A Suspensão do Dia
O Cordeiro repousa no mormaço,
esquecido dos pecadores
que também fazem a sesta,
esquecidos de seus pecados.
O mundo cai de cansaço.
A salvação, mais que viável,
é certa para santos e réprobos.
Molesto sem querer uma formiga
e ela debate-se
lutando para não morrer.
Rezo por ela delicadamente.
O sol define seu curso,
o cordeiro desperta seu pastor,
a inocente formiga
pica minha mão.
Constelação
Olhava da vidraça
derramar-se a Via Láctea
sobre a massa das árvores.
Por causa do vidro, da transparência do ar,
ou porque me nasciam lágrimas,
tinha a impressão de que algumas estrelas
mergulhavam no rio,
outras paravam nos ramos.
Passageiros dormiam,
eu clamava por Deus
como o cachorro que sem ameaça aparente
latia desesperado na noite maravilhosa:
Ó Cordeiro de Deus, ó Cruzeiro do Sul,
ó Cordeiro, ó Cruzeiro!
Como o cão, minha língua ladrava
à aterradora beleza.
O Ditador Na Prisão
O ditador escreve poesia.
Coitado dele.
Coitados de nós que dizemos coitado dele,
pois também ele tem memória
para evocar laranjais, tigelas de doce
entre risadas e conversas amenas,
paraíso de ínfimas delícias.
Mal florescem os beijinhos
e as abelhas rodeiam-nos afainosas,
tornando o dia perfeito.
Não tripudiemos sobre o sanguinário
que sob a vista dos guardas
vaza no caderno seu desejo,
em tudo igual ao desejo dos homens,
quero ser feliz, ter um corpo elástico,
quero cavalo, espada e uma boa guerra!
O ditador é devoto,
cumpre as horas canônicas como os monges no coro,
cochila sobre o Alcorão.
Eu que vivo extramuros tremo pelo destino
de quem deprimiu o chão com sua bota de ferro.
Ninguém perturbe a prece do proscrito,
nem zombe de seus versos.
A misericórdia de Deus é esdrúxula,
o mistério, avassalador.
Por insondável razão não sou eu a prisioneira.
Minha compaixão é tal que não pode ser minha.
Quem inventou os corações
se apodera do meu para amar este pobre.
Branca de Neve
Caibo melhor no mundo
se me dou conta do que julgava impossível:
‘Nem todo alemão conhece Mozart.’
Um óbvio, pois nem é preciso,
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.
Com os russos me sinto em casa,
não podem ver uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma de sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.
“Geração perversa, raça de víboras”
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?
Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
Não são gentilezas as doçuras de Deus.
Se tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro tino escolhitivo.
Pra quem me pede dou listas de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.
Línguas
Meu coração
é a pele esticada de um tambor.
Como tentação a dor percute nele,
travestida de dor, pra que eu desista,
duvide de que tenho um pai.
Vem tudo em forma de carne,
grandes mantas de carne palpitante,
recobrindo ossos, frustrações, desejos
sobre os quais tenho culpa e devo purgar-me
até que eu mesma seja apenas ossos.
Um sujo me salvará,
quando pegar minha cuia
e comer à vista dele
sem sentir ânsia de vômito.
As sombras dos satélites
conspurcaram as estrelas.
Que faço para escrever de novo
‘louvado sejas pelo capim verde’
ou até mesmo o gemido
‘meu coração nem em sonhos repousa’.
Vou perguntar até que interpolado
e ininteligível tudo se ordene
como oração em línguas
e em forma de um cansaço me abençoes.
O Enfermo
O doente quer ir-se
para sua casa,
para a cama onde está
e não reconhece mais.
Tenho a fé abalada é o que diz
num espasmo de lucidez.
Seu toque, como o dos cegos,
imperativa, sua voz
de criança gentil contrariada.
Segurou minha mão por uma hora inteira.
Não tem santos estigmas, só escaras
e a vida que vive nele
e o faz brandir, profeta no seu jejum:
ter nascido já é lucro.
Querido Louco
Quando um homem delira,
de onde fala sua alma a língua
para todas as línguas traduzível
sem prejuízo de sua insensatez?
Ouvi-la obriga a alfabeto novo,
dói tanto que os relógios param.
Tem piedade de mim é o mesmo que
‘me dá um chinelo pra eu surrar o enfermeiro,
Deus é bom, nas famílias em crise
ninguém escuta ninguém’.
Tira do bolso nota de pouca valia,
me dando a senha pra encerrar a visita:
Obrigado por tudo e vai com Deus,
vai comprar pra você uma coisa bonita.
Reza do Homem Demente
Senhor deus meu Jesus Cristo,
eu pecador poderoso,
todo-poderoso contemplo
o mistério de ondas marítimas
que chocam meu coração.
Esta noite foi legal,
joguei futebol na Rússia
e fiz conferência à toa
debaixo do viaduto.
As pessoas só olhavam,
ninguém falava miau,
só um velho me entendia.
Ele também não falava
mas discutimos com proveito.
Muito esquisito este sonho,
aliviante demais,
muito engraçado também.
Quero mudar de enfermeiro,
essezinho aí parado
é delicado demaisinho,
seo Luizinho, inho, inho.
Chega, gente, fecha a porta
que eu quero ficar sozinho.
Consanguíneos
Não há culpados para a dor que eu sinto.
É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor
como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse.
Se me ajudar um remédio a respirar melhor,
obteremos clemência, Ele e eu.
Jungidos como estamos em formidável parelha,
enquanto Ele não dorme eu não descanso.
A Paciência E Seus Limites
Dá a entender que me ama,
mas não se declara.
Fica mastigando grama,
rodando no dedo sua penca de chaves,
como qualquer bobo.
Não me engana a desculpa amarela:
‘Quero discutir minha lírica com você.’
Que enfado! Desembucha, homem,
tenho outro pretendente
e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio
que esse seu verso doente.