltando para casa,
o barulhinho do chap-chap da água na enseada.
Como antes, o mundo sobreviverá sem mim.
Nunca mais tocarei a cabeleira do entardecer
e as coxas, e os seios e sua boca.
Há muito que algo em mim começa a se despedir.
Às vezes é nos momentos de mais aguda beleza
que uma parte de mim se vai enquanto
outras ficam num desespero luminoso.
É tocante o espetáculo.
Quando terei a humildade necessária
para sair de cena?
Ninfa
Diz um crítico
que desde o tempo de Alexander Pope
as ninfas partiram
sem deixar seu endereço.
Se assim é
como explicar que junto àquela fonte
por trás daquele ramo, ao meu encontro
vem sorrindo a mulher que amo?
que desde o tempo de Alexander Pope
as ninfas partiram
sem deixar seu endereço.
Se assim é
como explicar que junto àquela fonte
por trás daquele ramo, ao meu encontro
vem sorrindo a mulher que amo?
Novo Gênesis
No primeiro dia
o Demônio criou o universo e tudo o que nele há
e viu que era bom.
No segundo dia
criou a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça, a soberba, a ira
a que chamou de sete virtudes capitais
e viu que era bom.
No terceiro dia criou as guerras.
No quarto dia criou as epidemias.
No quinto dia criou a opressão.
No sexto dia criou a mentira
e no sétimo dia, quando ia descansar,
houve uma rebelião na hierarquia dos anjos
e um deles, de nome Deus,
quis reverter a ordem geral das coisas,
mas foi exilado
na pior parte do Inferno – os Céus.
Desde então
o Demônio e suas hostes continuam firmes
na condução dos negócios universais,
embora volta e meia um serafim, um querubim
e algum filho de Deus, desencadeiem protestos, milagres, revoluções
querendo impingir o Bem onde há o Mal.
Porém não têm tido muito êxito até agora,
exceto em alguns casos particulares
que não alteraram em nada a marcha geral da história.
o Demônio criou o universo e tudo o que nele há
e viu que era bom.
No segundo dia
criou a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça, a soberba, a ira
a que chamou de sete virtudes capitais
e viu que era bom.
No terceiro dia criou as guerras.
No quarto dia criou as epidemias.
No quinto dia criou a opressão.
No sexto dia criou a mentira
e no sétimo dia, quando ia descansar,
houve uma rebelião na hierarquia dos anjos
e um deles, de nome Deus,
quis reverter a ordem geral das coisas,
mas foi exilado
na pior parte do Inferno – os Céus.
Desde então
o Demônio e suas hostes continuam firmes
na condução dos negócios universais,
embora volta e meia um serafim, um querubim
e algum filho de Deus, desencadeiem protestos, milagres, revoluções
querendo impingir o Bem onde há o Mal.
Porém não têm tido muito êxito até agora,
exceto em alguns casos particulares
que não alteraram em nada a marcha geral da história.
O Deus de Santa Fina
Santa Fina, aos 10 anos, doente,
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
O Éden Possível
Do lado de fora da Mesquita de Oman, em Jerusalém,
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
O Escriba Duker Dirite
O escriba Duker Dirite
2.400 anos antes de Cristo
4.399 antes de mim
estava ali fazendo o seu o meu mister.
Sentado, escrevia. Escrevia
o que lhe era dado escrever na Mesopotâmia.
Nada sei de sua biografia
se foi traído
se deixou dívidas
se foi subserviente a Nabucodonosor.
Sei que escrevia.
Nem sequer sei o que escrevia
mas seu gesto me é tão familiar
que por sua mão há 4.399 anos escrevo
um texto que não vai nunca terminar.
2.400 anos antes de Cristo
4.399 antes de mim
estava ali fazendo o seu o meu mister.
Sentado, escrevia. Escrevia
o que lhe era dado escrever na Mesopotâmia.
Nada sei de sua biografia
se foi traído
se deixou dívidas
se foi subserviente a Nabucodonosor.
Sei que escrevia.
Nem sequer sei o que escrevia
mas seu gesto me é tão familiar
que por sua mão há 4.399 anos escrevo
um texto que não vai nunca terminar.
O Impossível Acontece
O Messias nasceu de uma Virgem.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
O Morto Cresce
O morto cresce estranhamente, logo que morre.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
O Músico de Auschwitz
Em Jerusalém
encontrei um homem
que tocava violino em Auschwitz.
Tocava numa orquestra
acompanhando os que iam morrer no fogo crematório.
Hoje é engenheiro,
ilumina cidades do mundo inteiro,
inclusive os muros da Cidade Santa.
Não lhe perguntei que música tocava.
No seu braço o número – 121097, de prisioneiro.
Não lhe perguntei que música tocava.
Perguntei-lhe se ainda tocava.
Sim, ele tocava.
encontrei um homem
que tocava violino em Auschwitz.
Tocava numa orquestra
acompanhando os que iam morrer no fogo crematório.
Hoje é engenheiro,
ilumina cidades do mundo inteiro,
inclusive os muros da Cidade Santa.
Não lhe perguntei que música tocava.
No seu braço o número – 121097, de prisioneiro.
Não lhe perguntei que música tocava.
Perguntei-lhe se ainda tocava.
Sim, ele tocava.
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
O Pai
Procuro em meus papéis,
nos baús familiares
um perdido testamento.
Encontro cartas, provérbios em Esperanto,
pensamentos de Raumsol e a caligrafia de meu pai.
Homem de fé, rezava nos cemitérios.
Expulsou demônios em Uberlândia
e alta madrugada enfrentou o diabo
cara a cara em Carangola.
Nenhum dos filhos a tempo o entendeu.
Mas ele, esperantista,
esperava as cartas da Holanda,
as vacas gordas de José,
e o fim da Torre de Babel.
Meu pai, cidadão do mundo,
pobre professor de Esperanto
à beira do Paraibuna.
Lia, lia, lia. Havia sempre
um livro em sua mão.
