Escritas

Lista de Poemas

No que se conquista há

No que se conquista há que descontar o que se sofre para conquistar. E o saldo é normalmente negativo.
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É curioso. Cheguei já a

É curioso. Cheguei já a uma idade em que a deferência dos outros não sei se é por aquilo que realizei, se pelos anos que tenho.
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Há em nós um segredo

Há em nós um segredo que nós mesmos não sabemos. Mas é bom isso. Porque sabê-lo era decerto perder a alma.
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Uma verdade que se aceita

Uma verdade que se aceita começa logo a morrer. Ou seja, a ser erro. É a altura de outro erro começar a nascer. Ou seja, a ser verdade.
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O mais importante não é

O mais importante não é ter inteligência, mas aquilo a que se há-de aplicar. Simplesmente para isso também ela é precisa.
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O amor é um sentimento,

O amor é um sentimento, ou seja uma coisa espiritual. Mas sem a parte material em ordem, ele não funciona. Como não funciona um aroma, sem o que for aromático.
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A grande fraqueza da razão:

A grande fraqueza da razão: ser incapaz de demonstrar a sua excelência. A grande força da razão: termos de servir-nos dela para demonstrar isso mesmo.
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O amor existe pelo que

O amor existe pelo que não existe. Porque há-de existir a pessoa que se ama?
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Para ajuizar do que é

Para ajuizar do que é inferior é preciso ser-se superior. É por isso que um imbecil facilmente se julga um génio.
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Porquê? Para quê? Economiza os

Porquê? Para quê? Economiza os teus «porquê» e «para quê». Ou utiliza-os só até onde houver resposta. Porque a última resposta a eles é o impossível e o vazio. Ou então terás de mudar de universo. E estás cá tão bem...
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Comentários (2)

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Jose Manuel Coelho
Jose Manuel Coelho
2024-05-19

Depois de escrever o texto acima, acerca da amizade que uniu o meu pai e VF fui ver a sua biografia e li que ele veio para Lisboa em 1959 para lecionar no Liceu Camões. Como eu nasci em 53 teria seis anos nessa altura e como escrevi antes as memórias das visitas a casa de VF são muito difusas devido à minha tenra idade e, sim foi por essa altura que deixámos de ir visitá-lo. Logo a seguir, dois anos depois, o meu pai foi para Angola, em Março de 61, no primeiro contingente de militares mobilizado para essa guerra sem sentido que deixou marcas profundas naquilo que até hoje sou. Nessa altura não "existia" o stress pós-traumático que deixou marcas profundas no meu pai, não só por integrado a primeira companhia a chegar a Nambuangongo e deparar-se com cabeças espetadas em estacas ao longo das "picadas" e por toda essa zona dos Dembos. Treze anos depois foi a minha vez, por isso desertei do Exército Português e fui-me juntar aos guerrilheiros do MPLA. Sorte a minha foi, passado meia dúzia de meses, acontecido o 25 de Abril.

Jose Manuel Coelho
Jose Manuel Coelho
2024-05-19

Não me atrevo a comentar a obra literária de Virgílio Ferreira porque foi por mero acaso que me deparei com esta página de &Escritas.org e esse acaso recordou-me o homem. Hoje tenho 71 anos e recordei-me de na minha infância, aos cinco, seis anos, ter acompanhado os meus pais a casa de um senhor que disse-me, mais tarde, que aquele senhor era um escritor, uma pessoa muito culta e com quem ele gostava de conversar. Lembro-me por isso de ter ido a casa de VF várias vezes e de outras vezes ele ir à nossa casa jantar e conversar. Morávamos na mesma rua, a Rua da Esperança nas Caldas da Rainha. As nossas casas não eram separadas por mais de cinquenta metros. O meu pai era militar de carreira e esse Senhor, que eu me lembre, era das poucas pessoas que ia lá a casa. O meu pai morreu há dez anos mas o VF morreu muito antes. Foi a minha mãe que um dia me deu a notícia do seu passamento.