Lista de Poemas
O Éden Possível
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
Esgotamentos
quando lhe disserem
que o romance está esgotado
que a poesia está esgotada
que a música está esgotada
que a pintura está esgotada
que a escultura está esgotada
que o balé está esgotado
que o cinema está esgotado
que o teatro está esgotado
que a arte está esgotada
que a história está esgotada
que o homem está esgotado
que Deus está esgotado
Cuidado
pois esse alheio esgotamento
só nos consegue deixar
com a paciência esgotada.
Desconfiando
que não corro da polícia em praça pública.
Há muito
que não abrem correspondência minha.
Há muito
que não poupo palavras ao telefone.
Há muito
que não abrigo fugitivos.
Há muito
que vejo os filmes e leio livros que bem quero.
O que será que fiz?
Começo a desconfiar
que alguma coisa anda errada:
comigo
ou meu país.
Villa Serbelloni, Peônias
há uma semana
sabendo que sua vida é curta
e se chover é morte certa.
Chove
e caem pétalas na terra.
Por que poeta!
deveria teu poema ser eterno?
Enquete
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
Na Praça de Florença
do Campanile del Duomo de Florença
– obra de Giotto.
Mania de subir pirâmides
edifícios
catedrais.
Forma de não ficar aterrado diante de tanta história.
Em frente
Brunelleschi ergueu a cúpula de Santa Maria del Fiore
onde vejo alçados dezenas de turistas
que subiram seus degraus
e olham o horizonte que se desfaz atrás de mim.
No folheto está escrito
que para visitar a Piazza del Duomo é necessário
pelo menos meio dia.
O dia vai terminar
a noite me chama
e eu não esgotei
– o que a praça oferecia.
Amor E Ódio
pelo que me fazes sofrer,
te odeio
porque não paro
de te querer,
te odeio porque sofro,
e, vivo, morro,
te odeio porque
em ti naufrago
quando era de ti
que tinha que vir
o meu socorro.
Certaldo
sua mínima e inexpressiva história.
Como eu
a minha pequena, pequeníssima
quase história.
Bate o sino deste burgo medieval.
Junto às pedras do moinho
rosas e gerânios desbordam
de grandes vasos vermelhos,
um pé de figo ao lado se oferece
e estou sob uma videira que desde os tempos de Boccaccio
me dá sombra e cresce.
Amor de Ostra
Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.
Linguística
– “a palavra cão não morde”.
Morde.
Saí com a perna sangrando após a aula.
Diz o linguista
– “a palavra cão não late”.
Late
e não me deixa dormir
com seus latidos.
Diz o linguista
“a palavra cão não come”.
Come
e se alimenta de minha carne.
Comentários (2)
Quem ta aqui pela onhb? K
Não tem oque falar dessa lenda
Affonso Romano de Sant´anna.
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Em 1964, tornou-se doutor em Literatura Brasileira pela UFMG, com tese sobre Carlos Drummond de Andrade. No ano seguinte seria publicado seu primeiro livro de poesia, Canto e Palavra.
Na época, já trabalhava como colaborador em periódicos como Estado de Minas Gerais, Diário de Minas, Tendência e Leitura. Entre 1970 e 1983 foi diretor do Departamento de Letras e Artes da PUC/RJ, onde organizou a Expoesia (1973), espaço de encontro das novas correntes poéticas da década de 1970.
Na década seguinte foi professor na Universidade do Texas (Estados Unidos), na Universidade de Colônia (Alemanha) e na Universidade de Aix-en-Provence (França).
Entre 1990 e 1996 foi presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Publicou vários livros de ensaios e crônicas. A poesia de Affonso Romano de Sant’Anna, de tendência contemporânea, é influenciada pela obra de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Mário de Andrade.
Para o crítico Donaldo Schuller, “a palavra, por construir, por reunir, por contestar, tem nos versos de Affonso ressonância helênica, traço de união entre corpos, entre o corpo e o universo.”.
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