E chegavam missivas
e selos fraternais
– mia caro samiedano –
Polônia, China,
Bélgica e Japão.
Maçom, grau 33,
letra caprichosa,
bordava atas da confraria,
falava-nos de bodes e caveiras,
liturgias impenetráveis
e um dia trouxe-nos a espada
que entre os maçons usava.
Aos domingos, à mesa
refastelava-se de Salmos:
lia os mais compridos
ante a fria macarronada,
mas sua flauta domingueira
apascentava meu desejo
de pecar lá no quintal
e arrebanhava as dívidas
despertas na segunda-feira.
Esteve em três revoluções.
Não sei se dava tiros
e medalhas nunca foi buscar.
Capitão de milícias
aposentado por desacato ao superior
discutia política sem muito empenho.
Votava com os pobres: PTB-PSD.
Tio Ernesto era udenista
e cobrava-lhe rigor.
Levou-me a ver Getúlio
num desfile militar.
No bolso, uma carta
expondo ao Presidente
penosa situação:
injustiças militares,
necessidade de abono
e pedia uma pasta de livros
pro meu irmão.
Isto posto, era capaz de esperar
semanas e meses
sem desconfiar, que ao chorar
ouvindo novelas
da Rádio Nacional
era ele próprio personagem,
porque se, como diz García Márquez,
ninguém escreve ao coronel,
o ditador jamais escreveria ao capitão.
Noivo contrariado,
fugiu com minha mãe
e com ela trocou cartas, que vi,
escritas com o próprio sangue.
Brigou com um carroceiro
que chicoteava uma besta
diante de nossa porta.
E quando a tarde crepusculava,
tomava a filha paralítica no colo
passeando seu calvário pelas ruas
do interior.
Certa vez, como os irmãos
pusessem em mim trinta apelidos
querendo me degradar
chamando-me de “guga”
“tora”, “manduca” e “júpiter”,
certa noite, notando-me a tristeza
levou-me pro quintal
entre couves e chuchus:
mostrou-me Júpiter, a enorme estrela
e outras constelações: peixes
touros, centauros, ursas maiores e menores
tudo a brilhar em mim
estrelas que com ele eu distinguia
e desde aquela noite
nunca mais pude encontrar.
nos baús familiares
um perdido testamento.
Encontro cartas, provérbios em Esperanto,
pensamentos de Raumsol e a caligrafia de meu pai.
Homem de fé, rezava nos cemitérios.
Expulsou demônios em Uberlândia
e alta madrugada enfrentou o diabo
cara a cara em Carangola.
Nenhum dos filhos a tempo o entendeu.
Mas ele, esperantista,
esperava as cartas da Holanda,
as vacas gordas de José,
e o fim da Torre de Babel.
Meu pai, cidadão do mundo,
pobre professor de Esperanto
à beira do Paraibuna.
Lia, lia, lia. Havia sempre
um livro em sua mão.
E chegavam missivas
e selos fraternais
– mia caro samiedano –
Polônia, China,
Bélgica e Japão.
Maçom, grau 33,
letra caprichosa,
bordava atas da confraria,
falava-nos de bodes e caveiras,
liturgias impenetráveis
e um dia trouxe-nos a espada
que entre os maçons usava.
Aos domingos, à mesa
refastelava-se de Salmos:
lia os mais compridos
ante a fria macarronada,
mas sua flauta domingueira
apascentava meu desejo
de pecar lá no quintal
e arrebanhava as dívidas
despertas na segunda-feira.
Esteve em três revoluções.
Não sei se dava tiros
e medalhas nunca foi buscar.
Capitão de milícias
aposentado por desacato ao superior
discutia política sem muito empenho.
Votava com os pobres: PTB-PSD.
Tio Ernesto era udenista
e cobrava-lhe rigor.
Levou-me a ver Getúlio
num desfile militar.
No bolso, uma carta
expondo ao Presidente
penosa situação:
injustiças militares,
necessidade de abono
e pedia uma pasta de livros
pro meu irmão.
Isto posto, era capaz de esperar
semanas e meses
sem desconfiar, que ao chorar
ouvindo novelas
da Rádio Nacional
era ele próprio personagem,
porque se, como diz García Márquez,
ninguém escreve ao coronel,
o ditador jamais escreveria ao capitão.
Noivo contrariado,
fugiu com minha mãe
e com ela trocou cartas, que vi,
escritas com o próprio sangue.
Brigou com um carroceiro
que chicoteava uma besta
diante de nossa porta.
E quando a tarde crepusculava,
tomava a filha paralítica no colo
passeando seu calvário pelas ruas
do interior.
Certa vez, como os irmãos
pusessem em mim trinta apelidos
querendo me degradar
chamando-me de “guga”
“tora”, “manduca” e “júpiter”,
certa noite, notando-me a tristeza
levou-me pro quintal
entre couves e chuchus:
mostrou-me Júpiter, a enorme estrela
e outras constelações: peixes
touros, centauros, ursas maiores e menores
tudo a brilhar em mim
estrelas que com ele eu distinguia
e desde aquela noite
nunca mais pude encontrar.
O Que Ficou
É falsa a versão
de que passei incólume
ao pisar as brasas,
atravessar paredes,
ser serrado ao meio,
ao beijar a víbora
e acariciar o arcanjo.
Tudo me alterou:
as notícias que Marco Polo
trouxe do Oriente,
o olhar da cachorrinha
buscando seus filhotes,
a borboleta que morreu na pia.
Certo resisti ao vento, à peste.
Mas tudo me alterou.
hoje tenho um passado.
No meu corpo está presente
tudo o que me trespassou.
de que passei incólume
ao pisar as brasas,
atravessar paredes,
ser serrado ao meio,
ao beijar a víbora
e acariciar o arcanjo.
Tudo me alterou:
as notícias que Marco Polo
trouxe do Oriente,
o olhar da cachorrinha
buscando seus filhotes,
a borboleta que morreu na pia.
Certo resisti ao vento, à peste.
Mas tudo me alterou.
hoje tenho um passado.
No meu corpo está presente
tudo o que me trespassou.
