Escritas

Morada

Manuel António Pina

Sozinho na grande cama,

perdido nos seus frios corredores,

ouço, de quartos interiores,

a tua voz que me chama.


Do fundo da noite enorme

onde pouso a cabeça por fora

a tua voz de alguém acorda-me

como num sono insone.


Como se a tua voz agora

antigamente me chamasse

e tudo, menos a tua voz, faltasse

fora da minha memória.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 143 | Assirio & Alvim, 2012

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