Lista de Poemas
O Visitante da Noite
nem do camarada russo,
o presidente da América me distrai.
O que me encolhe é o príncipe andrajoso
que finge pedir esmolas,
sacando do seu chapéu
a fantasia das trevas:
Vão morrer os nascituros,
sua bondade é ridícula,
Deus odeia esta sua cara de medo.
Quando o sol se põe
a maldição se cumpre,
julgo não merecer minha cama limpa.
Filhinha
suas rugas, sua boca vincada
são marcas de expressão
de tanto sorrir pra mim.
Me chama a audiências privadas,
me trata por Lucilinda,
só me proíbe coisas
visando meu próprio bem.
Quando o passeio
é à borda de precipícios,
me dá sua mão enorme.
Eu não sou órfã mais não.
Branco E Branco
menino com menina,
flores chamadas lírios,
dente novo mordendo talo verde,
como se o sangue deles fosse branco.
Credo
Eu não quero saber de aparições!
O vulto alvacento, alto,
como se envolto em lençol,
me oferecendo uma pequena árvore
e creia: uma balança!
Fui para o dia claro e o sapo no jardim
batendo papo compadre e a palavra turíbulo
que um passante estranho repetia
com inabilidades proparoxítonas e mais
turíbulo, a coisa, objeto
que sem razão aparente
me tomara a atenção por dias e ainda
a lâmpada de repente partindo-se
com estrondo e multiplicado clarão,
tudo sequencial, tudo no mesmo dia!
Epifenomenicamente
ordenei perempta a coisas, palavras, vultos
e seus conluios de aporrinhação:
Aparição, não! Eu me recuso.
Não discuto com sombras.
Só falo do que decido acreditar.
Jejum Quaresmal
como quem sabe o que faz.
Está com fome o relógio.
Eu também, querendo comer do prato
onde comem os santos
Vossa vontade esdrúxula e desumana,
eu que, só em tendo feijão e batatas,
me sinto no Vosso colo.
Fantasias de privação me atrasam a santidade,
pois a via que entendo é oferecer-Vos
à cruenta paixão minha colher de açúcar.
A Noiva
onde sonhar é a máxima vigília.
Em qualquer reluzente coisa eu o procuro,
bem que só a mim servirá,
os sapatos da Cinderela.
Talismã ou relíquia,
seu ouro me apela às núpcias,
por orgulho meu de pobreza
sempre procrastinadas.
Mas chega a hora e é esta
em que se não o acolher
o noivo se irá desesperado de mim
morar com outra menina
na reluzente montanha.
Sem Saída
sou mais que meu pobre corpo.
Os óculos do escritor o atestam,
lentes que para dentro olham,
sua foto contra a estante,
sempre flagrada a meio desalinho.
Que imensa pedreira aquele monte de livros,
indiferença treinada para esconder sofrimento.
Falsamente humilde, não escreveria mais,
mortal pecado,
pretensão de poder reservada ao divino.
Só lhe resta posar
sem corrigir os ângulos derruídos
à animadora legenda:
O escritor no seu gabinete.
A Convertida
o ícone,
o monacato.
Descobri que sou russa.
Divinópolis
pesavam de sementes
sob uma luz que,
asseguro-vos,
nascia da luz eterna.
Quis dizê-la e não pude,
ingurgitada de palavras
minha língua se confundia.
Cantei um hino conhecido
e foi pouco,
disse obrigada, Deus,
e foi nada.
Em meu auxílio
meu estômago doeu um pouco
pelo falso motivo
de que sofrendo
Deus me perdoaria.
Foi quando o trem passou,
uma grande composição
levando óleo inflamável.
Me lembrei de meu pai
corrompendo a palavra
que usava só para trens,
dizendo ‘cumpusição’.
O último vagão na curva
e passa o pobre friorento
de blusa nova ganhada.
Aquiesci gozosa,
a língua muda,
a folha branca,
a mão pousada.
Abrasada
e já suspirava:
‘Por que não vai todo mundo pro convento?
Qualquer dia, ô cruz, estes peitinhos,
seus paninhos manchados...’
Por que me deixou órfã, minha mãe?
Apesar de seus olhos tristes
e sua boca selada,
vou me casar assim mesmo.
Só vai lhe doer agora
e não muito.
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