Lista de Poemas
Morte No Jardim
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
– num misto de temor e êxtase.
Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores no gramado.
Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.
A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre os crisântemos e dálias.
– A poesia
não resgata
– o que matamos no jardim.
O Telefone E o Amigo Morto
Nesta límpida manhã de março
o telefone ainda não anunciou a morte do amigo.
A lagoa e as montanhas sabem já que algo morreu longe de mim
e, no entanto, disfarçam a notícia numa cumplicidade azul.
Quanto tempo levará ainda esta notícia
retida em outras bocas e ouvidos
até me atingir como um tijolo no peito?
Ainda não começou a morrer (em mim) aquele que já morreu
e que as gaivotas da praia não ousam anunciar.
Há uma tocaia atrás do azul desta manhã.
Desprotegido, recorto jornais, dou telefonemas,
azulejo a manhã na minha mesa,
organizando a burocracia do dia.
Nesta límpida manhã de março
o telefone não anunciou ainda a morte do amigo.
Se alguém, súbito, o mencionasse vivo
o veria no consultório das falas aflitas
ouvindo o relatório das paixões desnorteantes
o admiraria nas festas e mesas, nos comícios e textos
alternando revolução e ternura.
O telefone, porém, ainda não soou.
Estou no minuto anterior à notícia da morte
em que a felicidade é consentida.
No minuto anterior à morte
em que é possível o gesto salvador
que resgate o jovem no fatal mergulho,
o carro que se desgovernou na pista,
a bala que atravessou a noite.
Aquele minuto anterior à morte
em que a mão do médico prolonga e tece
com novos fios, a vida.
O telefone ainda não soou
e não sei que à tarde estarei no cemitério
lado a lado com seu corpo, caminhando
entre desconhecidas covas, desvalido
abraçando outros desvalidos.
Não acordei hoje para ir ao cemitério
e à luz dos refletores da tarde ter que formular o pasmo
sobre o ocaso de uma geração que vai se dizimando.
Mas a manhã azul, traiçoeira, como o alcaguete
escolhe a vítima e antegoza a tortura da notícia.
Impossível, contudo, ver no Sol desta manhã o eclipse da face amiga.
Ao contrário, o vejo: Hélio – o fulgurante
Hélio – solar criatura, verbo coruscante, mediterrânea fagulha
versando sagrada fúria.
Hélio – lírico desassombro entre ruínas
com o tropismo de sua voz nos ensinando
que é possível ser grego e tropical, nascendo em Minas.
Ah! Héliovívida aventura, Héliodescentrada figura
lançando sóis na órbita da loucura.
O telefone ainda não soou sua morte
que venha quando venha será sempre prematura.
O telefone ainda não soou
e não sei ainda como o infarto estanca na madrugada
uma usina de sonhos em forma humana.
Não posso portanto perguntar ainda
o que será de seus três eus restantes.
O telefone me dá tempo de olhar estúpido
a límpida manhã de março
ainda sem amargura.
Mas a ditadura deste azul é sufocante.
O telefone ainda não lançou manchas roxas na pele da manhã.
O telefone não sabe o que se prepara no inconsciente das manhãs.
Por ora, contemplo a manhã desta janela. É eterna.
Arrumo os papéis azulejando a burocracia do dia.
Tenho um dia pela frente
– e sou quase feliz.
Pistoia
entre castelos e vinhedos?
Atirar granadas, estuprar camponesas
como podiam?
Sangue nenhum torna tão fértil a terra
que faça brotar sob essas cruzes
o que morreu, o que morreu
naquela áspera estação.
Flores Sem Nome
Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como apreendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo aroma, certa forma,
como certas pessoas que por mim passaram
– inalcançáveis –
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.
Austin, 1976
e a filha menor nos perguntasse
se antes de nascer
já nos amávamos à beira-rio
minha mulher
se adiantou
– Sim, filha, a gente se amou
à beira desse e de outros rios
antes
e depois de você
e, sobretudo, sem rio.
Viii Reunião de Intelectuais
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
Epifania Num Bar de Aix
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
Fim de Século
seus discursos
seus decretos
e cinco anos de minha vida
em sua mão.
