O Ameno Fato Terrível
O que mais me lembra o Juízo
é um jardim ao meio-dia,
um jardim de rosas.
Cheirava-as como — descobri depois —
se cheiram os homens,
odoroso mistério.
Um jardim caipira, o da minha casa,
estrelas do norte, cravinas, uma flor rosada
que desabrochava em pencas e até hoje só vi
nos canteiros dos pobres.
E rosas, rosas, rosas, o modo de minha mãe virar rainha:
‘para mim a rosa é a primeira das flores’.
Quando Deus vier,
quem nunca se permitiu a consolação das flores
será tomado de uma ânsia de vômito;
porque o sinal será um perfume de rosas,
um perfume intensíssimo,
um odor tal que transtornará o tempo
e atrairá os demônios exsudando ira.
O que mais me lembra o Juízo
é um jardim ao meio-dia,
um jardim de rosas.
A Faca No Peito
Que região é aquela, de areia e mar
— arco-íris góticos —
tão próxima do céu, sendo ela mesma inferno?
Estavam lá meu pai, minha mãe, já mortos.
Um se queixava e sofria,
outro chorava, consolando-me.
Minha irmã, a pedrada e ódios,
matara nossa irmã de criação.
Uma coisa horrorosa aconteceu,
disse à minha filha moça.
Belas mulheres mergulhavam de uma ilha rochosa
furada de cavernas.
Outras masturbavam-se
ouvindo um rapaz charmoso discursar.
Todos se lembravam: de algum lugar
o vento trouxera mesmo um cheiro de cadáver.
Mas quem ousaria supor o acontecido?
O vento do mar dobrava uns postes com fios,
gabirobeiras em flor, como noivas,
eram pura alegria,
luz aquecida contra o sonho cru.
Eu dormira com o peito perfurado de culpa
porque negara aos padres a boa fala de sempre.
Apodara-os viciosos, egoístas, aproveitadores do povo.
No sonho, um deles quis dar sua bênção, inconseguiu,
ninguém se ajoelhou, ocupado em frivolidades.
Quem sou eu?
A morta, a assassina, o prevaricador mentiroso?
Só sei que eram ameaçadoras
claridades, bênçãos, cavernas.
Meu coração suporta grandes pesos.
Nem em sonhos repousa.
À Soleira
O que farei com este meu corpo inóspito
já que não respondes nem me abres a porta?
Tem pena de mim.
Não compreendo nada. Só Vos desejo
e meu desejo é como se eu miasse por Vós.
A florinha do mentrasto é tão sem galas
que minha carne se eriça, erotizada.
Existis, ó Deus, porque a beleza existe,
esta que vi primeiro com meus olhos mortais.
Parecerá blasfemo. Mas não chamam sagrado
o livro em que Jó fez imprimir suas dores,
amaldiçoando o dia do seu nascimento?
Por que não o meu, que o abençoo
e acho o degredo bom,
os penedos belos,
as poucas flores, dádivas?
Festa do Corpo de Deus
Como um tumor maduro
a poesia pulsa dolorosa,
anunciando a paixão:
“O crux ave, spes unica
O passiones tempore.”
Jesus tem um par de nádegas!
Mais que Javé na montanha
esta revelação me prostra.
Ó mistério, mistério,
suspenso no madeiro
o corpo humano de Deus.
É próprio do sexo o ar
que nos faunos velhos surpreendo,
em crianças supostamente pervertidas
e a que chamam dissoluto.
Nisto consiste o crime,
em fotografar uma mulher gozando
e dizer: eis a face do pecado.
Por séculos e séculos
os demônios porfiaram
em nos cegar com este embuste.
E teu corpo na cruz, suspenso.
E teu corpo na cruz, sem panos:
olha para mim.
Eu te adoro, ó salvador meu
que apaixonadamente me revelas
a inocência da carne.
Expondo-te como um fruto
nesta árvore de execração
o que dizes é amor,
amor do corpo, amor.
Signos
Se esvai de mim o nojo dos mortos.
Já consigo comer
na tarde que sucede aos enterros.
