Biografia
Lista de Poemas
OS IPÊS DA CIDADE
Em Campinas imagem magistral,
Agasalhados habitantes arfam:
‘Frialdade deixe-nos em paz’;
As cores às ruas enfeitam agora,
Assim enfadonha frieza triste
Vai-se embora em setembro. Paciente
O ipê rosa do seco desabrocha;
Com delicadas pétalas surgiu,
Com força enfrentou o rigor do frio
Pra nos oferecer lindos buquês,
Dar o tom na clave da primavera,
Orquestrar antes desta ocasião
Melodias da bela estação.
Geração refrigereco
Avisem-no que os anos oitenta por aqui acabou,
Avisem que o rock morreu e a liberdade mudou.
Informem-no que a repressão agora está travestida
De amor e agora controlando sua vida.
Deixem-no saber que colaborou para o aumento do mau
Em sua insistência na vida investiu muito mal.
Olhem-no de soslaio: o seu sonho ruiu,
De sua luta vencida acabou no covil.
Carregou os pertences de seu tirano eterno
Bajulou o carcereiro do presente flagelo.
Tentou aparecer como um homem notável
Gastou mundos e fundos em saco não retornável.
Perseguiu os prazeres dos momentos sidéreos
Acordou no palheiro das cinzas do cemitério.
Ele olhou para trás, viu os escombros da vida
Quando olhou para frente viu-a assim esvaída.
Dos incautos amores saboreou o que pôde
Inauditos louvores tiraram-no do controle.
Hoje soberbo e cansado grita ao mundo o profundo
Saber dos antigos soldados vagabundos imundos.
Não venceu sua guerra ela mudou de lugar
Hoje come no prato que cuspiu no jantar.
Olhem-no por debaixo do lençol empoeirado
Escondendo a sujeira do desequilíbrio passado.
Deixem-no ali quieto como relíquia esquecida
Com poeira na prateleira da verdade banida.
Informem-no que acabou: o inimigo venceu
Sua razão passageira ao vento se escafedeu.
Avisem-no que a luz deve apagar ao sair
A escuridão de suas ideias não deve mais transmitir.
Lagoa do Taquaral
Alegria e melancolia,
infância e terceira idade,
um homem com uma mulher,
um esperto e um pobre “mané”
aos sons vários da tarde.
Um violino, um piano
e as águas da saudade.
Tão bem e tão raso e tão claro
o sol em nuvens esparsas
aquecem-nos os seus raios
inflamam toda a paisagem.
Nem tão perto, nem tão quieto,
sabores sem vaidades.
Lá eles estão
brincando, sorrindo e dançando
ao delicado tom
da mocidade calma;
no espelho da Lagoa,
no crepúscul do fim de tarde.
o amor, o sabor, a saudade.
A sesta
Numa tarde calma de frescor a gente
deita sobre lençóis do amor
E cada um serzinho, o carinho ingente,
entre nós deita ao cobertor.
Sopra o vento, baixo o trinco, fecho a janela,
o ralo escuro toma o quarto.
Viro de lado, meu braço procura ela,
na cama grande (falta espaço).
Fora do quarto gorjeia a garrincha,
dentro de casa o silêncio oco.
Fora de esquadro meu corpo se alinha,
saio de um cômodo para o outro.
A mãe aos dois meninos se aninha,
o pai olha os céus tão claros
(as Escrituras dizem para esperar ainda
os dias que virão amaros).
Contemplo o sublime tempo de paz,
a natureza zela por mim.
Vendo balançar as folhas (isso me apraz)
caminho vou para o jardim.
O sol agonizante ilumina o céu,
As flores enfeitam o chão;
A calma, a paz, a vida é um troféu,
A noite chegará então.
Estase
Encubado na sala
ao ar condicionado,
ao mofo da placa mãe,
ao monitor sentado,
Paro e olho: (Pomodoro!)
por através das janelas
a paisagem em suplício
ao longe as mazelas;
Os cortados campos
por rodovia enorme,
luzes que se cruzam
em velocidades ferozes.
