Lista de Poemas
Bilhete da Ousada Donzela
há nazistas desconfiados.
Põe aquela sua camisa que eu detesto
— comprada no Bazar Marrocos —
e venha como se fosse pra consertar meu chuveiro.
Aproveita na terça que meu pai vai com minha mãe
visitar tia Quita no Lajeado.
Se mudarem de ideia, mando novo bilhete.
Venha sem guarda-chuva — mesmo se estiver chovendo.
Não aguento mais tio Emílio que sabe e finge não saber
que te namoro escondido e vive te pondo apelidos.
O que você disse outro dia na festa dos pecuaristas
até hoje soa igual música tocando no meu ouvido:
‘não paro de pensar em você’.
Eu também, Natinho, nem um minuto.
Na terça, às duas da tarde,
hora em que se o mundo acabar
eu nem vejo.
Com aflição,
Antônia.
O Conhecimento Bíblico
pra que eu possa erigi-lo,
palavras e um rito,
um lugar entre ruínas, longe
de todo bulício humano conhecido.
A felicidade é tão grande
que desperta os demônios,
os que se ocupam em gerar o medo,
pois de onde mais pode vir
este pensamento sujo:
você exposto, nu,
à minha sanha de perfeição.
São teus pés que nunca vi
que ameaçam minha vida
porque tua alma já é minha;
teu amor por orquestras,
tua inacreditável humildade.
Eu só quero o que existe,
por isso erijo este sonho,
concreto como o que mais concreto pode ser,
vivo como minha mão escrevendo
eu te amo,
não em português. Em língua nenhuma,
em diabolês, que quer dizer também
eu te odeio,
me deixa em paz,
não exija de mim tanta coragem.
Me deem um lugar no mundo,
onde não tenha ninguém,
um lugar entre ruínas.
O dia da santidade se aproxima,
o dia pagão em que nascerá minha vida.
Jonathan, antes de Cristo
eu te amo.
Mais Uma Vez
Estou cansada deste amor sem mimos,
destinado a tornar-se um amor de velhos.
Oh! nunca falei assim —
um amor de velhos.
Ainda bem que é mentira.
Mesmo que Jonathan me olvide
e esta canção desafine
como um bolero ruim,
permaneço querendo a bicicleta holandesa
e mais tarde a cripta gótica
pra nossos ossos dormirem.
Ó Jonathan,
não depende de você
que a cornucópia invisível jorre ouro.
Nem de mim.
Quero enfear o poema
pra te lançar meu desprezo,
em vão.
Escreve-o quem me dita as palavras,
escreve-o por minha mão.
Meditação do Rei No Meio de Sua Tropa
os grandes feitos de homens memoráveis.
Biografias são desejos,
ainda as dos malfeitores e as dos santos.
A vida, a pura,
a crua e nua vida
é cascalho,
teatrinho de sombras
que a mão de uma criança faz mover.
Como aves migrando a estações mais quentes
a comando invisível prosseguimos
e perfilados somos até felizes.
O Encontro
se resolvermos que o céu
é este lugar onde ninguém nos ouve,
quem poderá salvar-nos?
Quanto tempo resistiríamos
sem falar a ninguém deste acontecimento?
Acompanhei com os dedos
o desenho miraculoso do teu lábio,
contornei-lhe as gengivas,
bati-lhe no dente escuro
como em um cavalo,
um cavalo meu na campina.
Pedi-lhe: faz com tua unha um risco
na minha cara,
o amor da morte instigando-nos
com nunca vista coragem.
Vamos morrer juntos
antes que o corpo alardeie
sua mísera condição.
Agora, Jonathan,
neste lugar tão ermo,
neste lugar perfeito.
Pastoral
a saudade de Jonathan me perturba
eu vou pra roça.
Nas ruas de café,
entre canas de milho e folhas de bugre lustrosas,
sua presença anímica me acalma.
O cheiro dele é resinas, sua doçura,
escondida em cupins, cascas de pau,
mel que nunca provei.
Meu coração implora à ordem amorosa do mundo:
vem, Jonathan. E aparece um besouro
com o mesmo jeito dele caminhar.
Descubro que passarinhos
só fazem o que lhes dá gosto
e me incitam do bambual:
Você também, pequena mulher,
deve cumprir seu destino.
Há um sacramento chamado
da Presença Santíssima, um coração
dizendo o mesmo que o meu:
vem, vem, vem.
Conheci a cólera de Deus,
agora, seu vigilante ciúme.
Até a raiz das touceiras,
até onde vejo e não vejo,
rastro imperceptível de formigas,
Ele, Jonathan, e eu,
faca, doçura e gozo,
dor que não deserta de mim.
Prodígios
no meu querer intenso de um milagre:
que esta flor desabroche na minha frente,
que a luz pisque três vezes.
Assim sem mais, o pensamento de que vivo em pecado,
Cristo me advertindo:
“Quem olhar uma mulher cobiçando-a
já adulterou com ela em seu coração.”
