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Total de poemas: 11 Página 1 de 2

OS IPÊS DA CIDADE

Correria, manhã de inverno, mas
Em Campinas imagem magistral, 
Agasalhados habitantes arfam:
‘Frialdade deixe-nos em paz’;

As cores às ruas enfeitam agora,
Assim enfadonha frieza triste
Vai-se embora em setembro. Paciente
O ipê rosa do seco desabrocha;

Com delicadas pétalas surgiu,
Com força enfrentou o rigor do frio
Pra nos oferecer lindos buquês,

Dar o tom na clave da primavera,
Orquestrar antes desta ocasião
Melodias da bela estação.
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Geração refrigereco

Avisem-no que os anos oitenta por aqui acabou,
Avisem que o rock morreu e a liberdade mudou.

Informem-no que a repressão agora está travestida
De amor e agora controlando sua vida.

Deixem-no saber que colaborou para o aumento do mau
Em sua insistência na vida investiu muito mal.

Olhem-no de soslaio: o seu sonho ruiu,
De sua luta vencida acabou no covil.

Carregou os pertences de seu tirano eterno
Bajulou o carcereiro do presente flagelo.

Tentou aparecer como um homem notável
Gastou mundos e fundos em saco não retornável.

Perseguiu os prazeres dos momentos sidéreos
Acordou no palheiro das cinzas do cemitério.

Ele olhou para trás, viu os escombros da vida
Quando olhou para frente viu-a assim esvaída.

Dos incautos amores saboreou o que pôde
Inauditos louvores tiraram-no do controle.

Hoje soberbo e cansado grita ao mundo o profundo
Saber dos antigos soldados vagabundos imundos.

Não venceu sua guerra ela mudou de lugar
Hoje come no prato que cuspiu no jantar.

Olhem-no por debaixo do lençol empoeirado
Escondendo a sujeira do desequilíbrio passado.

Deixem-no ali quieto como relíquia esquecida
Com poeira na prateleira da verdade banida.

Informem-no que acabou: o inimigo venceu
Sua razão passageira ao vento se escafedeu.

Avisem-no que a luz deve apagar ao sair 
A escuridão de suas ideias não deve mais transmitir.

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Lagoa do Taquaral

Alegria e melancolia,
infância e terceira idade,
um homem com uma mulher,
um esperto e um pobre “mané”
aos sons vários da tarde.
Um violino, um piano 
e as águas da saudade.

Tão bem e tão raso e tão claro
o sol em nuvens esparsas
aquecem-nos os seus raios
inflamam toda a paisagem. 
Nem tão perto, nem tão quieto,
sabores sem vaidades.

Lá eles estão
brincando, sorrindo e dançando 
ao delicado tom 
da mocidade calma;
no espelho da Lagoa,
no crepúscul do fim de tarde.
o amor, o sabor, a saudade.

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A sesta

Numa tarde calma de frescor a gente
deita sobre lençóis do amor
E cada um serzinho, o carinho ingente,
entre nós deita ao cobertor.

Sopra o vento, baixo o trinco, fecho a janela,
o ralo escuro toma o quarto.
Viro de lado, meu braço procura ela, 
na cama grande (falta espaço).

Fora do quarto gorjeia a garrincha,
dentro de casa o silêncio oco.
Fora de esquadro meu corpo se alinha,
saio de um cômodo para o outro.

A mãe aos dois meninos se aninha,
o pai olha os céus tão claros
(as Escrituras dizem para esperar ainda
os dias que virão amaros).

Contemplo o sublime tempo de paz, 
a natureza zela por mim.
Vendo balançar as folhas (isso me apraz) 
caminho vou para o jardim.

O sol agonizante ilumina o céu,
As flores enfeitam o chão;
A calma, a paz, a vida é um troféu,
A noite chegará então.

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Estase

Encubado na sala

ao ar condicionado,

ao mofo da placa mãe,

ao monitor sentado,

 

Paro e olho: (Pomodoro!)

por através das janelas

a paisagem em suplício

ao longe as mazelas;

 

Os cortados campos

por rodovia enorme,

luzes que se cruzam

em velocidades ferozes.

