Escritas

Lista de Poemas

Sentença

faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.

por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
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Desamanhecer

Agora,
na cidade da tua ausência
outro dia
desamanhece. E súplice
um grito escorre na paisagem.
Todos os lugares
são feitos do teu antes.
Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.

Só meu coração insiste
em erigir teu nome...
para além do esquecimento.
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ALQUIMIA

Para T.T.

Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.
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NOZ

As distâncias que se deitam
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
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OS NEO-GATUNOS

A meu ver, essa laia de neo-ladrões que tomou conta do país,
teve início na era Collor. E é, normalmente, composta de políticos (mais
ou menos) jovens, esclarecidos e sedutores, que, emulando
o discurso da Esquerda (e a ele acrescentando cores próprias —
baseadas na urgência que os pobres têm por assistencialismo), apoderaram-se
dessa larga maioria de necessitados, para vender ilusões.
Ainda que narcísicos e loucos por luxo e ostentação ( com suas mulheres
bregas e arrogantes), seu principal prazer é, simplesmente, ROUBAR. Se O Ministério
Publico e a Polícia Federal não os tivessem flagrados, certamente, já teriam
vendido as paredes da Petrobras.
Isso justifica, em parte, os assombrosos valores subtraídos. E, ainda,
as ridículas desculpas, ancoradas em matilhas de advogados bem pagos e super
hábeis na arte de defender canalhas.
Puni-los, severamente, é uma questão de honra e de profilática pedagogia social,
suas vitórias sobre a honestidade e o bom senso, representariam um escárnio e um péssimo exemplo para a sociedade, sobretudo, para as novas gerações.
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Do Raio

Nem o acre sabor das uvas
nos aplaca. Nem a chuva

nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.

O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas

sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
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Do Arbítrio

Das estrias que a mão
esculpe
só o que brilha
sobrevive.

Nômade a manhã
despe o sol
à flor
da carne,
múltipla,
à vertigem da linguagem.

Não há comportas
nem caminhos

não há saaras
nem vienas

em tudo há rinhas
e arestas
de flores
e esquifes.

Em tudo entalha-se
ao revés
coisas que se mostram
e não se dão,
que só no verso vêem-se,
no peeling pelo avesso.
(Delitos que em seu exílio
transbordam de rubro
a lira,
resenham através do júbilo,
rasuram através da ira.)

Sopra revanche de ritmos
no íntimo viés do não dito,

sopra o arbítrio dos dias.
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VULTO 1

Sozinho com os vampiros
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.
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Ladainha

Não secarás as raízes
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.

Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
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ESTILETES

Tornaram-se estiletes,
no que eram brotos de chuva.
Agora,
brotam em qualquer parte —
em plena luz do dia.
Como um chão de navalhas.
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