Escritas

A leitura

Manuel António Pina

Como aquele antiquíssimo burro, talvez o da minha infância,

ave imortal não nascida para morrer

que imovelmente me fita da lembrança,

alguma voz anterior fala no que posso escrever


e no que posso ler; talvez o anjo cabalístico

tocando-me o lábio superior ao nascer

me tenha condenado ao destino paroxístico

e ocioso de repetir, repetir, repetir,


até, puro de novo, me calar por fim,

eu que, com minhas mãos, matei o albatroz,

que culpa penará então a minha alheia voz

dos meus versos, nos vossos errando sem mim?


Não, não me peçais ainda concordância,

estarei ocupado de mais à minha escuta

no coração e na boca, no oiro e na cicuta,

e na escuridão dos livros, talvez os da minha infância.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 308 | Assírio & Alvim, 2012

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