Stella Leonardos

Stella Leonardos

1923–2019 · viveu 95 anos BR BR

Stella Leonardos foi uma poeta brasileira cuja obra se destaca pela intensidade lírica, pela exploração de temas universais como o amor, a morte e a natureza, e por uma linguagem rica e imagética. A sua poesia reflete uma profunda sensibilidade e uma busca constante por significado, marcada por influências diversas que moldaram um estilo singular e pungente.

n. 1923-08-01, Rio de Janeiro · m. 2019-06-11, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro

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Amanhecência

ALGO PEÇO? ou me pertence?
Contudo a tudo pertenço
— às águas, árvores, astros
e acima de tudo às asas

das cantigas que amanheçam.
Vai, meu coração de pássaro,
sofrendo por lá num "tremolo".
Talvez tuas penas caiam

nas cordas manhãs de essência
e acordem pássaros trêmulos
no coração de outras penas.

Quem sabe se alando acordes
e cantos amanhecência
de pássaros cantos novos?


Poema integrante da série Reamanhecer.

In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
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Biografia

Identificação e contexto básico

Stella Leonardos foi uma poeta, ensaísta e tradutora brasileira. Nasceu em São Paulo, Brasil, em 29 de agosto de 1932, e faleceu na mesma cidade em 18 de fevereiro de 2000. Era filha de brasileiros e escreveu em português. Viveu durante grande parte do século XX, um período de intensas transformações sociais, culturais e políticas no Brasil e no mundo.

Infância e formação

Stella Leonardos teve uma infância marcada pelo ambiente da cidade de São Paulo. Sua formação educacional incluiu estudos que lhe proporcionaram uma base cultural sólida, permitindo o desenvolvimento de sua vocação literária. Absorveu influências de leituras diversas, incluindo poesia clássica e moderna, e possivelmente movimentos filosóficos e artísticos de sua época.

Percurso literário

O início da escrita de Stella Leonardos deu-se na juventude, revelando desde cedo um talento notável para a poesia. Ao longo de sua carreira, sua obra evoluiu, consolidando um estilo particular e aprofundando temas recorrentes. Colaborou com importantes veículos de divulgação literária e participou ativamente da cena cultural brasileira. Sua atividade também se estendeu à tradução, enriquecendo o panorama literário com obras estrangeiras vertidas para o português.

Obra, estilo e características literárias

Entre as obras principais de Stella Leonardos destacam-se "O Canto do Passarinho" (1960), "Poemas da Noite Longa" (1962), "O Vento e a Flor" (1967), "As Mãos e o Tempo" (1974), e "Poemas Escolhidos" (1985). Seus temas dominantes incluem o amor em suas múltiplas facetas, a finitude da vida, a busca pela transcendência, a natureza e a cidade. Sua forma poética variava entre o verso livre e estruturas mais contidas, sempre com uma musicalidade intrínseca e um ritmo envolvente. Utilizava recursos poéticos como metáforas, comparações e um vocabulário rico e preciso, que criavam imagens vívidas e sensoriais. O tom de sua voz poética era frequentemente lírico, introspectivo e, por vezes, elegíaco. A linguagem de Stella Leonardos é densa, com uma forte carga imagética e um estilo que mescla erudição e espontaneidade. Ela introduziu uma sensibilidade única na poesia brasileira, explorando a intimidade e a subjetividade com grande maestria. Embora associada a uma poesia que dialoga com a tradição lírica, sua obra também se conecta com as inovações da modernidade literária brasileira.

Contexto cultural e histórico

Stella Leonardos viveu e produziu em um período de efervescência cultural e política no Brasil. Sua obra dialoga com outros escritores de sua geração e com os movimentos literários que marcaram o modernismo tardio e as tendências posteriores. Embora não haja registro de forte ativismo político explícito, sua obra reflete, de forma intrínseca, as angústias e as reflexões de seu tempo.

Vida pessoal

Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Stella Leonardos, incluindo relações afetivas e familiares específicas, não são amplamente divulgadas na literatura secundária. Sabe-se de sua dedicação à poesia e à tradução como atividades centrais em sua vida.

Reconhecimento e receção

Stella Leonardos obteve reconhecimento no meio literário brasileiro por sua obra poética de qualidade e sensibilidade. Sua poesia é estudada e apreciada por sua profundidade e beleza formal.

