Escritas

Graciliano Ramos Vende Sua Sombra ao Sol

Armindo Trevisan
Graciliano,
animal triste,
silêncio ensurdecido
entre o olho
e a caatinga.

Pão e laranja
para os místicos.
Para ti,
o cisco.
Graciliano,
pai,
anti-pai.

Ismália enlouqueceu
quando morreste.
E tu, intratável,
seduziste
uma a uma
as santas de Deus.

Graciliano,
arranjador
de verdade:
pisa, mais uma vez,
o coração,
o vosso e o meu.

Onde ele se acoitar,
tua cachorra
estique a pata
do abraço.

E assim,
anti-pai,
seja feita na terra
tua vontade.


In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
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