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meesperanoportao

meesperanoportao

Vai e vem

Vou e volto
Para o passado passar mais rápido
E o presente caminhar devagar

Se o futuro repassa o agora
E o daqui a pouco já passou da hora
O que levo na levada do tempo...
A solidão dos ponteiros ou as lembranças do meu dia cinzento?! 

Jéssica Bastos
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A poesia de JRUnder

A poesia de JRUnder

Frutos da saudade


A saudade é uma árvore
Que nasce em cima do morro
Quem tenta a escalada
Logo grita por socorro...

É um arbusto solitário
Sobre a terra avermelhada,
Lá não chove e a rega
É feita por águas choradas.

Nasce de uma semente,
Formada no coração.
Cresce em poucos momentos,
Sob o céu da solidão.

Qualquer terra, pouco importa,
Se é macia ou se é dura,
A saudade logo gera
Os frutos da amargura.

Somente a volta de quem
Fez nosso rosto molhar,
Pode fazer a saudade,
Murchar, morrer e secar.
1,545
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fernandogbr

fernandogbr

PRISMÁTICO

tua singularidade me prendeu.
me fez perceber
que tinha comigo,
tudo o que precisava pra enxergar.

lucente, iluminado.
tu me tirou do cinza 
e me pintou de todas as cores que existem.

assim que me ensinou
que se pode sorrir, 
também pode ser luz,
entendi;
que a escuridão do meu mundo
ja tinha ido embora;
no exato momento,
em que chegaste perto de mim.

teu toque
do início ao fim,
é o elemento mais belo.
a primeira estrela;
a centelha final.

te amo, como se o amanhã
fosse nosso último encontro.
meu absoluto refúgio, 
meu guia no escuro;
meu tudo.


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paola_

paola_

pai

Presente
Essencial
Referência
Especial
Professor
Encaminha
Ajuda
Alinha
Três letras
Que aprendi
Desde cedo
A admirar
Hoje seria seu dia
Mas chegou seu tempo
Suas lembranças
São meu bálsamo diário
Recordar não é sofrer
Recordar é repousar
Recordar é relembrar
Recordar é amar
Alguém que nunca se vai...
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Raquel Ordones

Raquel Ordones

Um borralho, por favor!


 
Orvalho sublimou, já é inverno.
Caderno é de versos; em frangalho.
Ralho com o tal vento; um frio externo.
Alterno: edredom, colcha de retalho.
 

Falho; a janela aberta; mas que inferno!
Terno o canto do pássaro no galho.
Espalho meu jornal; fato hodierno,
Consterno com o preço; aumento do alho.
 

Fornalho o moletom; então me hiberno.
Encaderno-me as meias: agasalho.
Calho na minha cama num eterno.
 

Moderno é meu móvel; e me esgalho.
Carvalho é madeira, estação verno
Baderno no lençol. _Sair o caralho!

 
ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Uberlândia MG
1,018
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Gabi Luna

Gabi Luna

eterno domingo atarefado

durmo, acordo, durmo, acordo, num eterno domingo atarefado. o corpo quente pelo sol das duas, vitamina atravessando a janela sem dó. estatelada nas camadas da morte passada, com o mundo embaçado, ponho café. a casa a mil por hora e eu acordei aqui, de novo. to começando a me acostumar. volto para o quarto, vejo a pilha de trabalhos acumulados. dedos e olhos examinando as pastas. dentre tantas tarefas de domingos, escolho uma pra executar.

no que eu quero ser feliz hoje? um rastro brilhante corta a parede. lambendo o quarto inteiro, deita seus raios sobre minha mesa de trabalho, me lembrando, ou obrigando, a acolher o tempo do sol. observo a cena, respiro, só tenho a esperar. com os olhos impressos no espelho, busco um agora onde colocar as voltas do tempo. uma forma de não só sobreviver, mas respirar o turbilhão, descobrir o ritmo desse imenso. descolar qualquer forma de ansiedade e desespero, qualquer apego. escorrer. morrer. não morrer antes de morrer. aqui. tanta coisa aconteceu e você-ainda-está-aqui, viva. ondulo um tapete azul, oceano esticado no chão.