O Que Sei Dos Etruscos
Quase tudo o que se sabe dos etruscos
é o que deixaram inscrito em seus sarcófagos:
imagem de danças
música
esportes
banquetes
desenhos de demônios
enfim
o conhecimento do dia a dia
feito arte funerária:
espécie de jornal
enciclopédia
essência
daquilo que da morte sempre resta, poesia.
é o que deixaram inscrito em seus sarcófagos:
imagem de danças
música
esportes
banquetes
desenhos de demônios
enfim
o conhecimento do dia a dia
feito arte funerária:
espécie de jornal
enciclopédia
essência
daquilo que da morte sempre resta, poesia.
O Telefone E o Amigo Morto
(Crônica-poema para Hélio Pellegrino)
Nesta límpida manhã de março
o telefone ainda não anunciou a morte do amigo.
A lagoa e as montanhas sabem já que algo morreu longe de mim
e, no entanto, disfarçam a notícia numa cumplicidade azul.
Quanto tempo levará ainda esta notícia
retida em outras bocas e ouvidos
até me atingir como um tijolo no peito?
Ainda não começou a morrer (em mim) aquele que já morreu
e que as gaivotas da praia não ousam anunciar.
Há uma tocaia atrás do azul desta manhã.
Desprotegido, recorto jornais, dou telefonemas,
azulejo a manhã na minha mesa,
organizando a burocracia do dia.
Nesta límpida manhã de março
o telefone não anunciou ainda a morte do amigo.
Se alguém, súbito, o mencionasse vivo
o veria no consultório das falas aflitas
ouvindo o relatório das paixões desnorteantes
o admiraria nas festas e mesas, nos comícios e textos
alternando revolução e ternura.
O telefone, porém, ainda não soou.
Estou no minuto anterior à notícia da morte
em que a felicidade é consentida.
No minuto anterior à morte
em que é possível o gesto salvador
que resgate o jovem no fatal mergulho,
o carro que se desgovernou na pista,
a bala que atravessou a noite.
Aquele minuto anterior à morte
em que a mão do médico prolonga e tece
com novos fios, a vida.
O telefone ainda não soou
e não sei que à tarde estarei no cemitério
lado a lado com seu corpo, caminhando
entre desconhecidas covas, desvalido
abraçando outros desvalidos.
Não acordei hoje para ir ao cemitério
e à luz dos refletores da tarde ter que formular o pasmo
sobre o ocaso de uma geração que vai se dizimando.
Mas a manhã azul, traiçoeira, como o alcaguete
escolhe a vítima e antegoza a tortura da notícia.
Impossível, contudo, ver no Sol desta manhã o eclipse da face amiga.
Ao contrário, o vejo: Hélio – o fulgurante
Hélio – solar criatura, verbo coruscante, mediterrânea fagulha
versando sagrada fúria.
Hélio – lírico desassombro entre ruínas
com o tropismo de sua voz nos ensinando
que é possível ser grego e tropical, nascendo em Minas.
Ah! Héliovívida aventura, Héliodescentrada figura
lançando sóis na órbita da loucura.
O telefone ainda não soou sua morte
que venha quando venha será sempre prematura.
O telefone ainda não soou
e não sei ainda como o infarto estanca na madrugada
uma usina de sonhos em forma humana.
Não posso portanto perguntar ainda
o que será de seus três eus restantes.
O telefone me dá tempo de olhar estúpido
a límpida manhã de março
ainda sem amargura.
Mas a ditadura deste azul é sufocante.
O telefone ainda não lançou manchas roxas na pele da manhã.
O telefone não sabe o que se prepara no inconsciente das manhãs.
Por ora, contemplo a manhã desta janela. É eterna.
Arrumo os papéis azulejando a burocracia do dia.
Tenho um dia pela frente
– e sou quase feliz.
Nesta límpida manhã de março
o telefone ainda não anunciou a morte do amigo.
A lagoa e as montanhas sabem já que algo morreu longe de mim
e, no entanto, disfarçam a notícia numa cumplicidade azul.
Quanto tempo levará ainda esta notícia
retida em outras bocas e ouvidos
até me atingir como um tijolo no peito?
Ainda não começou a morrer (em mim) aquele que já morreu
e que as gaivotas da praia não ousam anunciar.
Há uma tocaia atrás do azul desta manhã.
Desprotegido, recorto jornais, dou telefonemas,
azulejo a manhã na minha mesa,
organizando a burocracia do dia.
Nesta límpida manhã de março
o telefone não anunciou ainda a morte do amigo.
Se alguém, súbito, o mencionasse vivo
o veria no consultório das falas aflitas
ouvindo o relatório das paixões desnorteantes
o admiraria nas festas e mesas, nos comícios e textos
alternando revolução e ternura.
O telefone, porém, ainda não soou.
Estou no minuto anterior à notícia da morte
em que a felicidade é consentida.
No minuto anterior à morte
em que é possível o gesto salvador
que resgate o jovem no fatal mergulho,
o carro que se desgovernou na pista,
a bala que atravessou a noite.
Aquele minuto anterior à morte
em que a mão do médico prolonga e tece
com novos fios, a vida.
O telefone ainda não soou
e não sei que à tarde estarei no cemitério
lado a lado com seu corpo, caminhando
entre desconhecidas covas, desvalido
abraçando outros desvalidos.
Não acordei hoje para ir ao cemitério
e à luz dos refletores da tarde ter que formular o pasmo
sobre o ocaso de uma geração que vai se dizimando.
Mas a manhã azul, traiçoeira, como o alcaguete
escolhe a vítima e antegoza a tortura da notícia.
Impossível, contudo, ver no Sol desta manhã o eclipse da face amiga.
Ao contrário, o vejo: Hélio – o fulgurante
Hélio – solar criatura, verbo coruscante, mediterrânea fagulha
versando sagrada fúria.
Hélio – lírico desassombro entre ruínas
com o tropismo de sua voz nos ensinando
que é possível ser grego e tropical, nascendo em Minas.
