Escritas

Lista de Poemas

A Concha

A Concha

A minha casa é concha.Como os bichos

Segreguei-a de mim com paciência:

Fachada de marés,a sonhos e lixos,

O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.

O orgulho carregado de inocência

Se às vezes dá uma varanda,vence-a

O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro,e escadarias

Frágeis,cobertas de hera,on bronze falso!

Lareira aberta ao vento,as salas frias.

A minha casa...Mas é outra história:

Sou eu ao vento e à chuva,aqui descalço,

Sentado numa pedra de memória.

de O Bicho Harmonioso

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Morte Pensada

Experimentei a Morte na cabeça

(No coração,só se ele parasse).

Mas,por mais que a conheça,

Não se pensa a Morte:dá-se.

Que a morte não é ser,sendo ela tudo,

Nem pessoa será,que tantas leva:

É um lá ou além,último som agudo

A que não chega a voz de vivo.Nem

Chove ou neva

Onde campa é a terra de ninguém.
Não morremos sequer:matamos a alma

Enternecida pelo corpo terno.

E ela lá vai,sua alma sua palma,

Que nem morre no Inferno.

de Sapateia Açoriana E Mais
Poemas

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A Árvore do silêncio

Se a nossa voz crescesse,onde era a árvore?

Em que pontas,a corola do silêncio?

Coração já cansado,és a raiz:

Uma ave te passe a outro páis.

Coisas de terra são palavra.

Semeia o que calou.

Não faz sentido quem lavra

Se o não colhe do que amou.

Assim,sílaba e folha,porque não

Num só ramo levá-las

com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?!)

de Canto De Véspera

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Versos a uma cabrinha que eu tive

Com seu focinho húmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.

Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.

Sua pelerina escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.

De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberes cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.

Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.

E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocado,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo 
Equilibrado.

 

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A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

(Poesia, 1935-1940)

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A concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

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Requiescat

Direi, pela noite, não ódio que tivesse
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.

Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.

15 de junho de 1971

(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)

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De Rembrandt a Van Gogh a tinta és tu

Em rosa de bateira e sol de vinho.

O tempo fez-se-me fome,

Mas levantas os braços-e é o moinho.

Como a corça na Haia plo rebento

E a ponte levadiça,

Vais em maneira,amor e movimento,

Vela da tarde,dique do meu sangue:

Afinal só um pouco de mulher

Que a palavra detém e´águas cultivam.

Graça do vento em céus inesperados,

Gaivota és para mim que nasci delas;

No milagre de sermos encontrados

Já de Amesterdão são nossas as janelas.

Taça a taça trocámos anéis áureos

De vinho português sobre holandilha:

Quem via-como saber

Se era braço de noivo ou mão de filha?

Mas sempre tinta à tarde!Eras a Lua

Que em foice adestra os calmos céus dos pólderes:

Eu ceifava a manhã nos teus cabelos,

Contava-os um a um,canal abaixo,

E,deitado nos verbos que te evocam,

Feliz com um pintor que vende pouco,

Era holandês por ti...

Que,bem pensando,

O que eu cá sou,céus de Van gogh,é louco!

de O Andamento
Holandês

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O recorte de um cão,na areia,ao luar,

Seu passo imprime

O cuidado miúdo e honesto de passar.

Mas que tristeza oprime

Tanto cão que vai uivar a tanta eira?

Que longo e liso,o fio da noite!

-E amar,esperar desta maneira!

Numa cidade deserta

(Talvez outra,ou Nínive)

Encontrei um anel,uma oferta,

Da vértebra de um cão,

Para uma mulher que já não vive.

Mas tudo isso foi em vão,

E até nem sei se esse osso tive.

de Eu,Comovido A
Oeste

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Regresso

Ao coronel Sacadura

Cavalo e cavaleiro o vento adornam

Com uma pata e uma pluma;

À tarde unidos tornam,

Um estame de sangue numa rosa de espuma.

Tanta pressa,para coisa nenhuma.

de O Cavalo Encantado

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Ania
Ania
2024-06-01

ania_lepp