Lista de Poemas
Duas Maneiras
Deus me olha e me causa terror.
Faz descer sobre mim o íncubo hemiplégico.
Eu chamo por minha mãe,
me escondo atrás da porta,
onde meu pai pendura sua camisa suja,
bebo água doce e falo as palavras das rezas.
Mas há outro modo:
se vejo que Ele me espreita,
penso em marca de cigarros,
penso num homem saindo de madrugada pra adorar o
[Santíssimo,
penso em fumo de rolo, em apito, em mulher da roça
com o balaio de pequi, fruta feita de cheiro e amarelo.
Quando Ele dá fé, já estou no colo d’Ele,
pego Sua barba branca,
Ele joga pra mim a bola do mundo,
eu jogo pra Ele.
Tabaréu
Fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu. O mais universal a que chego
é a recepção de Nossa Senhora de Fátima
em Santo Antônio do Monte.
Duas mil pessoas com velas louvando Maria
num oco de escuro, pedindo bom parto,
moço de bom gênio pra casar,
boa hora pra nascer e morrer.
O cheiro do povo espiritado,
isso eu entendo sem desatino.
Porque, mercê de Deus, o poder que eu tenho
é de fazer poesia, quando ela insiste feito
água no fundo da mina, levantando morrinho de areia.
É quando clareia e refresca, abre sol, chove,
conforme necessidades.
Às vezes dá até de escurecer de repente
com trovoada e raio. Não desaponta nunca.
É feito sol.
Feito amor divino.
Um Homem Doente Faz a Oração da Manhã
chegue até Vós meu ventre dilatado
e Vos comova, Senhor, meu mal sem cura.
Inauguro o dia, eu que a meu crédito explico
que passei em claro a treva da noite.
Escutei — e é quando às vezes descanso —
vozes de há mais de trinta anos.
Vi no meio da noite nesgas claríssimas de sol.
Minha mãe falou,
enxotei gatos lambendo
o prato da minha infância.
Livrai-me de lançar contra Vós
a tristeza do meu corpo
e seu apodrecimento cuidadoso.
Mas desabafo dizendo:
que irado amor Vós tendes.
Tem piedade de mim,
tem piedade de mim
pelo sinal da Vossa Cruz,
que faço na testa, na boca, no coração.
Da ponta dos pés à cabeça,
de palma à palma da mão.
Para o Zé
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu
[gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me
[guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai
[desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.
A Hora Grafada
uma águia acabada de pousar,
um anjo saudando,
um galo perfeitinho,
uma ave grande vista de frente.
De noite no mato, as vivas figuras enraizadas,
prontas a falar ou bater asas.
Amor Violeta
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
Refrão E Assunto de Cavaleiro E Seu Cavalo Medroso
ô lua...
Tristeza é o luar nos ermos
do sertão, Minas Gerais.
Eh saudade! de quê, meu Deus?
Não sei mais.
Ô estrela-d’alva,
ô lua...
O escuro é duro ou macio?
meu cavalo perguntou.
Eu lhe respondi: galopa,
é pra Deus que eu vou.
Ô estrela-d’alva,
ô lua...
Ô estrela-d’alva, gritei
na cava, pra espantar o breu.
Alva alva alva alva
precipício respondeu.
Ô estrela-d’alva,
ô lua...
No fim da viagem, no fim da noite,
tem uma porteira se abrindo
pra madrugada suspensa.
É pra lá que eu vou,
pro céu e pro ar, rosilho,
para os pastos de orvalho.
Ô estrela-d’alva,
ô lua...
Quanto tempo dura a noite?
meu cavalo perguntou.
O tempo é de Deus, eu disse.
E esporeei.
Ô estrela-d’alva,
ô lua...
ô alva...
O Que a Musa Eterna Canta
de que o poema sirva a todas as fomes.
Um jogador de futebol chegou mesmo a declarar:
‘Tenho birra de que me chamem de intelectual,
sou um homem como todos os outros’.
Ah, que sabedoria, como todos os outros,
a quem bastou descobrir:
letras eu quero é pra pedir emprego,
agradecer favores,
escrever meu nome completo.
O mais são as maltraçadas linhas.
Momento
um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seus lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acometimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser.
Atávica
o ouvido colado à fonte dos seus suspiros:
‘Ó meu Deus, meu Jesus, misericórdia’.
Comia leite e culpa de estar alegre quando fico.
Se ficasse na roça ia ser carpideira, puxadeira de terço,
cantadeira, o que na vida é beleza sem esfuziamentos,
as tristezas maravilhosas.
Mas eu vim pra cidade fazer versos tão tristes
que dão gosto, meu Jesus misericórdia.
Por prazer da tristeza eu vivo alegre.
Comentários (0)
NoComments
Adélia Prado - 24/03/2014
Adélia Prado - a vida é mais tempo alegre do que triste
Roda Viva | Adélia Prado | 1994
Série 15 Minutos - Adélia Prado
Adélia Prado fala sobre sua obra, feminismo e o momento político do Brasil (2018)
ENSINAMENTO - Adélia Prado
"Reflexões Filosóficas sobre Poemas de Adélia Prado" LIVE com a Profª Lúcia Helena Galvão
Adélia Prado - XIX Encontro Comunitário de Saúde Mental #Shorts
Recuperação 2023 - Produção Textual 22/12/2023
Adélia Prado no Sempre Um Papo - 30 anos
Adélia Prado - SÉRIE "10 CITAÇÕES"
Adélia Prado no Sesc Vila Mariana - Sempre Um Papo 2014
Adélia Prado fala sobre fé e arte - Imagem da Palavra (2012) [Rede Minas Memória]
Exausto | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Romeu Zema pergunta se escritora Adélia Prado trabalha em rádio mineira
Adélia Prado no Sempre um Papo - 2008
Adélia Prado - O poder humanizador da poesia
ADELIA PRADO UMA MULHER DESDOBRAVEL 1
A MEMÓRIA AFETIVA - ADÉLIA PRADO (Poesia)
Não Quero Faca Nem Queijo Quero a Fome | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Leitura Obrigatória - Bagagem: Adélia Prado
Com Licença Poética | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
[Sobre o autor] Adélia Prado
Adélia Prado, a simplicidade de um estilo
ADELIA PRADO - Documentário
ADELIA PRADO - entrevista exclusiva
Assembleia de MG prepara desagravo à escritora Adélia Prado após gafe de governador
Casamento | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Resenha #104 Poesia reunida, de Adélia Prado | Com licença poética!
Adélia Prado - 2o. Fliaxará 2013
Dona Doida | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Camilla Rebouças | Momento | Adélia Prado
Adélia Prado pede oração pelo Brasil no #SempreUmPapo
BAGAGEM DE ADÉLIA PRADO
Adélia Prado (Com Licença Poética) - Projeto [Caixa de Espanto] de @TiagoZorg #literatura #leitura
Dona Doida - Adélia Prado
Palestra de Adélia Prado na SP Escola de Teatro
Entrevista com Adélia Prado - Jogo de Idéias
Análise do poema "Com licença poética" de Adélia Prado.
Simpósio Nacional da Família 2014 - "Testemunho de Adélia Prado"
Resumo do livro "Bagagem" de Adélia Prado.
Bagagem, Adélia Prado - Leitura Obrigatória UFRGS 2021
Bagagem (1976), de Adélia Prado. Prof. Marcelo Nunes.
Adélia Prado (Momento) - Projeto [Caixa de Espanto] de @TiagoZorg #literatura #poesia #leitura
Marília Gabriela lê "Com Licença Poética", de Adélia Prado
As Mortes Sucessivas - Adélia Prado | Poesia
"Bendito" por Adélia Prado
A memória eterniza o que realmente importa | Adélia Prado by Nélson Freire
Adélia Prado - Encontros Notáveis
Leitura de poemas por Adélia Prado - Jogo de Idéias
Português
English
Español