o lado de dentro é tudo o que temos pra hoje, alongo o rastro. apesar dos pesares, dos temores, do passado. fisgando o peito, aceito. identifico, não me identifico. continuo a nadar. transpondo tensões. a palma de cada mão segura a planta de cada pé, serpenteando a coluna com algum tipo de clarão. conto, esvazio. o espectro de luz bifurcada transpassa o corpo em pose, desanuviando percepções.

tendões dilatados, a respiração se esvai. morrer por um momento. por um momento só. reorganizar. o lugar do amor, o lugar da morte. como é difícil perder um amor pra morte. amor. a morte. amor-te. adeus. agora. só agora. só tenho o agora, tantas vezes adiado, o agora. agora, agora. encarnado na noite que cai em silêncio, lubrificando o para raio dos sensos.

felicidade não é um sorriso na cara. o sorriso, muitas vezes, mascara. anos atrás eu não fazia ideia do que era sentir isso. eu vivia correndo. corria pra chegar na hora, corria do carro de polícia. corria de bala perdida e da milícia. corria pra receber, sem saber que isso era dar, me dar, me doar, eu nem sabia distinguir, esperar. uma carimbadora oficial. finalizando tarefas o suficiente para me afastar de qualquer rastro de mim mesma. o sorriso sempre no rosto, escondendo as entranhas em decomposição.

vendo daqui, respeitosamente, acho graça dessas voltas insanas da minha desventura em terra fria. acolho quem já fui. sinto meu corpo de ontem tremer por debaixo da pele de agora. uma folha dobrada, postura essencial. esboço das dobraduras possíveis. desdobro guerreira e solto. esbarro comigo no aqui e ali dos retângulos na parede. voo sendo mais quem sou, o corpo relaxado. qualquer música tocando. qualquer uma não, uma pra concentração. vou fazendo jogos comigo mesma, plano baixo, médio, alto, suuper alto. encontro por acaso com uma felicidade boba demais. parece uma névoa. de repente perco o tino, perco o tempo e nem sei a quanto estou aqui. é isso que você veio aprender, diz a voz na minha cabeça.

quadros e esquadros de um dia na quarentena. pc do colo pra mesa, faço o que tiver de ser. ainda tô pra decidir como me sinto sobre isso. por ora, sigo carimbando e entendendo os tempos de cada gesto. estou segura, não preciso correr. um longo caminho andado para quem sempre corre demais. pastas, dentro de pastas, dentro de caixas com papéis riscados em outros tédios, tempo pra resolver. desenrolar os novelos. linhas e mais linhas escritas em graffiti nas paredes. aspirar o ar do novo.

em contratempo, inspiro fincada no presente. concentração. fazer uma coisa por vez, mantendo-me presente em cada tarefa. concluir. passar pra próxima. realização.

durante tudo isso, banhos tão longos quanto um sonho se tornando possível. a prateleira abarrotada destas receitas caseiras abandonadas em busca de alguém. vaporizo preocupações, o tempo tem disso de ser quem vai. voraz ou singela, a água quente descola, ajuda a levar, já não aguento nem preciso aguentar; já não espero nem preciso esperar, solto. sinto o peso do gás saindo pelos poros, se misturando com a fumaça densa que enevoa a casa.

o jato quente flameja a derme, imprime sentenças na água corrente em lava. cabeça e músculos efervescendo. dissolvo e já deixei de ser, estar ou permanecer. me acalento no calor possível e sigo de volta ao quarto. detecto o calor marcando os trajetos do meu corpo na casa onde estou presa. essa mancha quente do banheiro pro quarto, do quarto pra cozinha, banheiro de novo, vez por outra, põe um nariz no quintal e corre de volta pro quarto. Ah, tenho um quintal!

