[Uma casa]

Manuel António Pina
Manuel António Pina
1 min min de leitura

Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,

nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;

pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,

na ausência das palavras calar-se.

Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,

nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,

a porta está fechada na palavra porta

para sempre.

O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,

nem sob ele te deitarás nas longas tardes de Verão

como quando eras música apenas

sem uma casa guardando-te do mundo.



Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 354 | Assírio & Alvim, Abril 2012

1 559 Visualizações
Partilhar

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.