Ah! Héliovívida aventura, Héliodescentrada figura
lançando sóis na órbita da loucura.
O telefone ainda não soou sua morte
que venha quando venha será sempre prematura.
O telefone ainda não soou
e não sei ainda como o infarto estanca na madrugada
uma usina de sonhos em forma humana.
Não posso portanto perguntar ainda
o que será de seus três eus restantes.
O telefone me dá tempo de olhar estúpido
a límpida manhã de março
ainda sem amargura.
Mas a ditadura deste azul é sufocante.
O telefone ainda não lançou manchas roxas na pele da manhã.
O telefone não sabe o que se prepara no inconsciente das manhãs.
Por ora, contemplo a manhã desta janela. É eterna.
Arrumo os papéis azulejando a burocracia do dia.
Tenho um dia pela frente
– e sou quase feliz.
Os Bois
De madrugada matam os bois
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
Palavras E Paisagens
Há certas palavras pelas quais passo frequentemente
sem lhes conhecer o sentido verdadeiro.
Nunca fui ao dicionário
conhecer as formas polifacéticas de seu ser.
São como pessoas que por mim passam
ou que frequentam nossa paisagem.
Não nos aprofundamos em conhecê-las.
Basta o colorido de suas vestes
e a sonoridade de seus nomes.
Não se pode esgotar o dicionário
ou amar completamente
– tudo o que encontramos.
sem lhes conhecer o sentido verdadeiro.
Nunca fui ao dicionário
conhecer as formas polifacéticas de seu ser.
São como pessoas que por mim passam
ou que frequentam nossa paisagem.
Não nos aprofundamos em conhecê-las.
Basta o colorido de suas vestes
e a sonoridade de seus nomes.
Não se pode esgotar o dicionário
ou amar completamente
– tudo o que encontramos.
Para Onde?
Quando começar a me desintegrar
para onde escorrerão meus belos sentimentos
e as sensações palpáveis do meu corpo?
Para onde escorrerá
o conteúdo desta forma,
este aqui e este agora?
Haverá sobrante essência
do corpo que dessora?
Por quanto tempo ficarei pairando
no céu da sala, nas antologias e conversas,
numa indefinível aura literária
enquanto a carne se desfaz na urna funerária?
para onde escorrerão meus belos sentimentos
e as sensações palpáveis do meu corpo?
Para onde escorrerá
o conteúdo desta forma,
este aqui e este agora?
Haverá sobrante essência
do corpo que dessora?
Por quanto tempo ficarei pairando
no céu da sala, nas antologias e conversas,
numa indefinível aura literária
enquanto a carne se desfaz na urna funerária?
Para Tigrão
Passo a mão no pelo deste cão
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
Pedes Explicação
Pedes explicações, que não sei dar,
sobre meu jeito de amar.
Soubesse das razões porque te amo
deste modo
poderia também me apaziguar.
Sou assim:
um gato na poltrona aos teus pés
ou um tigre que, faminto,
carinhosamente
– vem te devorar.
sobre meu jeito de amar.
Soubesse das razões porque te amo
deste modo
poderia também me apaziguar.
Sou assim:
um gato na poltrona aos teus pés
ou um tigre que, faminto,
carinhosamente
– vem te devorar.
Pier Della Vigna
Passo por San Miniato – onde viveu Pier della Vigna
a quem Dante meteu no Inferno
por ter se suicidado
ao não suportar a inveja,
a maledicência
e as traições na corte.
Duplo equívoco.
Dante não deveria meter no Inferno
quem no Inferno já vivia.
Quanto a você, caro Pier,
melhor fora que em vez da morte
te houvesses vingado com tua vida
vivendo-a
– além da corte,
recebendo, a salvo, notícias
de como no serpentário do poder
os que rastejam se envenenam
e lentamente começam a morrer.
a quem Dante meteu no Inferno
por ter se suicidado
ao não suportar a inveja,
a maledicência
e as traições na corte.
Duplo equívoco.
Dante não deveria meter no Inferno
quem no Inferno já vivia.
Quanto a você, caro Pier,
melhor fora que em vez da morte
te houvesses vingado com tua vida
vivendo-a
– além da corte,
recebendo, a salvo, notícias
de como no serpentário do poder
os que rastejam se envenenam
e lentamente começam a morrer.
Pistoia
Como podiam guerrear aqui
entre castelos e vinhedos?
Atirar granadas, estuprar camponesas
como podiam?
Sangue nenhum torna tão fértil a terra
que faça brotar sob essas cruzes
o que morreu, o que morreu
naquela áspera estação.
entre castelos e vinhedos?
Atirar granadas, estuprar camponesas
como podiam?
Sangue nenhum torna tão fértil a terra
que faça brotar sob essas cruzes
o que morreu, o que morreu
naquela áspera estação.
Poema Desentranhado de Uma Entrevista de Segóvia
Para Turíbio Santos
Em 1937 ganhei de Herman Hauser uma guitarra Hauser.
Nos anos 50 fui tocar nos festivais de Granada
mas a Hauser adoeceu de três notas:
– um fá sustenido
– um sol natural
– e um dó natural agudo,
que se converteram no que chamamos: sons lobo.
Nem o filho de Hauser
nem o grande Viscondez de Genebra
ou qualquer luthier
a puderam curar.
Desde então, toco uma Fleta.
Em 1937 ganhei de Herman Hauser uma guitarra Hauser.
Nos anos 50 fui tocar nos festivais de Granada
mas a Hauser adoeceu de três notas:
– um fá sustenido
– um sol natural
– e um dó natural agudo,
que se converteram no que chamamos: sons lobo.
Nem o filho de Hauser
nem o grande Viscondez de Genebra
ou qualquer luthier
a puderam curar.
Desde então, toco uma Fleta.
Poema Tirado de “Breve História da Ciência”
– a busca da verdade” do norueguês Eirik Newth
Aparentemente
existe um número infinito de seres vivos
que seguem a lei da probabilidade.
O astrônomo pode calcular
onde se encontrará o planeta Júpiter em três mil anos.