Há três dias enterrei
o maior artista do século
dois romancistas europeus
e um pintor brasileiro.
Todo dia há alguma coisa que enterrar.
Mas agora preparo-me
para uma façanha inédita:
sepultar um século inteiro.
Esta é uma tarefa enorme
terei que achar
alguém pra me ajudar.
Aniversário No Aeroporto
Aviões partem e chegam menos o meu
atrasado dois dias.
Crianças lambuzam-se de sorvetes choram
jovens deitam sobre mochilas pelo chão,
adultos olham o que surge e some no horizonte
e não sabem o que fazer da espera.
Leio jornais para ilustrar o tempo:
nos suplementos dois poemas de Bukowski
(um dos quais fala da bunda das mulheres mexicanas).
Vão inaugurar a restauração da Capela Sistina
onde Guevara esteve meditando
antes de embrenhar-se para morrer
– nascer nas matas da Bolívia.
Este país está todo dividido:
um terço com as guerrilhas,
um terço com o narcotráfico,
um terço que se quer governo.
Mas faço aniversário
e considerando minha vida de camelô literário
consulto no jornal o horóscopo do Tarot
que me adverte:
“sus cartas sostienem que no sucumbir a las persuasiones maléficas de la seducción, a su voz que habla maravillas, es casi imposible. Pero seria um error, porque el trabajo no tiene pajaritos de oro como le pintan. Velas mojadas, muchas velas mojadas”
Com velas molhadas
no aeroporto de Bogotá
meu aniversário não se comemora.
O Morto Cresce
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
Comentários (2)
Quem ta aqui pela onhb? K
Não tem oque falar dessa lenda
Affonso Romano de Sant´anna.
SÍSIFO DESCE A MONTANHA -- AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA -- POESIA
Antes que eles cresçam - Affonso Romano de Sant'Anna
Poema Separação de Affonso Romano de Sant'Anna. Edição do vídeo Marcos Ribeiro Ecce Ars
LER O MUNDO -- AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA -- CONTO-CRÔNICA
Eliane Alcântara - 3 Poemas de Affonso Romano de Sant'Anna
O que é ler Por Affonso Romano de Sant'Anna
O amor e o outro - Affonso Romano de Sant'Anna
Affonso Romano de Santanna
Interrompemos nossa programação... Afonso Romano de Santanna
Pablo Morais-CARTA AOS MORTOS - Affonso Romano de Sant'Anna
Constituição Federal de 1988 - Poema de Affonso Romano de Sant'anna
HINO DA CANALHA AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA por Oscar Brisolar
Affonso Romano de Santanna. Muerte en la Casa de Poesía.
Affonso Romano de Santanna
AFFONSO ROMANO DE SANTA'ANNA - LEITURA&VISÕES
Canal de Poesia e Arte do Castelinho do Alto da Bronze [ Afonso Romano de Sant'Anna ]
A Implosão da Mentira - Fragmentos I e II
Poema- Provocações Emicida 02-08-2011
Em 1964, tornou-se doutor em Literatura Brasileira pela UFMG, com tese sobre Carlos Drummond de Andrade. No ano seguinte seria publicado seu primeiro livro de poesia, Canto e Palavra.
Na época, já trabalhava como colaborador em periódicos como Estado de Minas Gerais, Diário de Minas, Tendência e Leitura. Entre 1970 e 1983 foi diretor do Departamento de Letras e Artes da PUC/RJ, onde organizou a Expoesia (1973), espaço de encontro das novas correntes poéticas da década de 1970.
Na década seguinte foi professor na Universidade do Texas (Estados Unidos), na Universidade de Colônia (Alemanha) e na Universidade de Aix-en-Provence (França).
Entre 1990 e 1996 foi presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Publicou vários livros de ensaios e crônicas. A poesia de Affonso Romano de Sant’Anna, de tendência contemporânea, é influenciada pela obra de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Mário de Andrade.
Para o crítico Donaldo Schuller, “a palavra, por construir, por reunir, por contestar, tem nos versos de Affonso ressonância helênica, traço de união entre corpos, entre o corpo e o universo.”.
Português
English
Español