stellarprince

stellarprince

Professor aposentado, poeta, escritor e consultor pedagógico.

1950-02-24 Campo Belo, MG, Brasil
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Alguns Poemas

Os Meus primeiros banhos...

O primeiros banhos a gente nunca esquece.
Era exatamente numa bacia como esta da foto, de zinco, em cima de uma mesa que vovó usava para passar roupa que mamãe colocava a bacia e depois de sentir a água na temperatura ideal que ela me colocava. Sempre supervisionada pela vovó ou uma das minhas tias,geralmente tia Gabriela que sendo solteira, morava com a vovó.
Lembro que a hora do banho era uma ocasião especial.
Vovó esquentava um caldeirão de água depois caminha para o banheiro despejava na bacia e com outro balde de água fria ia misturando até chegar Nuno temperatura ideal e logo dizia:
Gileite, pode trazer o "adarto"! (assim vovó e as pessoas lá da roça me chamava trocando as sílabas "au, al" por "ar" assim ficando "adarto"!
O banho era assistido por várias pessoas que ficavam elogiando:
⁃ ... olha que pernas gordas...
⁃ .... veja como ele gosta..
Assim o banho se estendia por vários minutos sob a admiração de vovó, minha tia e mamãe, claro! Mas sempre aparecia alguém mais pá acompanhar o banho.
O local, o banheiro era um local de bom tamanho mas recordo que era meio lúgubre um tanto escuro!
Mas, depois do banho...era  cuidadosamente enxuto e perfumado talco e dando aquela sensação deliciosa, de frescor!
Em seguida todos queriam pegar no colo e tentando comunicar com palavras dóceis!
Mas lembro mesmo do tio Laerte que com ousadia, deixando mamãe aflita,pegava me com suas mãos e jogava me acima de sua cabeça!  Eu...parecia gostar muito, sorria e soltava me de suas mãos! Assim repetidamente, enquanto eu sorria minha mãe assistia a tudo e implorando que tio Laerte parasse