Mas nenhum biólogo
pode prever
onde a borboleta pousará.
Aparentemente
existe um número infinito de seres vivos
que seguem a lei da probabilidade.
O astrônomo pode calcular
onde se encontrará o planeta Júpiter em três mil anos.
Mas nenhum biólogo
pode prever
onde a borboleta pousará.
Poema Tirado de Um Livro de Ciências
Lineu,
sábio do século XVIII
conhecia os pássaros pelo bico
os peixes pelas nadadeiras
e os insetos pelas asas.
Procurando Deus
classificou 5.897 espécies vivas
e ao final da vida anotou:
– Vi as costas do Deus infinito, onisciente e todo-poderoso
quando ele se foi
– e fiquei tonto.
sábio do século XVIII
conhecia os pássaros pelo bico
os peixes pelas nadadeiras
e os insetos pelas asas.
Procurando Deus
classificou 5.897 espécies vivas
e ao final da vida anotou:
– Vi as costas do Deus infinito, onisciente e todo-poderoso
quando ele se foi
– e fiquei tonto.
Poema Tirado do Jornal El Espectador, Bogotá, 27.3.94
Cuando el Che Guevara dejó Cuba
pasó por Roma.
Disponía solo de una mañana
y se la pasó tumbado al suelo
de la Sixtina
contemplando sus pinturas.
De alli
salió hacia el aeropuerto
para un viaje sin retorno.
pasó por Roma.
Disponía solo de una mañana
y se la pasó tumbado al suelo
de la Sixtina
contemplando sus pinturas.
De alli
salió hacia el aeropuerto
para un viaje sin retorno.
Pós-Amigo
Você sempre foi falso
e eu era seu amigo.
O que em mim era canção
era, em você, ruído.
Você inda distorce
qualquer coisa que digo.
Você persegue a glória
e se diz perseguido.
Como é falsa sua vida
meu dileto inimigo,
entre nós vai se abrindo
cada vez mais o abismo,
você é pós-moderno
e eu sou pré-antigo.
e eu era seu amigo.
O que em mim era canção
era, em você, ruído.
Você inda distorce
qualquer coisa que digo.
Você persegue a glória
e se diz perseguido.
Como é falsa sua vida
meu dileto inimigo,
entre nós vai se abrindo
cada vez mais o abismo,
você é pós-moderno
e eu sou pré-antigo.
Preparação
olhava a tarde sem compromisso.
Sentado ao meio-fio
ciscava metafísicas
com um gravetinho na mão.
No fundo do quintal
no sótão e no porão
vislumbrei os primeiros mistérios.
As coisas essenciais
eram-me servidas.
A mim cabia apenas preencher o dia
com um ou outro dever
e uma vaga poesia.
Sentado ao meio-fio
ciscava metafísicas
com um gravetinho na mão.
No fundo do quintal
no sótão e no porão
vislumbrei os primeiros mistérios.
As coisas essenciais
eram-me servidas.
A mim cabia apenas preencher o dia
com um ou outro dever
e uma vaga poesia.
Presença-Ausência
A presença é finita.
A linha do presente
nos limita.
Mas é tudo o que se pode
em nossa finitude.
Para a ausência caminhamos
aspirando a plenitude.
A linha do presente
nos limita.
Mas é tudo o que se pode
em nossa finitude.
Para a ausência caminhamos
aspirando a plenitude.
Presente Vivo
Viver
é conjugação diária
do presente.
Viver
é presentear.
Mais que um jeito de doer
é um modo de doar.
E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.
Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.
é conjugação diária
do presente.
Viver
é presentear.
Mais que um jeito de doer
é um modo de doar.
E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.
Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.
Primavera Em Aix
“Martim caiu em área sagrada” – Clarice Lispector
Caí em área sagrada.
Esses frutos não estavam aqui
quando ontem adormeci.
Súbito
do caule e folhas
explodem
pêssegos, uvas, cerejas,
e das giestas, roseiras, tulipas, ciclames, acácias e jasmins
escorre o mel
que em mim transborda.
Se a mulher que eu amo
estivesse aqui
eu saberia o nome dessas mínimas flores.
Derramam-se trepadeiras pelos portões
e enlouquecidos pássaros
cantam desde a madrugada.
Lagartixas, formigas e besouros
– minúsculos amigos –
passeiam pelas frestas do meu corpo sobre a relva
disseminando paz nas brechas das lembranças.
Meu corpo é um filtro: a primavera transita
em meus pulmões,
Os olhos, maduros, devoram cores.
Abraço o plátano e choro em coro
enquanto o mel da eternidade me lambuza o rosto.
Abelhas fecundantes descem sobre mim, perdido Orfeu
e me desfaço em deliquescentes delícias
– as mais sublimes.
Caí em área sagrada.
Esses frutos não estavam aqui
quando ontem adormeci.
Súbito
do caule e folhas
explodem
pêssegos, uvas, cerejas,
e das giestas, roseiras, tulipas, ciclames, acácias e jasmins
escorre o mel
que em mim transborda.
Se a mulher que eu amo
estivesse aqui
eu saberia o nome dessas mínimas flores.
Derramam-se trepadeiras pelos portões
e enlouquecidos pássaros
cantam desde a madrugada.
Lagartixas, formigas e besouros
– minúsculos amigos –
passeiam pelas frestas do meu corpo sobre a relva
disseminando paz nas brechas das lembranças.
Meu corpo é um filtro: a primavera transita
em meus pulmões,
Os olhos, maduros, devoram cores.
Abraço o plátano e choro em coro
enquanto o mel da eternidade me lambuza o rosto.
Abelhas fecundantes descem sobre mim, perdido Orfeu
e me desfaço em deliquescentes delícias
– as mais sublimes.
Procura Antiga
Perdi qualquer coisa ali
entre o século onze ou dezesseis, não sei.
Qualquer coisa entre aqueles reis e servos
qualquer coisa entre a nobreza e os parvos
comensais à mesa
qualquer coisa entre as pedras de Siena
e as pernas das princesas de Viena.