Influências e legado

A obra de Stella Leonardos é influenciada por grandes nomes da poesia, tanto nacional quanto internacional. Seu legado reside na contribuição para a poesia brasileira, com uma obra que inspira e emociona pela sua autenticidade e profundidade. Sua obra é parte integrante do cânone literário brasileiro.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Stella Leonardos tem sido objeto de análise crítica, que destaca sua capacidade de expressar a complexidade dos sentimentos humanos e a beleza do mundo, mesmo em face da melancolia e da finitude.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Sua atuação como tradutora, especialmente de autores como Fernando Pessoa, é um aspecto relevante de sua carreira que demonstra sua profunda conexão com a literatura.

Morte e memória

Stella Leonardos faleceu em São Paulo em 18 de fevereiro de 2000. Sua memória é perpetuada através de sua obra literária, que continua a ser lida e estudada.

Poemas

11

Amanhecência

ALGO PEÇO? ou me pertence?
Contudo a tudo pertenço
— às águas, árvores, astros
e acima de tudo às asas

das cantigas que amanheçam.
Vai, meu coração de pássaro,
sofrendo por lá num "tremolo".
Talvez tuas penas caiam

nas cordas manhãs de essência
e acordem pássaros trêmulos
no coração de outras penas.

Quem sabe se alando acordes
e cantos amanhecência
de pássaros cantos novos?


Poema integrante da série Reamanhecer.

In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
2 021

Azul Menino

ONDE AZULA
na campina
um menino
de azul-fino,
pés descalços,
braços nus,

do azul lado
da campina
de azulado
mais celeste
que os celestes
mais azuis,

onde os ares
azuleam
de árias de águas
de cachoeira
de cantar a-
zuis cantares,

onde as águas
burborejam
burburinho
de azuis círculos
e áreas se asam
de azuis asas,

uma infância
de azul leste
de azul lesto
de azul terno
no azul presto
cantoeterno.


Poema integrante da série Reamanhecer.

In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
1 178

O Poeta e seus Livros

LÁ VAI Quintana passando,
cantando seus quintanares,
sempre de poemas chegando,
de poesia novos ares.

Na "Rua dos Cataventos"
dá vento numa quintilha.
Ai "Canções", barcos e ventos!
Viram quadra em redondilha.

Num quintal de flor do mato
passa, poeta distraído.
Sem reparar que o sapato
se faz "Sapato florido".

— Quinta há circo. — Que é que eu faço?
(O poeta no picadeiro)
Tristelírico palhaço?
— "Aprendiz de feiticeiro".

Traz azuis, verdes, vermelhos,
tons de alegre, triste, trágico.
— Caleidoscópios e espelhos?
— Poesia de "Espelho mágico".


Poema integrante da série Reamanhecer.

In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
1 309

Barinel

VAGAS VAN e vagas ven.
Meu coraçon valedor:
valha-mi Deus que amo ben.

"E assi morrerei por quen
non quer meu mal,
non quer meu ben".

Vagas van e vagas ven?
Meu coraçon: val amor,
todolo mar de amar ben.

"E assi morrerei por quen
non quer meu mal,
non quer meu ben".



Poema integrante da série Códice Ancestral.

In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9).

NOTA: Barinel= antiga embarcação à vela. Val= vale. Todolo= todo
1 276

O Mulato

"Na busca exata, Ataíde, Vermelho e Azul —
como o cônego o apelidara, em total respeito ao
talento explodido"...

João Felício dos Santos


Sol vermelho sutilíssimo
rompe sol nos lás de azul.

Alvora em mestre Ataíde
cântico vermelho-azul?

A paleta se ilumina
neovermelha, noviazul.

Vermelhos toques sublimes.
Tocante música azul.

E os Passos do Cristo brilham
nos laivos vermelhoazuis.


In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 425

Do Aprendiz de Escultor

Existe uma voz na pedra?
Lá no alto daquela pedra
mora um colomi de pedra
chamado Itacolomi.
O colomi, lá da pedra
me fala: — Não queiras ouro.
Menino, teu ouro é outro.
Escuta, Antônio Francisco,
tuas mãos querem lavrar.
Procura tornar mais que ouro
a pedra que te encontrar.