mastigando a papelada, garanto uns metros quadrados. o preço é um valor combinado. ainda úmida, me jogo pra baixo das cobertas,onde fico até ter certeza de estar tranquila em cada célula do meu corpo. finanças equilibradas não significa, necessariamente, ter um emprego, mas dá trabalho. há quem seja acostumado com esse tipo de vida. eu, tô aqui, nessa lama, aprendendo a me moldar.

fui acostumada com suor na cara, internet discada e horas sendo roubadas pelo transporte público. a gente se acostuma, mas não devia. quando coloquei a mão em um cuspe no degrau de uma estação de trem, quis viver algo diferente. sem saber, eu desejei tudo isso.

desejei ter tempo pra me dedicar a essas tarefas acumuladas pelos becos da memória, para digerir essas crenças e construções, quase ruínas, martelando sentidos. eu quis acabar com a culpa. quis soltar o peso sem deixar cair em cima de ninguém. quis ser fiel a mim mesma. carregando só o preciso. reiniciar decibéis, rever a interpretação dos papéis.

conto mais vinte e quatro horas dentro. estar comigo. fecho os olhos, enxergo a tela. cada uma dessas pequenas telas, possibilidades gravitando na antimatéria. experimento algo novo: nem esperar, nem desesperar.

dormimos juntos todo dia, o Sedutor do Sertão e eu. me unto a pedidos da pele repuxando. são meus primeiros meses morando em um lugar frio, ainda estou reconhecendo as vantagens desse plano prime para o inverno.

entre quatro paredes de um quarto no interior de um estado que não é o meu, vivendo um status que ninguém me deu. alimento a melequenta. paro e observo.


*****

Eterno domingo atarefado é uma cronica escrita durante o período da quarentena no Brasil, em junho de 2020. Construída para integrar o pacote de entrega de obras literárias para o Apoio Prefeitura de Santo André, em parceria estabelecida através de Chamamento Publico de Agentes Culturais para o Fundo de Apoio a Gestão Cultural.
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simone_moura3

simone_moura3

Amor sufocante

E foi te amando imensamente
que me esqueci de mim...
Não importava o peso
era invocação sem fim...

Pouco a pouco
como areia entre os dedos
você foi escorrendo...

E meu medo,
Ah! meu medo
foi crescendo...

Insegurança intensa que a tudo destruiu
sufocou o meu peito
e você sem muito pensar...
Partiu!
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fernandogbr

fernandogbr

ARCANO

tantas batalhas.
tantas guerras.
tudo se resume a no final,
ser salvo por você.

cavaleiro da armadura prateada.
meu coração de rei Midas enxerga;
que em cada detalhe,
és feito de ouro, maciço.

tua força é maior que imagina, guerreiro.
tu nunca foi de carregar escudos,
e mesmo assim nos teus ombros,
carrega o mundo inteiro.

poderoso arcano,
que tem essa magia que é só sua,
e ninguém sabe explicar.
o equilíbrio perfeito entre o sagrado,
e o profano.

templário, lendário;
tu é quem derrota meus demônios.

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rodri_200

rodri_200

Ângela

Ângela, quando te vi
pela primeira vez,
fiquei atordoado
e caí no chão, de joelhos,
para beber tua aura.

 A fulgência do teu olhar de crisálida
penetrou-me, devassou minha carne,
devorou-a.
Não pude ver teu colo,
teu seio róseo que formava
um ângulo reto, inconcusso,
mas tua voz hipotenusa,
a simetria da tua face,
teu corpo congruente calculável a qualquer
distância, a partir de um ponto equidistante,
me fizeram amá-la.
Naquele instante,
ouvi réquiens e harpas líricas,
vi arcanjos descerem do céu,
o universo se contraindo para nos enfeixar linear-
mente, entre catetos e formas puras, fluidas.
Mas tu me deixaste de repente,
sem derramar lágrimas,
quando vendi para o sebo
os meus manuais de geometria plana.