MORRO DA ÉGUA

Era uma daquelas tardes de verão em que as cigarras pareciam estar afinando o som para uma grande orquestra. O sol brilhava e algumas nuvens carregadas despontavam no horizonte, mas grande parte do céu mantinha-se azul. Papai disse a mamãe que precisava levar a massa de mandioca seca para vovó fazer a farinha lá na fazenda e que iria mandar-me levar a cavalo.
Preparou dois sacos (50 kg), encheu-os da massa de mandioca já seca, amarrou os sacos e ajeitou-os na garupa da égua que estava já encilhada e pronta para me levar a fazenda da Mata. Se apressasse iria chegar lá antes do anoitecer, era uma boa caminhada, umas duas ou três léguas de distância (aproximadamente 15 km). Mas como ia carregado, a égua não era assim tão ligeira, precisava se apressar e papai logo despachou-me recomendando que eu fosse direto com medo que a chuva me pegasse no caminho.
Eu tinha apenas oito anos de idade mas sabia me virar e conhecia bem o caminho para a fazenda do vovô.
Após as recomendações de meus pais, tomei a bênção de papai e de mamãe e pulei na sela em meio a carga que iria transportar e segui meu caminho.
Passei pela fazenda da Beija, depois em frente a venda lá na beira da estrada do Porto e segui em direção ao Morro da Égua. Agora entrando numa trilha que cortava o morro em direção ao Morro da Onça, nenhuma casa, nenhum sítio ou fazenda a não ser depois, lá do outro lado ao terminar a descida do Morro havia sim um Sítio com uma casinha com um curral ao lado bem na beira da estrada, mas ia demorar a chegar lá.Enquanto caminhava lentamente no lombo da égua pelas trilhas daquele morro, ia sentindo os dois sacos pendurados na garupa cada qual querendo pender para um ou outro lado. Mas estava bem amarrados, não havia perigo de cair, pensava e aproveitava para olhar uma ou outra fazenda que se avistava ao longe podendo visualizar a silhueta esbranquiçada da sede com seus telhados vermelhos escuros. No caminho cruzava apenas com bandos de anús espalhafatosos e alguns gaviões em busca de presas em seus vôos rasantes. Lá em cima parece que São Pedro estava preparar alguma faxina bem pesada. As nuvens se aglomeravam e o céu começara a escurecer de repente. Isso não era bom sinal, a égua mostrava-se sinal de cansaço e não apressava os passos e eu começava a me preocupar pois não havia nenhuma casa ou abrigo a vista. E as chuvas de verão costumam ser fortes e com muitos raios e trovões por estas bandas. O que fazer ? Nada senão continuar o percurso, já estava começando a descida do Morro da Égua, voltar agora não dava mais, com um pouco mais de sorte chegaria ainda antes do anoitecer no mínimo na fazenda do tio Orosimbo, assim pensava eu.De repente um trovão esbravejou de tal modo fazendo um grande eco no vale lá em baixo na mata. Outros raios e trovões se sucederam, cada vez mais fortes e de repente veio a chuva que preencheu todos os cantos que minha vista alcançava. O que fazer ? Senti que os sacos de massa de mandioca seca já não eram mais secos e certamente o peso duplicaram no lombo do animal. Desci, tomei as rédias e a dianteira e num grande esforço continuei debaixo daquela chuva a puxar e conduzir a égua que antes me transportava. Ficar ali, debaixo daquela chuva, debaixo de árvores não era bom, havia muitos raios. Tinha que chegar naquele sítio lá em baixo e pedir auxílio!
A noite antecipou sua vinda, tudo ficou escuro mal podia ver a trilha a minha frente e cada vez mais eu me esforçava para puxar a égua que não estava mais suportando o peso, mas não podia fazer nada, eu nem agüentaria tirar de seu lombo aqueles sacos, cada um do meu tamanho e agora encharcados muito pesados. Conversava com a égua, pedindo-lhe calma e que colaborasse para que pudéssemos chegar num abrigo. Na medida do possível ela procurou entender-me e seguiu-me.
Já podia avistar uma fraca luz a cerca de uns mil metros, sabia que estava chegando no sítio lá na baixada, ufa que alívio!
Sai da trilha e rumei em direção daquele sítio, a luz de lamparina agora estava mais forte e podia ter a certeza de que havia alguém lá.
Abri a porteira do curral e levei minha égua para uma cobertura e dirigi-me a porta da sala e chamei: - Ó de casa? - Tem alguém ai?
- De casa?
- Oi, quem é?
- Nossa, marido tem um menino aqui todo molhado!
Fui logo dizendo a dona:
- Sou filho do Walter, neto da Anita e do João Dolores.
- Uai, entra menino, vamos trocar esta roupa molhada.
Nisto o marido foi lá no curral retirar os sacos e a sela do lombo da égua. A dona tratou de arrumar uma calça e camisa do marido, embora grande, vesti e me aqueceu depois de me secar com uma toalha que ela me deu.
Na casa só havia o casal, já era tarde e a dona tratou de arrumar a cama no quarto de hóspedes e disse para eu ir deitar e seguir viagem no dia seguinte eu agradeci e fui me recolher.
No dia seguinte, bem cedinho levantei, vi que o tempo havia melhorado, já não chovia mais e o sol estava para nascer. Tomei um gole de café com leite quentinho com uns biscoitos de polvilho. Logo agradeci a pousada, a acolhida e segui minha viagem, um pouco adiante passei pela casa do Osmar, um camarada do tio Orosimbo, logo depois passei pela fazenda do tio Orosimbo que já estava na lida lá pelo curral. Sem mesmo descer da égua tomei a benção e segui ao meu destino.Por volta das sete horas da manhã, ao cruzar o Morro da Onça o sol já brilhava no céu agora límpido ! Já podia avistar a fazenda da Mata. A fumaça branca saindo da chaminé denunciava já a Vó Anita em sua lida diária.
Chegando apeei de minha égua, antes mesmo de retirar-lhe a carga subi pelas escadas do alpendre lá da sala e fui direto a cozinha onde surpreendi minha vó que olhou espantada.
- Nossa menino, chegou cedo hein?
Mal sabia ela o que sucedera na noite anterior. Ai comecei a narrar o que aconteceu e onde busquei abrigo.
Ela confessou então que havia pensado em mim e achava que eu não viria devido ao mal tempo e ficou aliviada por ver me bem e a salvo.
Missão cumprida ! A tardezinha, depois de assegurar-me que o tempo não iria piorar retornei ao Morro Grande para não preocupar meus pais. Naquela época não havia como se comunicar, não havia telefone.
A volta foi tranqüila pelo bom tempo e pelo fato de agora não estar carregando nenhuma carga pesada. E para quem já cavalgou deve saber que o animal caminha melhor quando está retornando. Cheguei em casa antes do sol se por e encontrei meus pais ansiosos pois meu pai havia tido alguns pressentimentos na noite anterior e inclusive mamãe me contara que ele ouvira um grande ruído, um estrondo muito forte lá na encosta do morro e havia ficado muito preocupado comigo.
Contei tudo o que havia ocorrido e que apesar do susto, do frio e do medo consegui abrigo e depois seguir viagem com tranqüilidade.
Hoje, lembro destes fatos com saudade e até me orgulho de situações que enfrentei apesar da tenra idade naquela época.
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A VELHA PRAÇA