Não sei o que representa em mim esta coragem nova,
este sensível amor aos enfermeiros,
este ouvido sem ira para as tosses
e o que contêm os vasos sob camas e nádegas.
A veste nupcial tem graça como as mortalhas,
as invenções humanas comoventes.
Um rito para o himeneu,
outro pra alçar o corpo e sepultá-lo.
Os casamentos são tristes porque externam
à vista de testemunhas
a mais funda ânsia de perenidade,
os noivos sempre nus.
Os enterros são meio alegres,
todos olham no morto o irredutível
que só ele contempla sem ameaças.
Tudo é uma coisa só. Sombra do que será.
O que difere é Deus.
Contradança
Meu espelho me estranha,
despendo esforços injustificáveis
para amar um lugar que nem conheço.
Suspeito cidade crua, tudo pintado de fresco,
sem um musgo, um descascado no portão de ferro.
Como partícula em seu caráter instável,
sem história flutuo molestada
pelo gozo das trevas,
prazer maldito de uma certa dor.
Mas eis que a noite constela-se
e, com tanta acha de lenha
e tanta casca de pau,
já tenho como fazer uma fogueira bonita.
Espelho meu, estilhaça-te!
Escolho o baile,
quero rodopiar.
Distrações No Velório
Felipa ainda quente no caixão
e o que me vem à cabeça
é o vasilhame que areava até espelhar.
Com a mesma idade minha, só porque morreu,
não pode empoeirar-se num museu de fósseis
seu modo de arrematar qualquer assunto:
‘É um problema, comadre.’
Existem as costas, o saco e o suportar.
E suportar que realidade tem?
E por que é abstrato, se dói tanto?
Felipa organizava bazares pra mães de periferias:
‘Não têm noção de nada as coitadinhas,
um problema, comadre!’
Felipa, agora, como se diz na poética,
“descansa no seu leito derradeiro”.
Como se não fosse morrer, rezo por sua alma
e demonstro mais contrição que seus parentes,
esforço meu para espantar a cobiça:
Com quem ficará a cruz de ouro que tão raramente
[usava?
Vou fazer um retiro, minha glicose subiu
e mesmo com comprimido demoro a pegar no sono.
Deus, tem piedade de mim.
Peço porque estou viva
e sou louca por açúcar.
Sala de Espera
A Bíblia, às vezes, não me leva em conta,
tão dura com minha gula.
Nem me adiantou envelhecer,
partes de mim seguem adolescentes,
estranhando privilégios.
Nunca me senti moradora,
a sensação é de exílio.
Criancinha de peito, essa já sabe,
seu olhar muda quando desmamada.
Tudo é igual a tudo,
mas por agora a unidade nos cega,
daí o múltiplo e suas distrações.
Deus sabe o que fez.
Mesmo com medo escrevo
que é 1º de julho de 2011.
Parece póstumo, parece sonho.
Alguma coisa não muda,
minha fraqueza me põe no caminho certo.
Deus nunca me abandonou.
Avós
Minha mão tem manchas,
pintas marrons como ovinhos de codorna.
Crianças acham engraçado
e exibem as suas com alegria,
na certeza — que também já tive —
de que seguirão imunes.
Aproveito e para meu descanso
armo com elas um pequeno circo.
Não temos proteção para o que foi vivido,
insônias, esperas de trem, de notícias,
pessoas que se atrasaram sem aviso,
desgosto pela comida esfriando na mesa posta.
Contra todo artifício, nosso olhar nos revela.
Não perturbe inocentes, pois não há perdas
e, tal qual o novo,
o velho também é mistério.
Contramor
O amor tomava a carne das horas
e sentava-se entre nós.
Era ele mesmo a cadeira, o ar, o tom da voz:
Você gosta mesmo de mim?
Entre pergunta e resposta, vi o dedo,
o meu, este que, dentro de minha mãe,
a expensas dela formou-se
e sem ter aonde ir fica comigo,
serviçal e carente.
Onde estás agora?
Sou-lhe tão grata, mãe,
sinto tanta saudade da senhora...
Fiz-lhe uma pergunta simples, disse o noivo.
Por que esse choro agora?