Escritas

Levar-te à boca

Isabel Pires
O açucareiro era de alumínio, alto e gordo, e servia para guardar o açúcar louro que tinha uma cor acastanhada, mas nem isso fazia com que dissesse açúcar castanho como também ouvia.Castanhas eram aquelas pedrinhas que se formavam no açúcar e eu apanhava para levar à boca, como se fossem rebuçados. Remexia o açúcar na esperança de apanhar mais, de que estivessem sempre a nascer pérolas e não sabia de onde vinham aqueles tesouros nem me preocupava com isso.
Uma vaga ideia de prémio. Apenas isso. As pérolas aconteciam-me. Os tesouros apareciam-me.

Hoje, à procura de rios para ti,
braços em alfabeto, pinturas com asas e janelas debruadas a olhos grandes com uma pitada de triste,
vi a mão da miúda a abrir buracos no açúcar para encontrar pedacinhos de ti.

237 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment