Lista de Poemas
Imagem E Semelhança
ao cativeiro urbano
ganha comida e afagos.
Mesmo assim,
bate a cabeça na jaula,
saudoso do que não viveu,
rumor de folhas, cheiros,
perigos na mata e a mãe.
Quero salvar o gorila
na sua língua de bicho.
Quando morre para onde vai sua alma,
a quem serve sua dor,
seu tristíssimo olhar de desgarrado?
Há meninos assim, mas são humanos,
parece um horror menor.
Atracado às grades o gorila me olha,
é proibido mas lhe dou bananas.
Da Mesma Fonte
desta tristeza,
desta nódoa na roupa,
da seiva má no sangue,
da pele rachada em bolhas.
De onde vens, certeza
de que um pouco mais de açúcar
não fará mal a ninguém.
O orgulho fede como um bom cadáver,
minha cerviz é dura,
mais duro é vosso amor, deus escondido
donde jorram tormentas,
minha nuca dobrada a este repouso
e esta alegria.
No Bater Das Pálpebras
menos um grilo
— velado, não estridente —,
a casa mora.
Fosse o Céu Sempre Assim
em casa que se conhece,
uma janela se abre para cascalho e areia,
pouca vegetação resistindo nas pedras,
esmeraldas à flor da terra.
Nada exubera. É Minas,
um homem com seu cavalo
se abeberando no córrego.
Epigráfico
põe brincos de diamante
porque ama a Beleza
e nisto é tenaz,
na fé de sobreviver à morte,
a que não existe.
Pois vêm da vida os mortos
falar à alma o que só ela escuta.
Contra o que se sente
toda filosofia é mesmo vã,
o livro é sagrado
quando o que apregoa
é revelado na carne
onde os joelhos vacilam
e os pelos crescem.
Ter medo é saber do inaudito,
ninguém até hoje explica
por que batem as pálpebras.
Olhos
que morava com as freiras
dava equilíbrio ao mundo,
porque era muda e eu não.
Sobre cigarras sabe-se:
seu desespero cíclico é esperança.
Que vida estranha a minha,
me fingindo de pobre na abundância,
me fingindo de muda entre falantes,
imitando cigarra às escondidas,
as que quando morrem
viram fóssil de ar,
lâminas de cristal nos troncos,
desidratadas de excessos.
Eu não sabia que era objeto de amor,
a vida toda renegando minha herança,
pensando agradar a Deus não sendo abrupta.
O sapato é novo
ou são meus pés recriados que latejam?
Como o grunhido da muda
esta fala é bruta,
estou feliz e dói.
A Escrivã Na Cozinha
— de nossa vida, explico — mas sugiro
Ao meio-dia um rosal,
implica sol, calor, desejo de esponsais,
a mãe aflita com a festa,
pai orgulhoso de entregar sua filha
a moço tão escovado.
Nome é tão importante
quanto o jeito correto de se apresentar a entrevistas.
Melhor de barba feita e olho vivo,
ainda que por dentro
tenha a alma barbada e olhos de sono.
Sonhei com um forno desperdiçando calor,
eu querendo aproveitá-lo pra torrar amendoim
e um pau roliço em brasa.
Explodiria se me obrigassem a caminhar por ele.
Ninguém me tortura, pois desmaio antes.
A beleza transfixa,
as palavras cansam porque não alcançam,
e preciso de muitas pra dizer uma só.
Tão grande meu orgulho, parece mais
o de um ser divino em formação.
Neurônios não explicam nada.
Psicólogos só acertam se me ordenam:
Avia-te para sofrer — conselho pra distraídos —,
cristãos já sabem ao nascer
que este vale é de lágrimas.
Balido
assim não se quebra o verso.
Na verdade tenho mais.
E então?
Respeito me insulta,
repele fantasias de rapto,
namoros no jardim cheirando a malva.
Quero um paranormal a me ensinar piano,
Consuelo dá aulas, mas seu toque é um martelo
e eu venero pianos.
Mãe não rima com nada,
nem velha,
só aparece telha, ovelha, orelha,
nada que preste. Cansei.
Tem um senhor distinto
querendo arrasar meu ego.
Com certeza minto.
Volta e meia estou perplexa
e toda rima que achei é circunflexa.
A Necessidade do Corpo
Ainda assim eu devo estar nimbada,
porque um amor me expande.
Como quando na infância
eu contava até cinco para enxotar fantasmas,
beijo por cinco vezes minha mão.
Este é meu corpo,
corpo que me foi dado
para Deus saciar sua natureza onívora.
Tomai e comei sem medo,
na fímbria do amor mais tosco
meu pobre corpo
é feito corpo de Deus.
Exercício Espiritual
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Imagens sobrevêm:
homem, vinheta, instrumento,
o que ameaça ser um leque de penas
e é uma cabeça de naja,
a perigosa serpente.
Quero ver o Pai, insisto,
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Um dente, uma vulva,
um molho de nabos comparecem,
gerados, como eu, do nada.
De onde vêm os nabos, Maria?
Onde está o Pai?
De onde vim?
Move-se na parede um cavalo de sol.
É o Pai?
Não,
é só uma sombra e já se desfaz.
O Pai, então, é uma usina?
Meu pai dizia: ó Pai!
E levantava os braços respeitoso.
Também meu avô: Deus é Pai!
E tirava o chapéu.
Assim, um pai remetendo a outro
e mais outro e outro mais,
enfim, a milhões de pais até Adão,
que sou eu acordando de um sonho,
apenas “raia sanguínea e fresca
a madrugada”, filha de parnasiano,
que me encantava quando eu era mocinha,
filha de ferroviário,
cansada agora
como feirante ao meio-dia:
ai, meu pai,
me ajuda a torrar o resto
deste lote de abóboras,
me tira da cabeça
a ideia de ver Deus-Pai,
me dá um pito e um café.
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