Bateu o sentimento:
de canção à gaiola,
querendo cantar,
avoar, ir embora.
Coa febre do rato
descendo a sós
(brutalismo quadrado
degenerando a nós).
Na passarela estreita
onde vou subir
há ferrugem metal,
medo me vem de cair.
O trafego tá quieto,
ofegante também.
Anseio o fim do dia
me amar com meu bem.
Lusitano nordestino [incompleto - não revisado]
Aonde seus pés nunca pisaram
Caminha a passos curtos intimidados
A balbúrdia de gente tão estranha
De longe parecem bailes sanfonados
Da terra sedenta, seca e dura
Aventura, mais feia que mucura
Chegou ao terminal principal
Tietê imenso e colossal
Derradeiro saiu do pau de Arara
Que levou o povo unido a Teresina
Comeu do tatu, farofa e pinga
Vendeu pó de carnaúba, era o que tinha
Saiu como mocó que alça voo
Correu como quem foge de um touro
Pagou pela passagem nominal
Na poltrona ao lado do amigo, Juvenal
Ao sair se lembrou de quem ficava
Prometeu voltar em breve com cruzeiros
A pequena e colorida namorada
A contar os dias esperava sem sossego
Não houve a quem contar de sua família
O amor, o sentimento que continha
Chorava a pequena no quintal
Secava suas lágrimas com tergal
O amarelo ônibus era tão lindo
Saindo da capital do Piauí
Levando as esperanças exprimidas
De uma via melhor usufruir
Do corredor olhava à fresta da cortina
A janela entreaberta do colega
Pegava o vento na diagonal
Da janela ao lado do boçal
Não tinha sequer um documento
Com foto, com registro militar
A certidão de nascimento bem dobrada
A única explicação que tinha a dar
Não tinha diploma e nem leitura
Estudou isolado até a série terceira
Como ninguém, a calcular ele aprendeu
Ninguém derribava o salário seu
A cada parada uma rapadura
Farinha continha na lancheira
Sorria brincava bem feliz
Lembrava e sonhava com a trincheira
Não fumava, mas bebia muito bem
Vomitava e dormia assim também
Mordiscava com os amigos um lapal
Era dia festivo deste tal
A viagem era dura até a Bahia
Até picos rodoviou o belo ônibus
Via a imensa caatinga no caminho
Balbuciou muitas vezes o seu ônus
Vendo gente que descia e se ia
No caminho muita gente perecia
Dos mandacarus, mameleiros que ficavam
Dava medo, mas nem assim se melindravam
A turma era grande que se ia
Juntaram-se todos do bairro estado
O jubiloso potentado que se atreva
Garotos, velhos, moços orquestrados
Assim continuava a viagem
Caminhando cada quilometro selvagem
Uns rezavam aos padroeiros ao passarem mal
Teve gente levada pro hospital
O bigode conservado que mantinha
O respeito granjeava da m
Representava o desejo da boa moça
Todo o seu desejo era voltar
Casar, sonhava alto pra da
Evitava brincadeiras de mal gosto
Truculento era seu jeito de falar
Lentamente tonteando caminhava
Passos curtos cotovelos para trás
Como quem buscava água nauma poça
A vontade era estar limpando a roça
Gente juntada era pior que animal
Bruto solto na mata sem sinal
Levando Luís Bilia para São Paulo
Cada giro que dava a roda ia.
João Doroteu lhe enfezava
– Que partida! O mesmo, lhe dizia
– Cada arvore passa como vulto!
O bêbado estava resoluto
Conversavam lembrado do curral
Ligaram para as mainhas no natal
No segunda dio entraram na Bahia
Pararam numa cidade bem pequena
O almoço foi frango, feijão, arroz
De cruzeiros foi mais de uma centena.