Na mesma praça que hoje abriga a Velha e a Nova Matriz brincou a geração de meu pai e a minha.
Durante a semana brincávamos afoitos na parte que ia da Velha Matriz a Caixa D'Água. Havia um parquinho público, com balanços, escorregadores, gangorras e gaiolas onde nos divertíamos muito. Brincava mais com meus primos, primas e alguns amiguinhos que encontrava quando estava na cidade.
Mas por ora vou me ater a apenas alguns fatos marcantes que fixaram em minha memória.
Quando nos preparávamos para ir para a cidade nos finais de semana minha vó falava:
- menino, pega umas laranjas, peras, maçãs para você vender na cidade e ganhar algum dinheiro para você comprar picolés, e ir ao cinema...
Seguindo a orientação de minha vó, preparava uma cesta com lindas frutas e colocava no Jipe.
Chegando a cidade ia (meio sem jeito) de casa em casa oferecendo as frutas que eu apanhara. Normalmente eu as vendia logo e arrecadava algum dinheiro para meu final de semana.
Certa vez após percorrer algumas casas, parei na praça para descansar um pouco e fiquei a olhar alguns garotos que brincavam quando um deles aproximou-se de mim e furtou uma maçã de minha cesta sem pagar saindo correndo.
Senti-me indefeso, pois ele era maior que eu e ainda estava acompanhado de outros colegas.
Olhei num banco da praça e vi um jovem fardado, sabia, era um soldado. Corri em sua direção e falei do ocorrido. Mostrei o garoto que ainda comia a maçã furtada.
_ menino, não sou daqui, nada posso fazer - respondeu-me o jovem soldado com ar de desinteresse.
Desapontado, fui para casa levando o restante das frutas interrompendo a venda.
Ah da Velha Matriz muitas lembranças das Semana Santas, das Procissões, do Catecismo, dos padres holandeses...
Quando entrava com meus pais nas festas em que as crianças se vestiam de anjos, eu... passando diante da escadaria, na lateral interna da igreja, olhava aquelas criaturas...imaginava que fosse realmente anjos em carne e osso... só alguns anos mais tarde eu percebi que se tratava de crianças vestidas de anjos prontas para uma representação.
O casamento da Tia Gabriela foi marcante, aquela festa toda... depois a entrada dos noivos naquele carro preto, brilhando... era acho que o primeiro casamento que eu assistia, fiquei maravilhado!
Em 1954, na tarde de 24 de agosto... estava eu, minha mãe e minha avó passando diante da Velha Matriz, quando a tia Ritinha, (cunhada da minha Avó) interrompeu nossa caminhada chamando:
- (tia Ritinha) Anita ! Olha, deu no rádio agora mataram Getúlio Vargas.
- (vó Anita) Nossa, como foi isso?
- (mamãe) Nossa, meu Deus!
- (tia Ritinha) é... ainda não sabem como tudo aconteceu, acabaram de encontrá-lo morto com um tiro.
24 de agosto de 1954 (morte de Getúlio Vargas)
Eu, com meus quatro anos de idade ... tive uma verdadeira reviravolta em minha cabeça e o medo tomou conta de meus pensamentos.
Eu não sabia, não entendia bem... pensava que o crime havia sido cometido ali mesmo na cidade, dai o medo que tomou conta de mim naquela tarde e a imaginação tomou asas...
Mas o tempo passou... mais tarde entendi aquele momento na Praça quando soube da morte de Getúlio Vargas.
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Creio que do Planalto que abriga esta grande área verde onde se localiza a Velha e a Nova Matriz é que se originou o nome da cidade, quando a senhora portuguesa, chamada Catarina Parreira chegou exclamou:- Ah que campos belos !!!Dai veio mais tarde o nome de Campo Belo.Se quiser saber um pouco da história pode ver documento sobre a Origem de Campo Belo segundo o estoriador Edson Ribeiro.