 

Bateu o sentimento:

de canção à gaiola,

querendo cantar,

avoar, ir embora.

 

Coa febre do rato

descendo a sós

(brutalismo quadrado

degenerando a nós).

 

Na passarela estreita

onde vou subir

há ferrugem metal,

medo me vem de cair.

 

O trafego tá quieto,

ofegante também.

Anseio o fim do dia

me amar com meu bem.

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Lusitano nordestino [incompleto - não revisado]

Aonde seus pés nunca pisaram

Caminha a passos curtos intimidados

A balbúrdia de gente tão estranha

De longe parecem bailes sanfonados

Da terra sedenta, seca e dura

Aventura, mais feia que mucura

Chegou ao terminal principal

Tietê imenso e colossal

 

Derradeiro saiu do pau de Arara

Que levou o povo unido a Teresina

Comeu do tatu, farofa e pinga

Vendeu pó de carnaúba, era o que tinha

Saiu como mocó que alça voo

Correu como quem foge de um touro

Pagou pela passagem nominal

Na poltrona ao lado do amigo, Juvenal

 

Ao sair se lembrou de quem ficava

Prometeu voltar em breve com cruzeiros

A pequena e colorida namorada

A contar os dias esperava sem sossego

Não houve a quem contar de sua família

O amor, o sentimento que continha

Chorava a pequena no quintal

Secava suas lágrimas com tergal

 

O amarelo ônibus era tão lindo

Saindo da capital do Piauí

Levando as esperanças exprimidas

De uma via melhor usufruir

Do corredor olhava à fresta da cortina

A janela entreaberta do colega

Pegava o vento na diagonal

Da janela ao lado do boçal

 

Não tinha sequer um documento

Com foto, com registro militar

A certidão de nascimento bem dobrada

A única explicação que tinha a dar

Não tinha diploma e nem leitura

Estudou isolado até a série terceira

Como ninguém, a calcular ele aprendeu

Ninguém derribava o salário seu

 

A cada parada uma rapadura

Farinha continha na lancheira

Sorria brincava bem feliz

Lembrava e sonhava com a trincheira

Não fumava, mas bebia muito bem

Vomitava e dormia assim também

Mordiscava com os amigos um lapal

Era dia festivo deste tal

 

A viagem era dura até a Bahia

Até picos rodoviou o belo ônibus

Via a imensa caatinga no caminho

Balbuciou muitas vezes o seu ônus

Vendo gente que descia e se ia

No caminho muita gente perecia

Dos mandacarus, mameleiros que ficavam

Dava medo, mas nem assim se melindravam

 

A turma era grande que se ia

Juntaram-se todos do bairro estado

O jubiloso potentado que se atreva

Garotos, velhos, moços orquestrados

Assim continuava a viagem

Caminhando cada quilometro selvagem

Uns rezavam aos padroeiros ao passarem mal

Teve gente levada pro hospital

 

O bigode conservado que mantinha

O respeito granjeava da m

Representava o desejo da boa moça

Todo o seu desejo era voltar

Casar, sonhava alto pra da

 

Evitava brincadeiras de mal gosto

Truculento era seu jeito de falar

Lentamente tonteando caminhava

Passos curtos cotovelos para trás

Como quem buscava água nauma poça

A vontade era estar limpando a roça

Gente juntada era pior que animal

Bruto solto na mata sem sinal

 

Levando Luís Bilia para São Paulo

Cada giro que dava a roda ia.

João Doroteu lhe enfezava

– Que partida! O mesmo, lhe dizia

– Cada arvore passa como vulto! 

O bêbado estava resoluto

Conversavam lembrado do curral

Ligaram para as mainhas no natal

 

No segunda dio entraram na Bahia

Pararam numa cidade bem pequena

O almoço foi frango, feijão, arroz

De cruzeiros foi mais de uma centena.

O sol inda rachava o mei’ do coco

Tinha chão para cortar alguém comentou

- Aliás, voltar à trás nem a pau!