O sol inda rachava o mei’ do coco
Tinha chão para cortar alguém comentou
- Aliás, voltar à trás nem a pau!
Exclamava o justo Juvenal
Em Feira de Santana tinha caldo
Forró na rodoviária aqui se via
Pedinte, vendedor e muambeiro
Jornais em toda parte o povo lia
Convencionou não se gastar o seu dinheiro
Luís comentou ao companheiro
Júlio, seu primo, o Leal
Enjoava e diminuía o alto astral
Limões, cachaça e cerveja
Não tinha como parar e não beber
As mãos secas se moviam em abraços
Poucos dos ali sabiam ler
Um rapaz viu de relance na TV
O velório bem feito pra valer
Foi notícia a morte de João Paulo
Sacristão entre eles comentaram
Não entendiam porque a vida era assim
As luzes do asfalto embelezaram
A negritude da pista lesa e fria
Comentaram quantas moças se choraram
As faixas contínuas amarelas
Refletiam as mentes em espera
Os olhos brilhantes se cruzaram
Adiante novos sonhos vão busca-los
A Bahia parecia não acabar
Novidades não viam, era o sertão
Brasil, um outro estado ali estava
Cabras e gados na rodagem em contramão
Os chocalhos badalavam como sempre
As bichinhas ali estavam presentes
Os rebanhos deixados, por sinal
Na Bahia não tinha nada igual
Agora na BR-101
Estourado um pneu o carro tinha
A água já tinha acabado
Os banheiros improvisavam na matinha
As crianças choravam de tanta sede
As mulheres queimadas e sem êxtase
Pediam – Por favor, não faça mal,
Deus, circunstancia essa é mortal
O furo parecia não ter jeito
Ficando ali parados estavam todos
As crianças choravam por mais pão
Comendo iam uns e depois outros
A fome se assevera sem poder
A outra fonte ali perto recorrer
As mães não paravam o ritual
A fome ia chegando geral
O frito acabou e as bolachas
A vida tinha um fino jeito torto
O motorista correu para atender
O cobrador ajudava, mas o dorso
Não estava bom e todo homem
Se dispôs machucou o abdome
A viagem não era a do caramuru
Ali a vergonha era estar nu
Lá na sala
Onde estavas, quando a noite eu chorava?
Que sonhos tivestes a realizá-los em mim?
– Eu sonhei teu riso sem te conhecer;
Confesso – sofri, eu te amava!
Quis teu corpo pra mim, só
para tocá-lo à noite por querer e
deixá-la nua sob o lençol
acordando-a só após o sol nascer.
Mas de mim tu me escapastes
porque a ti antes não a conheci
encontrou um outro amor à parte
deixando-me só o sonho que fiz para ti.
Hoje eu estou velho e cansado
olhando-a pela janela nos jardins
sem flores, sem folhas e destarte
com o teu coração ao longe de mim.
Poema da espera
Não me esqueça
dona minha, anoitece.
À tua espera
pra casinha
estou em prece.
Com as crianças e
a cadelinha
vem embora;
Abraçar-me,
dona minha,
me namora.
26.07.2-24
Tímida partida
Olhar no chão, em solidão;
Nenhuma lágrima derramou.
Tentei ir, voltar atrás,
Andei em vão, sem emoção;
Da grade a sombra jás.
Parti sem mim, ela não;
Parei mudo, perdi o rumo,
Tanta sede, e os pés pelas mãos
Trajeto em quatro estrofes
O humano é um pobre condenado
Pela vida a morrer. Nasce em luz
Para ver a glória, celebrado
Na flor que desabrocha e reluz.
Ao seio farto da santa imagem
Se engrandece de si sem merecer;
Crê que amanhã só irá vencer
Dorme como se não fosse à viagem.
Luta e conquista o que não é seu,
pisa e devora o que ninguém lhe deu
deixando na terra soberbas marcas.
Se desfazem na morte as intrigas,
encontram-se a dor com a amizade;
chega à sepultura última realidade.
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