Por isto procuro procuro procuro
entre
quadros portulanos estatuetas tapetes pianos
porcelanas cristais
e enternecidas madonas
como a cinderela o seu sapato perdido
na meia-noite da festa
e o maestro a semifusa confusa
que caiu no fosso da orquestra.
Procuro algo nas gretas
dos monumentos no musgo
do sofrimento no desejo
dos conventos e traças
dos documentos.
O que procuro não sei. Mas sei
que essa procura
me organiza o sofrimento.
entre o século onze ou dezesseis, não sei.
Qualquer coisa entre aqueles reis e servos
qualquer coisa entre a nobreza e os parvos
comensais à mesa
qualquer coisa entre as pedras de Siena
e as pernas das princesas de Viena.
Por isto procuro procuro procuro
entre
quadros portulanos estatuetas tapetes pianos
porcelanas cristais
e enternecidas madonas
como a cinderela o seu sapato perdido
na meia-noite da festa
e o maestro a semifusa confusa
que caiu no fosso da orquestra.
Procuro algo nas gretas
dos monumentos no musgo
do sofrimento no desejo
dos conventos e traças
dos documentos.
O que procuro não sei. Mas sei
que essa procura
me organiza o sofrimento.
Quando Viajas
Viajas, e desespero.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
Remorso Em Genebra
Eu não poderia viver em Genebra
a olhar aquele lago congelado
sobre meu vermelho remorso.
Os prédios têm cinco, dez
andares cheios de ouro no subsolo,
estão erguidos
sobre distantes escombros.
Quando ali chove, repare
como a chuva
cai vermelha em nossos ombros.
a olhar aquele lago congelado
sobre meu vermelho remorso.
Os prédios têm cinco, dez
andares cheios de ouro no subsolo,
estão erguidos
sobre distantes escombros.
Quando ali chove, repare
como a chuva
cai vermelha em nossos ombros.
Repassando
Interessado no passado estou.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.
O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.
O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.
O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.
O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.
Ristorante Etruria
Essa bela garçonete etrusca
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
San Geminiano
Sob as arcadas da Collegiata
– um afresco ao fundo –
um oboé e uma harpa destacam-se
nessa tarde de outono
ressoando o adágio de Albinoni.
Pelas tríforas e aposentos outrora medievais
os sons passeiam até pousarem
no poço da praça principal.
Dentro da igreja, o afresco de Guirlandaio
conta a sofrida estória de Santa Fina
que definhou de paixão por Cristo aos 10 anos.
Lá fora, nas arcadas, abrimos nossos sanduíches,
as frutas da estação,
o vinho apropriado
e nos refastelamos piamente
em pura contemplação.
– um afresco ao fundo –
um oboé e uma harpa destacam-se
nessa tarde de outono
ressoando o adágio de Albinoni.
Pelas tríforas e aposentos outrora medievais
os sons passeiam até pousarem
no poço da praça principal.
Dentro da igreja, o afresco de Guirlandaio
conta a sofrida estória de Santa Fina
que definhou de paixão por Cristo aos 10 anos.
Lá fora, nas arcadas, abrimos nossos sanduíches,
as frutas da estação,
o vinho apropriado
e nos refastelamos piamente
em pura contemplação.
Se É Paixão, Me Nego
Se é paixão, me nego.
Já resvalei, a alma em pelo
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.
Se é paixão, desculpe-me, não posso
conheço suas insônias
e a obsessão.
Se é paixão me vou, não devo,
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
ao seu corte estou imune.
Se é paixão me nego
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.
Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.
Já resvalei, a alma em pelo
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.
Se é paixão, desculpe-me, não posso
conheço suas insônias
e a obsessão.
Se é paixão me vou, não devo,
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
ao seu corte estou imune.
Se é paixão me nego
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.
Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.
Se Estivesses Aqui
Se estivesses aqui
eu não estaria usando esse pronome “tu”, tão solene.
Tomaria teu/seu corpo intimamente
e saberia olhar o mundo pela primeira vez
se estivesses aqui.
Na tua ausência
olho o que inutilmente expõe-se
nas vitrinas-museus-flores-detalhes de pessoas nos cafés.
Eu teria tantos olhos
se estivesses aqui.
Faltam-me
tua alma de prata e teu olhar de jade,
aquele olhar
– que me susteve
na escura noite da traição.
eu não estaria usando esse pronome “tu”, tão solene.
Tomaria teu/seu corpo intimamente
e saberia olhar o mundo pela primeira vez
se estivesses aqui.
Na tua ausência
olho o que inutilmente expõe-se
nas vitrinas-museus-flores-detalhes de pessoas nos cafés.
Eu teria tantos olhos
se estivesses aqui.
Faltam-me
tua alma de prata e teu olhar de jade,
aquele olhar
– que me susteve
na escura noite da traição.
Se Eu Dissesse
Se eu dissesse que o crepúsculo está coalhado de sangue
diriam que isto é uma banalidade
que só um mau poeta ousa escrever.
E, no entanto, o crepúsculo está coalhado de sangue.
Não só o crepúsculo, também a alvorada.
E quanto a isto não há muito que se possa fazer.
diriam que isto é uma banalidade
que só um mau poeta ousa escrever.
E, no entanto, o crepúsculo está coalhado de sangue.
Não só o crepúsculo, também a alvorada.
E quanto a isto não há muito que se possa fazer.
Sedução Mortal
Olho as coisas com um desprendimento
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.
Significados
Comprava dicionários para compreender-me
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.
Sutis, As Palavras
Tenho que ficar atento às palavras que me anotam.
Limpar de novo os tímpanos. Sutis, elas ressoam
e se apagam sem alarde.
Se não as escrevo, as essenciais
não terei como dar notícias de você em mim.
As palavras, com o tempo
tornam-se suavíssimas, de seda.
Há que recolhê-las
no casulo das tardes outonais.
Ouvir a única palavra, sem impurezas.
Não se trata de burilá-la, e sim surpreendê-la.