Exclamava o justo Juvenal

 

Em Feira de Santana tinha caldo

Forró na rodoviária aqui se via

Pedinte, vendedor e muambeiro

Jornais em toda parte o povo lia

Convencionou não se gastar o seu dinheiro

Luís comentou ao companheiro

Júlio, seu primo, o Leal

Enjoava e diminuía o alto astral

 

Limões, cachaça e cerveja

Não tinha como parar e não beber

As mãos secas se moviam em abraços

Poucos dos ali sabiam ler

Um rapaz viu de relance na TV 

O velório bem feito pra valer

Foi notícia a morte de João Paulo

Sacristão entre eles comentaram

 

Não entendiam porque a vida era assim

As luzes do asfalto embelezaram

A negritude da pista lesa e fria

Comentaram quantas moças se choraram

As faixas contínuas amarelas

Refletiam as mentes em espera

Os olhos brilhantes se cruzaram

Adiante novos sonhos vão busca-los

 

A Bahia parecia não acabar

Novidades não viam, era o sertão

Brasil, um outro estado ali estava

Cabras e gados na rodagem em contramão

Os chocalhos badalavam como sempre

As bichinhas ali estavam presentes

Os rebanhos deixados, por sinal

Na Bahia não tinha nada igual

 

Agora na BR-101

Estourado um pneu o carro tinha

A água já tinha acabado

Os banheiros improvisavam na matinha

As crianças choravam de tanta sede

As mulheres queimadas e sem êxtase

Pediam – Por favor, não faça mal,

Deus, circunstancia essa é mortal

 

O furo parecia não ter jeito

Ficando ali parados estavam todos

As crianças choravam por mais pão

Comendo iam uns e depois outros

A fome se assevera sem poder

A outra fonte ali perto recorrer

As mães não paravam o ritual

A fome ia chegando geral

 

O frito acabou e as bolachas

A vida tinha um fino jeito torto

O motorista correu para atender

O cobrador ajudava, mas o dorso

Não estava bom e todo homem

Se dispôs machucou o abdome

A viagem não era a do caramuru

Ali a vergonha era estar nu

 

 

 

 

 

 

 

 

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Lá na sala

Onde estavas, quando a noite eu chorava?
Que sonhos tivestes a realizá-los em mim?
– Eu sonhei teu riso sem te conhecer;
Confesso – sofri, eu te amava! 

Quis teu corpo pra mim, só
para tocá-lo à noite por querer e
deixá-la nua sob o lençol 
acordando-a só após o sol nascer.

Mas de mim tu me escapastes
porque a ti antes não a conheci
encontrou um outro amor à parte
deixando-me só o sonho que fiz para ti.

Hoje eu estou velho e cansado
olhando-a pela janela nos jardins
sem flores, sem folhas e destarte
com o teu coração ao longe de mim.

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Poema da espera

Não me esqueça
dona minha, anoitece.
À tua espera
pra casinha
estou em prece.

Com as crianças e
a cadelinha
vem embora;
Abraçar-me,
dona minha,
me namora.

26.07.2-24

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Tímida partida

Eu me vim, ela ficou,
Olhar no chão, em solidão;
Nenhuma lágrima derramou.

Tentei ir, voltar atrás,
Andei em vão, sem emoção;
Da grade a sombra jás.

Parti sem mim, ela não;
Parei mudo, perdi o rumo,
Tanta sede, e os pés pelas mãos
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Trajeto em quatro estrofes

O humano é um pobre condenado
Pela vida a morrer. Nasce em luz
Para ver a glória, celebrado
Na flor que desabrocha e reluz.
 
Ao seio farto da santa imagem
Se engrandece de si sem merecer;
Crê que amanhã só irá vencer
Dorme como se não fosse à viagem.
 
Luta e conquista o que não é seu,
pisa e devora o que ninguém lhe deu
deixando na terra soberbas marcas.
 
Se desfazem na morte as intrigas,
encontram-se a dor com a amizade;
chega à sepultura última realidade.

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