Escritas

Às Vezes Quando Fico Triste Eu Ouço Mahler

Charles Bukowski Ano: 20537
nada disso de creme, Harry,
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.

eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.

não tenho escrito, Harry, nada de creme,

porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.

cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
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