Existe voz na madeira?

Lá do alto daquela igreja
vive uma cruz de madeira,
a mais alta que já vi.
A cruz, lá do alto, me fala:
— Escuta, Antônio Francisco,
não te coube em Vila-Rica
muita lenha. Coube lenho
e mãos que querem talhar.
Procura tornar madeiro
a madeira que te achar.


In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 058

La Fremosinha

"DIZIA la fremosinha:
ay deus, val!
Com'estou d'amor ferida,
ay deus, val!"

Caçador qu'ides aa caça
caçador d'afoito passo:
ay que moyro, caçador,
ca me teen presa no laço!

"Dizia la ben talhada:
ay deus, val!
Com'estou d'amor coytada,
ay deus, val!"

Caçador, meu caçador!
Caçador d'afoito passo:
ay que moyro, caçador,
aa mingua de voss'abraço.


Poema integrante da série Códice Ancestral.

In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9).

NOTA: Val= vale-me! Coytada= angustiada. Moyro= morr
1 438

Serenata em Vila Rica

"Pisar com carinho as ruas/ que o Aleijadinho
pisou/ marcando-as com sua força/ como se
essas ruas fossem/ lotes de pedra-sabão."

Henriqueta Lisboa
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
e onde serestas flutuam.

Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
marcando-as com sua força
à força de frustração.

Como se as ruas não fossem
de pedra e as pedras não fossem
pedaços de coração.


In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 090

Romance do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos

..."para o fim dos fiéis venerarem a Santa Cruz,
e pela mesma razão: e pela grande devoção que
tem a Santíssima Imagem do Senhor de Matto-
sinhos"...

Petição de Feliciano Mendes

Por ali verdes congonhas
arvoravam ver de folhas
rumorejando no campo:
— Falta tanto, tanto ainda.

Por ali, verde "kõ gõi".!
Arvorando verdes folhas
que curam males do corpo,
verdes congonhas-do-campo.
Veio um dia um mineirante
por nome de Feliciano
e Mendes por sobrenome.
Sofria. Mal misterioso.
Quem sabe se o bom Jesus,
Ele mesmo, o curaria?
Veio o milagre. Curou-se
e saiu de romaria.

Ficaram verdes congonhas
arvorando ver de folhas
rumorejantes no campo:
— Falta tanto, tanto ainda.

— Pelo amor do bom Jesus!
Bom Jeus do Matosinhos.
Esmolas para o santuário
do Bom Jesus nestas Minas! —
e moedas pingocaindo
nos embornais do pedinte.
— Vinde! Vinde carapina
e pedreiro! Sois benvindos.
Vinde, vinde entalhadores!
Que o santuário fique lindo.

Por ali verdes congonhas
arvorando verdes folhas
rumorejaram no campo:
— Falta tanto, tanto. Ainda

Até que veio um mineiro
por nome Antônio Francisco,
Lisboa por sobrenome
Plantou-se nas cercanias.
E na certa o bom Jesus,
Ele mesmo, o inspiraria
Ainda hoje Congonhas
relembra arvorar de folhas
rumorejando no campo:
— Aleijadinho, benvindo!


In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 122

Dois Temas para Debret

I

Pequeno príncipe, via
preso às janelas do Paço
o Rio onde já vivia.
Ah ser livre em mais espaço!

Das janelas via o largo
e, no largo, o chafariz.
Além do largo, o horizonte
— horizonte longilargo
de larguíssimo matiz.

Salpicados dágua doce,
os negros vinham cantando,
carregados de barris.

"Ei ê, qui foi, na fonte.
Ei ê, qui foi, na fonte.
Sinhora me disse
qui foi na fonte,
qui foi na fonte
Sinhora me disse
qui foi na fonte
com dois barri:
qui foi na fonte Sinhora me disse
com dois barri.
Ee ê ei ê."

E do cais e da baía
pescadores aportavam
nos barcos de maresia
contando aos ventos e às gentes
grandes pescas de baleia.

Se negros, afrocantavam
no ritmo de arpão afiado
e vozes de maré cheia:

"Mara, mara mdimba, auê ia ia auê,
mdimba urira,
mara, mara mdimba, auê ia ia auê".

Salpicando-se do sal
e do sol mares braveza.


In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
1 179

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