O MENINO E A JANGADA


Quando menino com tronco de bananeira
unidos por uma taquara fazia uma jangada
e com ela deslizava pelo córrego represado
que passava ao lado da sede da fazenda.

As águas límpidas vindas de uma nascente acima
uma parte d'agua fora desviada do caminho da cachoeira
que despejava suas águas no vale ao fundo do pomar.
um córrego de águas claras foi direcionado ao fundo da casa

Ao lado da cozinha e da entrada do pomar foi represado
para atender às necessidades da sede da fazenda para
alimentar o carneiro para abastecer a caixa d' água,
mover o moinho e o gerador de eletricidade lá no vale abaixo.

Como a água não não era tão abundante utilizada se comportas
para conforme necessidade utilizar a água represada aí depois
seguia seu curso saltando obstáculos e automaticamente servindo
ao tanque de lavagem da mandioca, ao monjolo trabalhador incansável!

Antes de juntar se novamente a sua metade lá na grota seguia
seu curso pelo abaixo do velho paiol saciando os animais
no mangueiro e seguia serpenteando entre a horta e plantações
assim a água cumpria sua função vital e esplendor no dia a dia.

Hoje o menino lá voltou e triste viu ... a água agora escorre timidamente ...
por entre o matagal que acabou com o pomar e avançou pelos arredores
resta ainda de pé a sede que ainda resiste ao tempo ...cercada de mato
outrora era só alegria e movimentação mantinha o estilo colonial da época.

Em lugar dos cafezais, das plantações de arroz e do curral
da movimentação do gado leiteiro, do velho carro de boi...
O que se vê são lotes de pastagens com gado confinado
com ar de tristeza espera a hora de ir para serem abatidos.

O João de barro já não tem mais a sua morada no velho ipê.
A porteira ao lado da frondosa árvore nem sinal deixou...
As portas e janelas corroídas pelo tempo ainda resiste ao tempo.
Até o morro da onça não se vê mais, um muro eucaliptais o esconde!

O menino da jangada que foi para a cidade grande, ia ser padre mas desistiu...
tornou se professor, casou...casou... e re-casou-se ...e para seus filhos
sua estória conta... mas sua jangada nunca mais singrou por aquele córrego,
mas muitas aventuras e estórias ainda contando para seus amigos.

Daquela casa e lugar, além de boas e muitas lembranças ainda guarda
em fotos e memórias ... e dos porões que ainda encarcera segredos
e fantasmas solitários ...sua chave recebeu do primo de recordação...
e do alicerce secular um tijolo trouxe de sua visita, pra se guardar de lembrança!

Príncipe Estelar
Fevereiro-2019 e.v.

Obs. Singrar = velejar, remar, escorregar sobre água.
Carneiro = máquina de elevar água .
Nota:
Quase três décadas depois o menino retorna à fazenda onde passou sua infância e parte da adolescência.
A fazenda foi vendida pelos herdeiros logo depois da morte dos avós materno.
O córrego represado se perdeu no matagal e onde havia o represamento e as comportas não existe mais nem vestígios.
O monjolo e seu barracão de madeira também foi abaixo assim como o paiol e o curral não deixou marcas.
Nada mais há a não ser o casarão fechado com as portas e janelas em deterioração as portas dos dois porões estão apenas encostadas e escoaradas. Uma das chaves, a que guardo hoje comigo foi esquecida por lá., ainda estava na fechadura.
Do pomar nada mais existe, três alqueires coberto por mato.
Algumas mangueiras ainda estão de pé além de alguns coqueiros pelo nos um secular.
Das muralhas de pedra construídas por escravos foram tombadas não existindo senão pedras sobre pedras. Assim como as valas que até década de 50 ainda existia como obstáculos para animais se foi no tempo e no meio ao matagal