Palavras estão passando como pássaros invisíveis,
mas cantantes.
Tento segui-las,
não só com os olhos, mas pelo alarido
de suas penas no papel.
As palavras vêm em bandos.
Algumas pousam em ruínas,
saltam de galho em galho,
mostram e escondem sua face
e buscam outras páginas, bocas e quintais
fazendo pensar que é delas
o alarido que é meu.
Limpar de novo os tímpanos. Sutis, elas ressoam
e se apagam sem alarde.
Se não as escrevo, as essenciais
não terei como dar notícias de você em mim.
As palavras, com o tempo
tornam-se suavíssimas, de seda.
Há que recolhê-las
no casulo das tardes outonais.
Ouvir a única palavra, sem impurezas.
Não se trata de burilá-la, e sim surpreendê-la.
Palavras estão passando como pássaros invisíveis,
mas cantantes.
Tento segui-las,
não só com os olhos, mas pelo alarido
de suas penas no papel.
As palavras vêm em bandos.
Algumas pousam em ruínas,
saltam de galho em galho,
mostram e escondem sua face
e buscam outras páginas, bocas e quintais
fazendo pensar que é delas
o alarido que é meu.
Textamento
Minha mãe teve dúvidas
se eu deveria nascer ou não.
Pensou em me abortar.
Nasci. E, de alguma maneira, dei certo.
Cedo aprendi com os animais domésticos
e com os legumes da horta
que a morte é estranhamente cotidiana.
Amei, sim, amei
na medida de meu descompassado desejo.
E já ia envelhecendo
quando aprendi a me comunicar com os cães.
Não posso me queixar.
Vencidas as dificuldades iniciais,
os limites do quintal, a inveja
e os jogos na boca da noite,
descobri modos de me expressar.
Algumas palavras íntimas
tornaram-se públicas
e nisto encontrei satisfação.
se eu deveria nascer ou não.
Pensou em me abortar.
Nasci. E, de alguma maneira, dei certo.
Cedo aprendi com os animais domésticos
e com os legumes da horta
que a morte é estranhamente cotidiana.
Amei, sim, amei
na medida de meu descompassado desejo.
E já ia envelhecendo
quando aprendi a me comunicar com os cães.
Não posso me queixar.
Vencidas as dificuldades iniciais,
os limites do quintal, a inveja
e os jogos na boca da noite,
descobri modos de me expressar.
Algumas palavras íntimas
tornaram-se públicas
e nisto encontrei satisfação.
Tumba Celta
Há cinco mil anos,
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
Um Operário E Seu Desejo
De minha janela vejo um operário que se masturba
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
Unhas No Papel
Às vezes, as unhas dos pés, em devaneio,
e as da mão, silente, corto,
entre um poema e outro de permeio.
Corto unhas quando escrevo,
corto inconsciente
e aflito corto.
Quando me ergo da mesa
deixo no chão vestígios
do que podei.
E no papel,
a ilusão que semeei.
e as da mão, silente, corto,
entre um poema e outro de permeio.
Corto unhas quando escrevo,
corto inconsciente
e aflito corto.
Quando me ergo da mesa
deixo no chão vestígios
do que podei.
E no papel,
a ilusão que semeei.
Velhice Erótica
Estou vivendo a glória de meu sexo
a dois passos do crepúsculo.
Deus não se escandaliza com isto.
O júbilo maduro da carne
me enternece.
Envelheço, sim. E
(ocultamente)
resplandeço.
a dois passos do crepúsculo.
Deus não se escandaliza com isto.
O júbilo maduro da carne
me enternece.
Envelheço, sim. E
(ocultamente)
resplandeço.
Ver o Nada
Estou limpando os filtros da percepção, olhando o nada:
– o mar batendo nas pedras
– essas andorinhas girando em alegres círculos
catando insetos no ar.
Estou na janela deste hotel há várias horas
vendo
esse estupendo Sol se pondo sobre o nada.
Sou tudo
o mar, a pedra, o pássaro, o Sol
um coração pequeno qual inseto
pulsando secretamente na janela
que me alberga no universo.
– o mar batendo nas pedras
– essas andorinhas girando em alegres círculos
catando insetos no ar.
Estou na janela deste hotel há várias horas
vendo
esse estupendo Sol se pondo sobre o nada.
Sou tudo
o mar, a pedra, o pássaro, o Sol
um coração pequeno qual inseto
pulsando secretamente na janela
que me alberga no universo.
Viagens
Tantos lugares por conhecer
por exemplo, o deserto de Gobi,
as Galápagos,
e eu aqui disputando a cerca
com meus vizinhos,
eu aqui cochichando invejas, vaidades,
dependendo dos jornais.
Se eu fosse um sábio iria rumo ao Saara
ergueria a tenda em Machu Pichu
ou no Tibet.
Não. Um homem sábio
não é necessariamente um turista.
Retomo o meu pequeno grande romancista:
a verdade às vezes não habita os altos montes,
pode estar na rua Erê.
por exemplo, o deserto de Gobi,
as Galápagos,
e eu aqui disputando a cerca
com meus vizinhos,
eu aqui cochichando invejas, vaidades,
dependendo dos jornais.
Se eu fosse um sábio iria rumo ao Saara
ergueria a tenda em Machu Pichu
ou no Tibet.
Não. Um homem sábio
não é necessariamente um turista.
Retomo o meu pequeno grande romancista:
a verdade às vezes não habita os altos montes,
pode estar na rua Erê.
Vida Aliterária
Como cantam as aves!
Algumas estridentes
outras melodiosas
cada qual com o canto
que lhe é próprio.
Não competem entre si.
Com o canto que sabem
comem, alimentam seus filhotes
defendem-se de ataques
seduzem para o amor
e a natureza as ouve a todas
sem ter que premiar nenhuma.
Algumas estridentes
outras melodiosas
cada qual com o canto
que lhe é próprio.
Não competem entre si.
Com o canto que sabem
comem, alimentam seus filhotes
defendem-se de ataques
seduzem para o amor
e a natureza as ouve a todas
sem ter que premiar nenhuma.
