Lista de Poemas
Olha quantos estão comigo
estão sozinhos
estão fingindo que estão sozinhos
pra poder estar comigo
É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas também você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
(Stela do Patrocínio, em diagramação de sua fala por Viviane Mosé)
Eu era gases puro
eu era ar, espaço vazio, tempo
e gazes puro, assim, ó, espaço vazio, ó
eu não tinha formação
não tinha formatura
não tinha onde fazer cabeça
fazer braço, fazer corpo
fazer orelha, fazer nariz
fazer céu da boca, fazer falatório
fazer músculo, fazer dente
eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
fazer cabeça, pensar em alguma coisa
ser útil, inteligente, ser raciocínio
não tinha onde tirar nada disso
eu era espaço vazio puro
Eu sobrevivi do nada
Eu não existia
Não tinha existência
Não tinha uma matéria
Comecei a existir com quinhentos milhões
e quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
...
Não sou eu que gosto de nascer
Eles é que me botam para nascer todo dia
E sempre que eu morro me ressuscitam
Me encarnam me desencarnam me reencarnam
Me formam em menos de um segundo
Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver
Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto
Ou pra cabeça deles e pro corpo deles
(Stela do Patrocínio, em diagramação de sua fala por Viviane Mosé)
Meu nome verdadeiro é caixão enterro
Cemitério defunto cadáver
Esqueleto humano asilo de velhos
Hospital de tudo quanto é doença
Hospício
Mundo dos bichos e dos animais
Os animais: dinossauro camelo onça
Tigre leão dinossauro
Macacos girafas tartarugas
Reino dos bichos e dos animais é o meu nome
Jardim Zoológico Quinta da Boa Vista
Um verdadeiro jardim zoológico
Quinta da Boa Vista
Não trabalho com a inteligência
Nem com o pensamento
Mas também não uso a ignorância
Eu não queria me formar
Não queria nascer
Não queria formar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida
Eu não tive querer
Nem vontade para essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade para essas coisas
Eu já fui operada várias vezes
Fiz várias operações
Sou toda operada
Operei o cérebro, principalmente
Eu pensei que ia acusar
Se eu tenho alguma coisa no cérebro
Não, acusou que eu tenho cérebro
Um aparelho que pensa bem pensado
Que pensa positivo
E que é ligado a outro que não pensa
Que não é capaz de pensar nada e nem trabalhar
Eles arrancaram o que está pensando
E o que está sem pensar
E foram examinar esse aparelho de pensar e não pensar
Ligados um ao outro na minha cabeça, no meu cérebro
Estudar fora da cabeça
Funcionar em cima da mesa
Eles estudando fora da minha cabeça
Eu já estou nesse ponto de estudo, de categoria
você está me comendo tanto pelos olhos
que eu já não tenho de onde tirar força
pra te alimentar
Comentários (1)
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No dia 3 de março de 1966, foi transferida para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá (a mesma instituição onde Arthur Bispo do Rosário foi internado). Stella passou a ser paciente do núcleo feminino Teixeira Brandão, local onde permaneceu até o dia de sua morte.
Devido ao longo período de internação involuntária em instituições asilares, quase nada se sabe a respeito de sua vida.
Stella do Patrocínio veio a óbito no dia 20 de outubro de 1992, devido a uma parada cardiorrespiratória depois de sofrer uma amputação na perna. Do Patrocínio tinha diabetes tipo mellitus e carcinoma mamário. Seu corpo foi sepultado como indigente - um fim comum dos pacientes psiquiátricos em instituições públicas, depois de tanto tempo de internação, devido à perda de suas memórias e de seus laços afetivos. Seu corpo foi encaminhado ao Cemitério de Inhaúma. Cinco anos depois de sua morte, teve os restos cremados e dispensados, pois é política da direção do cemitério descartar os corpos cujos parentes não procuraram, retirando-os das gavetas e cremando-os para abrir espaço.
Postumamente, em 2001, Viviane Mosé publicou trechos recortados de seu falatório em um livro de poesia intitulado Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Rio de Janeiro: Azougue editorial, 2001). Foram fontes materiais para a consolidação do livro: o livro datilografado por Mônica Ribeiro de Souza; as gravações realizadas por Guagliardi. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome foi finalista do Prêmio Jabuti.
O trabalho de Stela do Patrocínio, em sua fala poética, chamou a atenção de vários artistas, como Georgette Fadel, Juliana Amaral e Lincoln Antonio, que encenaram com seus textos o espetáculo "Entrevista com Stela do Patrocínio" (São Paulo, 2005), e o documentarista Márcio de Andrade, que preparou o documentário Stela do Patrocínio - A mulher que falava coisas. Num país como o Brasil, machista e racista, não é de admirar que a poesia de uma mulher negra e tida como louca não tenha tido mais atenção, com sua textualidade que por vezes nos leva a uma forma de logopeia pelo viés da loucura.
Suas enumerações e anáforas por vezes nos remetem à poesia urgente de Patrícia Galvão. Seria também interessante comparar seu trabalho ao de Maura Lopes Cançado (1929 - 1993), outra vítima da nossa fronteira cerrada entre sanidade e loucura. Nos Estados Unidos, soube-se valorizar a contribuição de uma poeta como Hannah Weiner (1928 - 1997), que fez de sua condição psíquica a forma do seu pensar. No segundo número impresso da Modo de Usar & Co., incluímos uma tradução para poema da norte-americana.
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