(Poema extraído do meu ebook Pássaro Angular, disponível no Ubook e em outras lojas virtuais)
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ArmandoNascimento

ArmandoNascimento

Meu silêncio

Do meu silêncio um sentimento profundo nasceu, um desejo imenso por ti de mim se apossou, um desejar sem igual toma conta de minha vontades, e não a como mais esperar, quero este sentimento a ti entregar, escrito por Armando Nascimento
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Luiz Rossini

Luiz Rossini

Minha rainha

E mesmo o mundo me dizendo que não
Dizendo que era um esforço em vão
Contra eles eu lutei
E para o mundo eu provei

Provei o meu amor
Sem ter o mínimo de rancor
E se por ti eu lutei,
Por ti, eu continuarei

Não temo o que irá de vir
Portanto que esteja ao meu lado,
Não irei sucumbir

Você é a minha rainha
Eu sou seu
E você é minha

Enfrentarei bestas e demônios,
Tempestades e pesadelos
E quando a paz e a calmaria chegar
Ao lado da minha rainha, eu quero reinar.

L.R.
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João Cotrim

João Cotrim

navegando

o que há em mim de cabos
estão decerto desligados!
de tão grande serenidade
perante ainda maiores mudanças.
consciente de eterna saudade
continuo a viver de esperanças
que são agora gigantescas
comparadas ás anteriores
baseadas em paixões grotescas
e em fantásticos amores

barco inerte às pancadas
depois de forte turbilhão
águas de tão calmas, paradas
terra conquistada em vão

in Poteta, 3 de Dezembro de 2009
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ArmandoNascimento

ArmandoNascimento

Vou lhe amar

Vou lhe amar mesmo em teu silêncios, vou deixar teu coração me acolhe, assim irei deixar que na sua solidão possa ouvir meu coração, irei te esperar na saida desse teu labirinto, não irei te comfuilndir, e sem qualquer explicação você vai seguir seu coração, e dos teus lábios irei ouvir a pronúncia da palavra te amo, escrito por Armando Nascimentow
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fernandogbr

fernandogbr

CONTROLE


até onde tu é disposto?
de na busca de algo melhor,
largar teu conforto?

nesse ter que saber,
do que pode ou não pode.
de aceitar qualquer coisa,
de ter que ser forte;

como tu deixas,
nada disso te assustar?
como o fato singelo
de procurar motivos em tudo,
na busca de um certo,
que só te leva a errar?

essa ilusão de comando;
não se vê usado?
como um peão no xadrez,
descartado?
controlado, confuso
dando nome as coisas
só na tentativa de não as perder?

não se sente aflito?
no olho desse furacão invisível,
onde a ventania te cerca e machuca;
e tu só vê a destruição.

num jogo roubado,
perdendo.
e teu vício é o único a te entender.

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Gabi Luna

Gabi Luna

sala de transmissões troncais

um cheiro quente e amargo inundava as mãos, enlaçando fitas ao redor dos tornozelos. o mordisco nos lábios. invasão sem chave nem arrombamento. em algum lugar entre a sétima cervical e a primeira torácica. um calafrio na medula. delírio à flor das paredes da sala de audições. consolidação do bulbo.

no lotado do vazio, três bocas molengas acordam e fitam os rabiscos em suas pranchetas, não dão conta. as imagens nas câmeras não dão conta, a memória imaginada não dá conta. não dá conta. a vegetação já havia sido devastada e só restava um emaranhado na barra do espelho. correndo por dentro do escapamento de mais um desses ônibus pra casa, recapitulava cada movimento. os fios de sua matéria já destensos. a casa-mundo-corpo se expande e contrai, materializando um bom milheiro de tijolos calafetados com lama e musgo. ascendeu; mais um daqueles incensos de mirra. vibra kemet inteira para fora da narina esquerda, a direita está entupida. de mirada na raiz das penas crescendo sem parar. movimento. o corpo em gargalos calibrando potências. Pliè, chase, jetè — eu não caibo dentro dela. o espaço do vazio no tempo deixou a sala de audição sem olhar pra trás, entrou na sala de transmissões troncais. eu era gases puro, vim a ser pódjehuty. parou quando viu brotar do couro, outrora cabeludo, a penugem do ovo comido. inspirar, esvaziar, perceber o vazio. interregno do invisível. re spir ação. gesto presente. escolher estar no mudo. acolher o ar do mundo. em contratempo, perceber a atenção da consciência. ser tudo, sentir total. abrir espaço no não ser. de cara pro espelho, o arfar refunda rios. risos enterrados em outras percepções.

*****

Sala de transmissões troncais é uma das historias curtas escritas pela autora. Publicada originalmente no livro Acolher o ar do mundo, lançado pela Garupa Edições, em 2019.
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izasmin

izasmin

Múltiplos Mundos Internos

Navego entre mundos, 
Às vezes leituras de jornais,
Às vezes livros normais,
Às vezes poesias demais.

Amo sintetizadores musicais,
Amo paisagens naturais,
Amo passeios culturais,
Quero amores reais.

Anoitece, a gente escurece,
És incapaz de ouvir minha prece,
Então em silêncio a gente se despede,
E de repente o cérebro enlouquece.

Quero amizades festeiras,
Não encantadas princesas,
Distantes e frias como geladeiras,
Mas que curtam várias brincadeiras.

A hora de enfrentar matemática chegou,
Aulas de física não revisou mas frequentou,
Que recursos utilizou ou de fato estudou?
Débitos de programação ainda não pagou.

05 de Agosto de 2020
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A poesia de JRUnder

A poesia de JRUnder

Partir


E o que afinal é partir?
Levar o corpo para longe...
Andar, viajar, sumir?
Afinal, o que é partir?

Trilhos, estradas, céus...
Seguir um destino ou andar ao léu?
Fugir do ontem e se encontrar no amanhã?
Resolver na fuga o que não se fez no divã?
Ir por algum tempo, prometendo voltar?
Voltar sendo o mesmo e ao mesmo lugar?

Afinal, o que é partir?
Seguir a razão, deixando o coração...
E saber na verdade, que morrer de saudades,
É o valor que se paga, ao sair...

Partir é deixar mas, querendo ficar?
Dar adeus com a mão, mas levar a ilusão,
De que algo ficou, que irá nos guardar,
Na memória de quem, insistir em lembrar...
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yuri petrilli

yuri petrilli

[prosa] fragmento diurno-noturno

Segunda-feira fria, quatorze horas e quaisquer minutos que são sempre outros. É noite.
Vagarosamente permito que meus olhos se percam nas ondas dos lençóis que me cobrem as pernas cruzadas, concebendo, com a desatenção de meu olhar cansado, faces e gestos que nascem e morrem nos desenhos formados pelos vincos e sulcos dos tecidos velhos.
Nascem, porque me tocam a alma sensível que transita contente pelas choupanas cômodas da imaginação. Morrem, porque os intervalos sonoros das gotas que pingam nas calhas os desmancham com a realidade da chuva.
Segunda-feira fria, quaisquer horas e minutos que são os mesmos no pleno feriado que trespasso, sábado de agosto. O sangue corre quente nas veias impossíveis dos sonhos que derrubo nestes panos que observo. Quanta amizade pelas criaturas que penso plausíveis! Quanta ternura me causa o pássaro de renda alimentando o filho de asa rasgada! Quanta humanidade no sorriso irônico do finado ente que fui outrora, e quanta possibilidade!... Quanto esquecimento.
E quanta chuva.
Angústia. Pássaros e demais criaturas assassinas e assassinadas. A monotonia do embarque à consciência dolorosa, e o desembarque de seguida, e de novo, e de novo, através do calendário absurdo. Angústia e chuva.
E a chuva chora fria na acuidade com que sinto a realidade desamparada de tudo.
Chove, e desperto. E então encontro a realidade quebrada. E enfim sempre torno a sonhar.
Mas é noite. É sempre noite.
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natalia nuno

natalia nuno

silêncios...