Viii Reunião de Intelectuais
(Lembrando Octávio Paz e José Guilherme Merquior, presentes)
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
Villa Serbelloni, Como
Está difícil sair do século XVIII.
Estou preso em suas grutas e jardins,
em suas colunas e espirais.
Não há fuga e contraponto possível
embora o computador.
Sei que lá fora me acenam
tecnologias surpreendentes
na direção de outras galáxias,
mas estou atado a estes ciprestes,
eu, alguns pássaros, flores e lagartos.
Além do mais, ao que consta
o século XX está para acabar
enquanto o XVIII, para mim,
começou a começar.
Estou preso em suas grutas e jardins,
em suas colunas e espirais.
Não há fuga e contraponto possível
embora o computador.
Sei que lá fora me acenam
tecnologias surpreendentes
na direção de outras galáxias,
mas estou atado a estes ciprestes,
eu, alguns pássaros, flores e lagartos.
Além do mais, ao que consta
o século XX está para acabar
enquanto o XVIII, para mim,
começou a começar.
Villa Serbelloni, Peônias
Estas peônias floriram
há uma semana
sabendo que sua vida é curta
e se chover é morte certa.
Chove
e caem pétalas na terra.
Por que poeta!
deveria teu poema ser eterno?
há uma semana
sabendo que sua vida é curta
e se chover é morte certa.
Chove
e caem pétalas na terra.
Por que poeta!
deveria teu poema ser eterno?
Villa Serbelloni, Primavera
Quando cheguei não havia flores, só promessas.
Primeiro disseminaram-se margaridas pela encosta
e cobriram-se de rosada luz as amendoeiras
logo, iridescentes, a copa das pereiras e pessegueiros,
pareciam fogos de artifício perfumados,
íris e tulipas bailavam nos canteiros
sob o aplauso de violetas e amarílis,
foi quando as glicínias e peônias de vez ensandeceram
e sobre teu corpo eu desabei inteiro.
Primeiro disseminaram-se margaridas pela encosta
e cobriram-se de rosada luz as amendoeiras
logo, iridescentes, a copa das pereiras e pessegueiros,
pareciam fogos de artifício perfumados,
íris e tulipas bailavam nos canteiros
sob o aplauso de violetas e amarílis,
foi quando as glicínias e peônias de vez ensandeceram
e sobre teu corpo eu desabei inteiro.
Viva Fera
Não me canso de estudar a morte.
Como é fértil e reverbera novos ângulos
conforme a hora em que a entrevejo
na minha trajetória.
Preencho-a de significados vários.
Ela cresce, me fascina, me enriquece,
me habita viva feito fera
que parece domesticada e, no entanto,
soberana
– mansamente me devora.
Como é fértil e reverbera novos ângulos
conforme a hora em que a entrevejo
na minha trajetória.
Preencho-a de significados vários.
Ela cresce, me fascina, me enriquece,
me habita viva feito fera
que parece domesticada e, no entanto,
soberana
– mansamente me devora.
Vivi 45 Anos
Vivi 45 anos.
Já fiz, suponho, metade do percurso.
Também o mundo acabará, é certo.
Primeiro o Sol – daqui a 5 bilhões de anos
numa explosão minúscula perto da que ocorrerá
quando bilhões de anos depois
explodirá toda a galáxia.
Nosso fim, portanto, é certo. Não
há museu de cera ou arca de Noé
que desta vez ultrapasse o arco-íris de horrores.
A menos, é claro,
que modifiquem as previsões da história.
Mas aí, já estarei morto.
Já fiz, suponho, metade do percurso.
Também o mundo acabará, é certo.
Primeiro o Sol – daqui a 5 bilhões de anos
numa explosão minúscula perto da que ocorrerá
quando bilhões de anos depois
explodirá toda a galáxia.
Nosso fim, portanto, é certo. Não
há museu de cera ou arca de Noé
que desta vez ultrapasse o arco-íris de horrores.
A menos, é claro,
que modifiquem as previsões da história.
Mas aí, já estarei morto.
Vou Ficar de Vez Na Porta Deste Cemitério
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Assim, já não serei surpreendido
quando outro corpo dobrar a esquina.
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Farei aqui minha tenda como os antigos
que ali montavam feiras e quermesses
como tranquilos inquilinos.
Aguardarei aqui a morte
que há algum tempo começou a chegar. A morte
que há muito tempo começou a cavar. A morte
repentina, que diariamente abre sua oficina. A morte
matinal e vespertina. A minha morte
que há muito tempo
nasceu em mim, em Minas.
Assim, já não serei surpreendido
quando outro corpo dobrar a esquina.
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Farei aqui minha tenda como os antigos
que ali montavam feiras e quermesses
como tranquilos inquilinos.
Aguardarei aqui a morte
que há algum tempo começou a chegar. A morte
que há muito tempo começou a cavar. A morte
repentina, que diariamente abre sua oficina. A morte
matinal e vespertina. A minha morte
que há muito tempo
nasceu em mim, em Minas.
Wild Life
Ninguém se arrepende do passado
ou planeja o futuro:
– é simplesmente um lindo dia na savana
quando
súbito
uma hiena fareja sorrateira
o filhote de zebra recém-nato
os abutres comem restos da placenta
que a mãe zebra deixou sobre a campina
o leão alcança o corpo da girafa
a águia arrebata a lebre na colina
e o leopardo o tigre e a pantera
seguem os rastros da vítima na neblina.
É simplesmente um lindo dia na savana.
De repente
a morte repentina.
ou planeja o futuro:
– é simplesmente um lindo dia na savana
quando
súbito
uma hiena fareja sorrateira
o filhote de zebra recém-nato
os abutres comem restos da placenta
que a mãe zebra deixou sobre a campina
o leão alcança o corpo da girafa
a águia arrebata a lebre na colina
e o leopardo o tigre e a pantera
seguem os rastros da vítima na neblina.
É simplesmente um lindo dia na savana.
De repente
a morte repentina.
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