Coroa de sete sonetos
Edmir Domingues
I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
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