há silêncios que dizem tudo
na aspereza da noite, são desabafo d'alma
nos olhos secos, raios avermelhados
a expurgar a solidão,
as veias soltam-se em trepidação
na quietude, não se ouve nada
a não ser, o bater do coração.
a vida já se ajoelha
o tempo no rosto se espelha
assim se faz o começo do fim,
sigo o silêncio que se quedou em mim
na memória há um fogo que arde e não
se consome...uma porta larga que abre
ao passado, estendo a mão
às lembranças,
o sonho impregnado de brandura e,
com ternura vou criando asas
para sair da solidão.

sempre a mesma sujeição ao tempo
sempre a mesma memória obsessiva
a lembrar cenas que marcaram a vida
deixaram no peito a saudade viva
esta saudade tão minha, que sinto de verdade
e lá me faço asa, que me leva de volta a casa
mas o tempo se arrasta e da vida me afasta
silêncio mudo que em mim se deita
encontra guarida no peito e ali se ajeita
aceita a oferta do abrigo e quer-se ali comigo.
há silêncios que dizem tudo
atravessam m' alma vazia, meu coração mudo
cansaço na viagem, e passa mais um dia.

natalia nuno
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Lagaz

Lagaz

Ouro

Sempre acreditei que a escrita deve revelar o que temos de melhor ou pior .
Assim como o primeiro trago de cigarro do dia,deve ser adiado ao máximo até a náusea.
O ourives trabalha o ouro e o transforma em joia...
sem jamais adivinhar qual destino desse brilho.
Que assim seja toda a poesia
Nua,
nauseante
e transformadora.
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kauanoliveira__

kauanoliveira__

A natureza faz o homem

Viajar mediante a luz
Pelejar por altos verdes
Imaginar saberes nus
O quão molhada é a sede?

Os labirintos de um pântano
A fragilidade de um graveto
Olho a vida sinto pânico
Do simples, subam as chamas do sossêgo

Da extensão de um monótono azul
Abaixo, um mundo de cores
Da vida de um homem simples que parece sem luz
Dentro, a escuridão reluz ouro

Do macro ao micro
De fora ao dentro
A natureza faz o homem
Mas o homem, ah, eu só lamento
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silvano75

silvano75

Sons das manhãs


Gostaria de ter o ninho refeito,
O vinho na mesa
A cama desfeita.
Gostaria de manhãs de sol,
Beijos de menta, cheiro de cafeína,
E descanso na agenda.
Gostaria de entrelaces descuidados,
Ombros e pernas encaixados,
E musica de dolores no rádio.
Gostaria de ouvir o silêncio das manhas
Os queixumes de janelas que se abrem,
O riso dos pássaros e cães que latem.
Gostaria de ouvir a voz da alvorada,
O barulho da estrada, o sino da igreja
O bafío da madrugada.
Mas você não esta aqui.
Então não ouço nada.
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Lucas de Medeiros Hipolito

Lucas de Medeiros Hipolito

Ruiva!

Ruiva!… teus fios dão-me vontades
         Saudades
Dos tempos de trançar…
Lembras na sala quando n’eles trancei
         Estirei
E nao quis mais soltar?…
Tu ficaste ruiva como um arrebol
         Sol
Com muita sede de raiar…

É n’uma sala simples com as belas
        Velas
Que o amor vem surgir,
Sao d’estes teus castanhos olhos
        Rostos
O esplendor luzir…
E é viver sem voce que para norte
        Morte
Quero além sumir!…

Eu aqui como uma criança, choro e te vejo
        Bocejo
Querendo no teu colo dormir…
Eu sinto tantas saudades do teu lábio macio
        Sorrio
Vejo eles e p’ra lá quero fugir…
Tu vives os céus que desenham a alvorada
        Dourada
Igual a pele que cintila em ti.

Ruiva!… teus loiros traços de morena
        Pequena
Brilham inté na noite de luar…
Ah quao paradisíaco era em teu seio
       Leito
Entre os carinhos se deitar.
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wilamycarneiro

wilamycarneiro

Ruídos

Ruídos

Gosto de ouvir
os sons, 
os barulhos das águas.
Elas, sim, me fazem 
sentir vivo.
Assim, sei que Deus
está presente nelas 
e em mim.

WILAMY CARNEIRO
Poeta Cearense
04.08.2020



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