Mas Jonathan nem é mulher
e quem hoje, senão às escondidas,
cumpre o preceito bíblico
de vergastar até o sangue
as costas do escravo ruim?
Ó andorinha,
pousa em meu ombro como um sinal.
Ó escorpião,
move tua cauda azul,
rodopia no céu, lua crescente.
Me diz, bíblia velha, onde está o erro.
“Quantas vezes no deserto O provocaram
e na solidão O afligiram.”
Estes poemas belíssimos
dizem de Deus:
“Matou os primogênitos no Egito.”
“Seu hálito queima como brasa.”
A lei me afasta de Jonathan
que me aproxima de Deus
porque é belo e me ama
e não teme tocar os meus
com seus lábios de carne.
Bons tempos em que se matava
a adúltera a pedradas.
O que segura o mar nos seus limites
tem carinho com o mar.
Por que não terá comigo que também sei bramir?
Amo Deus, amo Jonathan,
amo, amo, amo.
História de Jó
e calcas aos pés tua pobre criatura,
teu sofrimento é enorme, deus,
a dor de tua consciência ingovernada.
Difícil me acreditares,
pois tenho um céu na boca.
Tem piedade de nós,
dá um sinal de que não foi um erro,
ilusão de medrosos,
fantasia gerada na penúria,
a crença de que és bom.
O medo regride à sua estação primeva,
à sua luz branca.
E quero a vida nos álbuns:
assim eram as avós e suas criadas negras.
Não posso ir aos teatros,
convocada que sou pra esta vigília
de segurar teu braço pusilânime,
eu criatura digo-Te, coragem.
Perdoa-me, contudo, perdoa-me.
Tal Qual Um Macho
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
Salve Rainha
Queria ficar alegre
sem precisar escrever,
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
— já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
“Post-partum, Virgo Inviolata permansisti.
Dei Genitrix, intercede pro nobis.”
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.
Comentários (0)
NoComments
Adélia Prado - 24/03/2014
Adélia Prado - a vida é mais tempo alegre do que triste
Roda Viva | Adélia Prado | 1994
Série 15 Minutos - Adélia Prado
Adélia Prado fala sobre sua obra, feminismo e o momento político do Brasil (2018)
ENSINAMENTO - Adélia Prado
"Reflexões Filosóficas sobre Poemas de Adélia Prado" LIVE com a Profª Lúcia Helena Galvão
Adélia Prado - XIX Encontro Comunitário de Saúde Mental #Shorts
Recuperação 2023 - Produção Textual 22/12/2023
Adélia Prado no Sempre Um Papo - 30 anos
Adélia Prado - SÉRIE "10 CITAÇÕES"
Adélia Prado no Sesc Vila Mariana - Sempre Um Papo 2014
Adélia Prado fala sobre fé e arte - Imagem da Palavra (2012) [Rede Minas Memória]
Exausto | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Romeu Zema pergunta se escritora Adélia Prado trabalha em rádio mineira
Adélia Prado no Sempre um Papo - 2008
Adélia Prado - O poder humanizador da poesia
ADELIA PRADO UMA MULHER DESDOBRAVEL 1
A MEMÓRIA AFETIVA - ADÉLIA PRADO (Poesia)
Não Quero Faca Nem Queijo Quero a Fome | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Leitura Obrigatória - Bagagem: Adélia Prado
Com Licença Poética | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
[Sobre o autor] Adélia Prado
Adélia Prado, a simplicidade de um estilo
ADELIA PRADO - Documentário
ADELIA PRADO - entrevista exclusiva
Assembleia de MG prepara desagravo à escritora Adélia Prado após gafe de governador
Casamento | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Resenha #104 Poesia reunida, de Adélia Prado | Com licença poética!
Adélia Prado - 2o. Fliaxará 2013
Dona Doida | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Camilla Rebouças | Momento | Adélia Prado
Adélia Prado pede oração pelo Brasil no #SempreUmPapo
BAGAGEM DE ADÉLIA PRADO
Adélia Prado (Com Licença Poética) - Projeto [Caixa de Espanto] de @TiagoZorg #literatura #leitura
Dona Doida - Adélia Prado
Palestra de Adélia Prado na SP Escola de Teatro
Entrevista com Adélia Prado - Jogo de Idéias
Análise do poema "Com licença poética" de Adélia Prado.
Simpósio Nacional da Família 2014 - "Testemunho de Adélia Prado"
Resumo do livro "Bagagem" de Adélia Prado.
Bagagem, Adélia Prado - Leitura Obrigatória UFRGS 2021
Bagagem (1976), de Adélia Prado. Prof. Marcelo Nunes.
Adélia Prado (Momento) - Projeto [Caixa de Espanto] de @TiagoZorg #literatura #poesia #leitura
Marília Gabriela lê "Com Licença Poética", de Adélia Prado
As Mortes Sucessivas - Adélia Prado | Poesia
"Bendito" por Adélia Prado
A memória eterniza o que realmente importa | Adélia Prado by Nélson Freire
Adélia Prado - Encontros Notáveis
Leitura de poemas por Adélia Prado - Jogo de Idéias
Português
English
Español