Escritas

A segunda Pessoa

Isabel Pires
To count the loves one has grown out of
                                                         W. H. Auden


Tu reincides sem nome na lembrança,
presença não conhecida mas desejada
além do véu das estações e dos anos,

distante como dia de sol na bruma,
guardam-te em vão silêncios e demoras;
ao papel vens como lição não decorada,

perdido em missas vazias e solenes,
tu, forma de despedaçamento no meu corpo,
tu, dilaceração sem marca sobre a pele.

A espera queimou já meio caminho
desta vida e para o ar que respiro
não há mão incensaria, estrelas

em vigília na funda noite das galáxias,
sóis negros e prestas nebulosas
que correm para o avesso de Deus.

Lâmpadas e a lua foram guardas destas noites,
sem enlevo e sem futuro, exaladas por uma alma
presa na armação dos últimos laços.

Um desejo pode ser agora o pavor de um anseio
teu tumultuando o sangue em trânsito
pelas moradas do corpo quando esse adejo,

sei, as deixa suspensas na varanda dos sentidos.
Inquiro essa vontade que fez de ti um ser
inacessível a todos os vaticínios, invalidado

em nome e corpo, esboroando-se entre os dedos
como estátua mensurável outrora num desejo
e cinzelada de um sopro contra a luz.
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