Escritas

Lista de Poemas

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim
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Agora não se fala mais

Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início:


Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.


Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:


só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo:


não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento



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Lua Nova

é lua nova
é noite derradeira
vou passar a vida inteira
esperando por você

andei perdido
nas veredas da saudade
veio o dia, veio a tarde
veio a noite e me cobriu
é lua nova
nesta noite derradeira
vou-me embora dentro dela
perguntar por quem te viu

é lua nova
é noite derradeira
vou passar a vida inteira
esperando por você

essa noite é que é meu dia
essa lua é quem me guia
e você é meu amor
vou pela estrada tão comprida
quem me diz não ser perdida
essa viagem em que eu vou

é lua nova
é noite derradeira
vou passar a vida inteira
esperando por você.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Edu Lob
👁️ 2 611

Coisa Mais Linda que Existe

coisa linda nesse mundo
é sair por um segundo
e te encontrar por aí
pra fazer festa ou comício
com você perto de mim
na cidade em que me perco
na praça em que me resolvo
na noite da noite escura
é lindo ter junto ao corpo
ternura de um corpo manso
na noite da noite escura
a coisa mais linda que existe
é ter você perto de mim
o apartamento, o jornal
o pensamento, a navalha
a sorte que o vento espalha
essa alegria, o perigo
eu quero tudo contigo
com você perto de mim
coisa linda nesse mundo
é sair por um segundo
e te encontrar por aí
e ficar sem compromisso
pra fazer festa ou comício
com você perto de mim
a coisa mais linda que existe
é ter você perto de mim


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
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Let’s Play That

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
👁️ 4 111

Literato cantabile

agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:


a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.



21-10

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Louvação

Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior:
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que, pra melhor esperar,
Procede bem quem não pára
De sempre, mais, trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.

Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem 'tiver me escutando, atenção, atenção,
Que me escute com cuidado,
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é:
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na Terra,
Louvo o amor que espanta a guerra,
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.

Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção,
Falo de peito lavado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera,
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar,
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.

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In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
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Pra Dizer Adeus

adeus
vou pra não voltar
e onde quer que eu vá
sei que vou sozinho
tão sozinho amor
nem é bom pensar
que eu não volto mais
desse meu caminho

ah,
pena eu não saber
como te contar
que o amor foi tanto
e no entanto eu queria dizer
vem
eu só sei dizer
vem
nem que seja só
pra dizer adeus.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Edu Lob
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A Rua

toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba

de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas

atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão

de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão

ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu

ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
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Geléia Geral

um poeta desfolha a bandeira
e a manhã tropical se inicia
resplandente cadente fagueira
num calor girassol com alegria
na geléia geral brasileira
que o jornal do brasil anuncia

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

"a alegria é a prova dos nove"
e a tristeza é teu porto seguro
minha terra é onde o sol é mais limpo
e mangueira é onde o samba é mais puro
tumbadora na selva-selvagem
pindorama, país do futuro

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mê que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

é a mesma dança na sala
no canecão na TV
e quem não dança não fala
assiste a tudo e se cala
não vê no meio da sala
as relíquias do brasil:
doce mulata malvada
um elepê da sinatra
maracujá mês de abril
santo barroco baiano
superpoder de paisano
formiplac e céu de anil
três destaques da portela

carne seca na janela
alguém que chora por mim
um carnaval de verdade
hospitaleira amizade
brutalidade jardim

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

plurialva contente e brejeira
miss linda brasil diz bom dia
e outra moça também carolina
da janela examina a folia
salve o lindo pendão dos seus olhos
e a saúde que o olhar irradia

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

um poeta desfolha a bandeira
e eu me sinto melhor colorido
pego um jato viajo arrebento
como roteiro do sexto sentido
foz do morro, pilão de concreto
tropicália, bananas ao vento

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança meu boi

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In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
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Comentários (2)

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Talyta
Talyta
2020-05-01

Lindos os poemas do Torquato Neto eu adorei

Aloísio
Aloísio
2018-11-01

Grande POETA Torquato Neto. Grande MÚSICO Gilberto Gil Atual até hoje.