Vivências Sutis

Meus pais moravam em São Paulo, mas minha mãe voltou para Campo Belo, MG, cidade natal, quando eu estava para nascer. Depois de certo tempo, passado toda aquela euforia do primeiro filho, do primeiro neto, o segundo sobrinho. Mamãe já estava mais acostumada com a nova situação de mãe, voltou para São Paulo, onde meu pai trabalhava. Voltávamos a casa dos avós sempre no fim de ano. Lembro-me que viajávamos por dois dias, pernoitávamos em Cruzeiro, SP para seguir viagem no dia seguinte. Era apenas um neném, mas lembro-me do local onde ficávamos, parece que era um hotel popular, pois o cheiro do banheiro era sensível. Durante a cansativa viagem de trem, a Maria Fumaça eu lembro perfeitamente das fagulhas que saiam da chaminé da locomotiva e entrava pela janela daquele vagão de madeira. Mas ficava bem curioso de observar tudo, paisagem, movimentação de pessoas... Lembro-me numa dessas viagens, parece que foi numa das voltas a São Paulo, encantei com uma menininha mais velha que eu que me fazia rir muito com suas gracinhas. Antes de completar dois aninhos, lembro-me que meu pai resolveu mudar de vez para Minas e confesso fiquei muito feliz. Chegamos em Minas - meu avô já havia vendido aquela casa em que eu nascera, por isso ficávamos, na cidade, na maioria das vezes na casa da tia Dolores, ora na casa da Mãe Vó (a minha bisavó materna). Morávamos mesmo com meus avós maternos na fazenda que não sei o nome, pois lá ficamos pouco tempo, logo meu avô comprou outra fazenda que foi de meu bisavô um pouco mais adiante, e bem maior. A Fazenda São João, e a anterior só me lembro de sempre se referirem a ela como a Fazenda do Eurico, lembro sim de lá, da casa, dos cômodos, que eram um pouco escuros, acho que por causa das árvores frondosas que haviam em volta da sede e por isso entrava pouca luz nos cômodos. Recordo-me do açude que tia Gabriela nadava e me levava sempre e lembro-me da casinha onde a Jane, o Tonho e outras crianças maiores brincavam de casinha com a tia Gabriela; era no meio do pomar rodeada de laranjeiras. Há muitas passagens na lembrança desta fazenda, que serão narradas em outras narrativas. A mudança aconteceu de repente, fui dar conta no dia em que meu avô chegou comigo no colo, e diante daquele casarão enorme, olhando e mostrando-me aquelas janelas enormes disse: - " filho isso aqui um dia será tudo seu! " Não entendi as palavras naquela hora, entendi que era ali que iria viver. Os primeiros dias eu chegava a me perder naquela casa, no corredor, nos cômodos e aos poucos fui me acostumando e adorando aquela fazenda. Tudo era muito alegre, muito movimento e uma vista que não havia na outra casa. Os empregados, o velho Alexandre, a Mariana, a Dorva, o Izé, todos vieram se juntar a outros que já trabalhavam na fazenda. Com essas pessoas conhecidas e familiares tornou minha adaptação mais fácil e aproveitei os anos que seguiram até seguirmos para o sitio no Morro Grande. Dos dois aos 9 anos com freqüência experimentei algo que eu mal conseguia entender e jamais comentar com quem quer que fosse! Sabia que jamais acreditariam em mim! Passei boa parte de minha infância no campo, na fazenda de meus avós, na Mata da Caatinga, município de Campo Belo e em nosso sítio do Morro Grande, no distrito de Porto dos Mendes próximo às margens do velho Rio Grande. Não possuía amigos da minha idade, crianças além dos irmãos menores e os primos que encontrava na cidade nas épocas de festas como Semana Santa, Páscoa, Natal e em outros encontros familiares. Passava maior parte de meu tempo nos arredores da fazenda, ou do nosso sítio, caminhando por ali e por acolá. Sempre que podia me juntava aos mais velhos para ouvir as estórias dos antigos! Costumava sentar-me ao pé de um frondoso Ipê amarelo que ficava na porteira em frente a sede, ou me retirava para uma laje de pedra bruta que ficava no alto de uma serra, de onde contemplava todos arredores. Muitas vezes, me vi numa situação fora de meu controle. Não sei como, saia voando sobre a sede, o pomar, os cafezais, e meio sem saber... e sem entender como ... eu aproveitava aqueles instantes, sentindo-me deslizar suavemente pelo ar como os pássaros. Era uma sensação maravilhosa, confesso... mas