Escritas

Lista de Poemas

Mesmo

Somos ambos o mesmo:
Linhas de um mesmo desenho,
Sombras de um mesmo desejo,
Paisagens de luzes violentas
Que um mesmo sol ilumina.

Deixamos igual rastro sobre a neve
E quando a luz da noite nos concede
Alguma música, algum espanto,
Choram nossos olhos igual lágrima.

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Helenismo

Não sei por onde vou, por onde passo.
Caminho pelo tempo como um cego
E aquilo que mais quero já renego
Num ceticismo cheio de cansaço.

Sou livre: não mantenho nenhum laço
Além do que me prende ao mesmo ego.
E não tem porto o mar onde navego
Seguindo rotas que por sonhos traço.

Nem sei se é morte a vida ou vida a morte:
A realidade é um vinho muito forte
Que me entontece e deixa adormecido.

Por isso eu amo a Lua e o seu perfume
E sigo sendo o tal bípede implume
Que descreveu um grego falecido.

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Amnésia

Perdi toda memória do presente.
Não sei quem sou, nem sei por onde mora
A mente que seguia vida afora
Contando para mim o que se sente.

Fugi de toda rua. Estou ausente
De mim, daqui e deste tempo agora.
Meu corpo disse adeus e foi-se embora
Deixando-me um soneto tão somente.

Recordo-me de mim: eu era louco,
Não costumava rir, falava pouco,
Mas foge-me o momento e o endereço.

E como não me lembro o que isso fosse,
Habito este papel, em que eu me trouxe
A mim, num me lembrar que logo esqueço.

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Julgamos perdoar, mas isso não

Julgamos perdoar, mas isso não passa de fraqueza.
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A estupidez tem de terrível

A estupidez tem de terrível o poder assemelhar-se à mais profunda das sabedorias.
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O dever, eis o nome

O dever, eis o nome que a burguesia tinha dado à sua cobardia moral.
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A arte é ainda a

A arte é ainda a única forma suportável da vida; é o maior prazer, e o que se esgota menos depressa.
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As aventuras amorosas começam no

As aventuras amorosas começam no champanhe e terminam na camomila.
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Mise au Point

Deixou teu gesto ali
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.

E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.

Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.

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Noite de Verão

As horas, uma a uma, tempo adentro,
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.

O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.

Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas

Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.

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