Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga

1744–1810 · viveu 65 anos PT PT

Tomás Antônio Gonzaga foi um poeta e jurista luso-brasileiro, figura proeminente do Arcadismo no Brasil. Sua obra mais célebre, "Marília de Dirceu", é um marco na poesia lírica brasileira, explorando temas de amor, saudade e a vida pastoril com grande sensibilidade. Marcado pelas experiências da Inconfidência Mineira, que o levaram ao exílio, Gonzaga produziu uma poesia que reflete tanto a idealização do amor quanto as agruras da vida e a crítica social, tornando-se um dos grandes nomes da literatura brasileira pré-modernista.

n. 1744-08-11, Freguesia de Miragaia · m. 1810, Ilha de Moçambique

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Lira XXI

(...)

Saio da minha cabana
sem reparar no que faço;
busco o sítio aonde moras,
suspendo defronte o passo.
Fito os olhos na janela;
aonde, Marília bela,
tu chegas ao fim do dia;
se alguém passa e te saúda,
bem que seja cortesia,
se acende na face a cor.
Que efeitos são os que sinto?
Serão efeitos de Amor?

Se estou, Marília, contigo,
não tenho um leve cuidado;
nem me lembra se são horas
de levar à fonte o gado.
Se vivo de ti distante,
ao minuto, ao breve instante
finge um dia o meu desgosto;
jamais, Pastora, te vejo
que em teu semblante composto
não veja graça maior.
Que efeitos são os que sinto?
Serão efeitos de Amor?

Ando já com o juízo,
Marília, tão perturbado,
que no mesmo aberto sulco
meto de novo o arado.
Aqui no centeio pego,
noutra parte em vão o sego;
se alguém comigo conversa,
ou não respondo, ou respondo
noutra coisa tão diversa,
que nexo não tem menor.
Que efeitos são os que sinto?
Serão efeitos de Amor?

Se geme o bufo agoureiro,
só Marília me desvela,
enche-se o peito de mágoa,
e não sei a causa dela.


Publicado no livro Marília de Dirceu: Parte I (1792).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
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Poemas

14

LIRA I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos e dos sóis queimado;
Tenho própio casal e nele assisto;
Dá-me fruta, legume, vinho, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite
E mais a fina lã, de que me visto,
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado;
Com tal destreza toco a sanfoninha
Que inveja até me tem o próprio Alceste;
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra que não seja minha.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!

Mas tendo tantos dotes de ventura,
Só apreço lhes dou, gentil pastora,
Depois que o teu afeto me assegura,
Que queres do que tenho ser senhora;
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho que cubra monte e prado;
Porém, gentil pastora, o teu agrado
Vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!

3 483

Lira XXIII

Não praguejes, Marília, não praguejes
a justiceira mão que lança os ferros;
não traz debalde a vingadora espada;
deve punir os erros.

Virtudes de Juiz, virtudes de homem
as mãos se deram e em seu peito moram.
Manda prender ao Réu, austera a boca,
porém seus olhos choram.

Se à inocência denigre a vil calúnia,
que culpa aquele tem, que aplica a pena?
Não é o Julgador, é o processo
e a lei, quem nos condena.

Só no Averno os Juízes não recebem
acusação nem prova de outro humano;
aqui todos confessam suas culpas,
não pode haver engano.

(...)


Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
4 310

Lira XV

Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,
fui honrado Pastor da tua Aldeia;
vestia finas lãs e tinha sempre
a minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal e o manso gado,
nem tenho, a que me encoste, um só cajado.

Para ter que te dar, é que eu queria
de mor rebanho ainda ser o dono;
prezava o teu semblante, os teus cabelos
ainda muito mais que um grande Trono.
Agora que te oferte já não vejo,
além de um puro amor, de um são desejo.

(...)

Propunha-me dormir no teu regaço
as quentes horas da comprida sesta,
escrever teus louvores nos olmeiros,
toucar-te de papoilas na floresta.
Julgou o justo Céu que não convinha
que a tanto grau subisse a glória minha.

Ah! minha bela, se a fortuna volta,
se o bem, que já perdi, alcanço e provo,
por essas brancas mãos, por essas faces
te juro renascer um homem novo,
romper a nuvem que os meus olhos cerra,
amar no céu a Jove e a ti na terra!

Fiadas comprarei as ovelhinhas,
que pagarei dos poucos do meu ganho;
e dentro em pouco tempo nos veremos
senhores outra vez de um bom rebanho.
Para o contágio lhe não dar, sobeja
que as afague Marília, ou só que as veja.

Se não tivermos lãs e peles finas,
podem mui bem cobrir as carnes nossas
as peles dos cordeiros mal curtidas,
e os panos feitos com as lãs mais grossas.
Mas ao menos será o teu vestido
por mãos de amor, por minhas mãos cosido.

Nós iremos pescar na quente sesta
com canas e com cestos os peixinhos;
nós iremos caçar nas manhãs frias
com a vara enviscada os passarinhos.
Para nos divertir faremos quanto
reputa o varão sábio, honesto e santo.

Nas noites de serão nos sentaremos
c'os filhos, se os tivermos, à fogueira:
entre as falsas histórias, que contares,
lhes contarás a minha, verdadeira:
Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pela rua,
nos mostrarão c'o dedo os mais Pastores,
dizendo uns para os outros: — Olha os nossos
exemplos da desgraça e sãos amores.
Contentes viveremos desta sorte,
até que chegue a um dos dois a morte.

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Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
6 520

Lira IV

Já, já me vai, Marília, branquejando
loiro cabelo, que circula a testa;
este mesmo, que alveja, vai caindo,
e pouco já me resta.

As faces vão perdendo as vivas cores,
e vão-se sobre os ossos enrugando,
vai fugindo a viveza dos meus olhos;
tudo se vai mudando.

Se quero levantar-me, as costas vergam;
as forças dos meus membros já se gastam;
vou a dar pela casa uns curtos passos,
pesam-me os pés e arrastam.

Se algum dia me vires desta sorte,
vê que assim me não pôs a mão dos anos:
os trabalhos, Marília, os sentimentos
fazem os mesmos danos.

Mal te vir, me dará em poucos dias
a minha mocidade o doce gosto;
verás brunir-se a pele, o corpo encher-se,
voltar a cor ao rosto.

No calmoso Verão as plantas secam;
na Primavera, que aos mortais encanta,
apenas cai do Céu o fresco orvalho,
verdeja logo a planta.

A doença deforma a quem padece;
mas logo que a doença faz seu termo,
torna, Marília, a ser quem era d'antes
o definhado enfermo.

(...)


Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
4 347

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