assustadora! Eu sabia não ser uma habilidade normal e passível de entendimento e compreensão. Por isso jamais compartilhei com ninguém tais experiências! Confesso, não era uma situação totalmente sobre meu controle, não acontecia sempre quando eu queria, as vezes me deparava com a situação quando menos esperava, mas aprendi logo a aproveitar esses momentos, pois eu sabia de algum modo não eram comuns. Sentia deslizar pelo ar, vendo de cima aquela pastagem verde sob meus olhos, o gado espalhado pela colina parecia ser pequenas peças de brinquedo, tinha uma visão de todo o pomar matizado de pontos amarelos, dos frutos, entre as diversas tonalidades de verde. Observava serpenteando sob as árvores atravessando o fundo da fazenda o córrego que abastecia a casa sede e a dos empregados. Mas eu não ousava sair das imediações... era uma situação fantástica mas um tanto aterrorizante pois não tinha o controle total que com certeza os pássaros possuem. Só me lembro que com um simples esforço de meus braços e pernas esticadas eu conseguia subir, descer e mudar de direção. Mas de repente, as coisas foram mudando, meus pais começaram a se preocupar com o meu crescimento, a necessidade de mandar-me para a escola, e de uma hora para outra descobri que estávamos para mudar para São Paulo. Era uma grande mudança, mas sabia que ia poder freqüentar escolas e tantas outras coisa que eu já arquitetava em meus sonhos... Sabia que de certo modo que eu deixaria o meu mundo para trás e sabia que isso não seria fácil.O tempo foi passando, cresci, amadureci, e nas minhas leituras e busca de conhecimento aprendi um pouco sobre xamanismo, os estados alterados de consciência, as experiências fora do corpo, e as outras dimensões... Depois de muito tempo, há alguns anos atrás pude reviver tal emoção de “voar” saindo de meu corpo conscientemente, como na infância, porém com uma duração menor, não consegui ir muito longe e retornei. Jamais declarei tal experiência, somente agora revelo tais registros antes trancados em minha memória. Atualmente, essa é uma experiência de sair do corpo pode ser vivenciada conscientemente. Apesar de ser sabido que todos nós, durante o sono, costumamos sair do corpo e visitar outros lugares inconscientemente. Porém é raro nos lembrar disso a não ser, às vezes, como um sonho que tivemos. Atualmente há profissionais que utilizam técnicas que ajudam as pessoas a vivenciar experiência assim conscientemente.
Sou um viajante do tempo, em busca de meus sonhos; na minha caminhada costumo ser alegre... rio, choro, me emociono com o olhar de uma criança, com o brilho do sol, da lua; o cantar dos pássaros. Sou um simples mortal que acredita na imortalidade da essência do Ser, do espírito . . As coisas que eu gosto? ... são as mais simples que existem. Gosto de ver o sol nascer, se por... ver a lua bailar no infinito espaço, e as estrelas enfeitando o manto negro e majestoso da noite... (e só de pensar que viemos e iremos ainda para alguma delas, chega a dar saudade ... !) Ver o rio correr tranqüilo seguindo seu curso sem reclamar, ouvir o sussurro do vento, o som dos pardais ao entardecer, o sorriso de uma criança, a sensualidade feminina, e tantas outras coisas mais que nos rodeiam!Como eu vejo as pessoas? ... Vejo as todas companheiras de viagem, indo em busca de algo; são viajantes das mais diferentes origens, oriundas de algum lugar do Universo e na maioria das vezes perdidas sem saber para onde irão e o que buscam ! Isto é triste! Sonhos ? ... sou um eterno sonhador ! " Sei, que n'algum lugar, muito além dos horizontes... nossos sonhos realmente acontecem! " Vou-me embora para PASARGADA , sonho de todo poeta, ir se embora para Pasárgada,..... Sinto-me privilegiado possuidor das chaves deste lugar, entretanto, sei que nada vale a pena se não for fruto de nosso próprio esforço... Do que adianta ser amigo do rei, ter tudo que se imagina e não ser feliz ? Prefiro seguir meu caminho, colhendo todas as pedras que encontro na estrada e utiliza-las para meu caminhar. Quem quiser ... acompanhe-me e caminhemos juntos!
Diones
Esse escrito me fez lembrar a minha amada! Gostei muito. Parabéns...
05/novembro/2018

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