Ruy Cinatti

Ruy Cinatti

1915–1986 · viveu 71 anos PT PT

Ruy Cinatti foi um poeta, etnólogo e médico luso-italiano, cuja obra poética é profundamente marcada pela sua vivência em Timor, onde passou grande parte da sua vida. Sua poesia explora a relação do homem com a natureza, a identidade, a cultura timorense e a condição humana, com um lirismo intenso e uma linguagem precisa. Com uma forte ligação ao surrealismo e à poesia de vanguarda, Cinatti legou uma obra singular que reflete a sua experiência de vida em terras exóticas e a sua profunda reflexão sobre o mundo e a existência.

n. 1915-03-08, Londres · m. 1986-10-12, Lisboa

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Quando Eu Partir

Quando eu partir, quando eu partir de novo
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...
Como se um outro ser nascesse
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre se abrisse
As janelas da vida. . .
Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.
Mas ali
Hei de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Ruy de Almeida Cinatti de França e Silva foi um poeta, etnólogo e médico luso-italiano. Nasceu em Lisboa em 1915 e faleceu em 1986. É conhecido pela sua obra poética e pelo seu trabalho como etnólogo, com um foco especial na cultura de Timor, onde viveu durante muitos anos.

Infância e formação

Nascido em Portugal, Ruy Cinatti mudou-se para Itália ainda jovem, onde completou os seus estudos médicos. A sua formação como médico influenciou a sua visão do mundo e a sua abordagem à vida e à arte. Foi em Itália que teve contacto com os movimentos de vanguarda europeus, como o surrealismo, que viriam a influenciar a sua escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Ruy Cinatti começou a ganhar forma durante a sua estadia em Timor. Lá, começou a escrever poesia, absorvendo a paisagem, a cultura e as gentes locais. A sua poesia evoluiu de uma fase inicial marcada por influências vanguardistas para uma expressão mais pessoal e madura, fortemente ligada à sua experiência em terras timorenses. Publicou diversas obras poéticas, além de trabalhos etnográficos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras poéticas de Ruy Cinatti incluem títulos como "As Ilhas de Fogo" (1942) e "Cronos e o Mar" (1960). Os temas centrais da sua obra são a relação do ser humano com a natureza exuberante e primitiva, a identidade cultural, a alteridade, a solidão, a passagem do tempo e a condição humana. Sua poesia é marcada por um lirismo intenso, um vocabulário preciso e imagens vívidas, muitas vezes com um toque onírico e surreal. Utiliza frequentemente o verso livre e explora recursos como a metáfora e a sinestesia. O seu estilo é distintivo, conjugando a influência surrealista com uma profunda observação etnográfica e existencial. A sua obra dialoga com a modernidade poética, apresentando uma visão única sobre o exótico e o universal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ruy Cinatti viveu num período de intensas transformações no século XX. A sua experiência em Timor, um território português na época, insere-o num contexto colonial, mas a sua perspetiva transcende a mera observação do império, focando-se na universalidade da condição humana. Foi um contemporâneo de importantes poetas portugueses e europeus, e a sua obra, embora por vezes marginal em relação aos círculos literários metropolitanos, estabeleceu um diálogo com as vanguardas artísticas da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Ruy Cinatti foi profundamente moldada pela sua paixão por Timor, onde trabalhou como médico e realizou pesquisas etnográficas. Essa imersão cultural e geográfica deu-lhe uma perspetiva única sobre a vida e a arte. As suas relações pessoais, embora menos documentadas publicamente, parecem ter sido influenciadas pela sua natureza introspectiva e pela sua dedicação ao estudo e à criação.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a obra de Ruy Cinatti tenha sido valorizada por críticos e poetas, o seu reconhecimento público talvez não tenha alcançado a dimensão que a sua singularidade e qualidade literária justificariam. A sua poesia é apreciada pela sua originalidade, pela profundidade das suas reflexões e pela sua capacidade de capturar a essência de um mundo diferente.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Cinatti foi influenciado pelo surrealismo europeu e por poetas que exploraram a relação entre o homem e a natureza. O seu legado reside na sua capacidade de fundir a experiência etnográfica com a criação poética, oferecendo uma voz única na literatura portuguesa. Influenciou poetas que buscam uma ligação mais profunda com o mundo natural e com outras culturas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Cinatti é frequentemente interpretada como uma meditação sobre a alteridade, a identidade e a relação intrínseca entre o homem e o cosmos. A sua poesia convida à contemplação da beleza selvagem, da fragilidade da existência e da busca por um sentido num mundo em constante mutação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A sua dupla formação como médico e poeta, aliada à sua vivência em Timor, confere-lhe um perfil singular. A forma como a sua obra etnográfica e poética se entrelaçam demonstra uma visão holística do ser humano e do seu lugar no mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ruy Cinatti faleceu em 1986, deixando um corpo de obra que continua a ser redescoberto e apreciado pela sua originalidade e profundidade.

Poemas

11

Quando Eu Partir

Quando eu partir, quando eu partir de novo
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...
Como se um outro ser nascesse
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre se abrisse
As janelas da vida. . .
Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.
Mas ali
Hei de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre.

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Poema do Pacto de Sangue

Nobres há muitos. É verdade.
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade que com um lenço velho
As nossas mãos foram enlaçadas.

Nós, como aliados, eu digo.
Panos, só um, tal qual afirmo.
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.

Agua de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero!
Com o aliado, derrotar, eu quero!

A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Poderemos, talvez, ser derrotados
Ou combatidos, mas somente unidos.

3 492

Perdi meu pai

Perdi meu pai, minha mãe. Estou só,
ninguém me escuta,
senão quando querem dar
os restos que ninguém quer.

Pobre de pobre, só tenho
os restos que ninguém quer.

2 481

Regresso Eterno

Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpeando entre pedras o fulgor de uma idéia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior
Na natureza calma e definida
Pela vivência dum corpo em cuja essência
A terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita.

A noite! Se fosse noite. . .
Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentido
A esquina do acaso;
Outros mundos se somem,
Outros no ar luzes refletem sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia.

Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em balas de precário sonho...
Tudo é possível porque à vida dura
E a noite se desfaz
Em altos silêncios puros.
Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida,
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.

2 627

Quem não me deu Amor não me deu nada

Quem não me deu Amor não me deu nada.
Quem não me deu Amor não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em meu redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.
Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campo de flores
E silvas...
Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.
Quem não me deu Amor não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.

E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.
3 844

Linha de Rumo

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em meu redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.

Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campo de flores
E silvas...

Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.

4 647

Vigília

Paralelamente sigo dois caminhos
Abstrato na visão de um céu profundo.
Nem um nem outro me serve, nem aquele
Destino que se insinua
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo
Está por descobrir. Não seque a lua
Nem o perfil da proa. Vai direito
Ao vago, incerto, misterioso
Bater das velas sinalado de oculto.

Quero-me mais dentro de mim, mais desumano
Em comunhão suprema, surto e alado
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas,
Chamam dorsos de peixe à tona de água
E precipitam asas na esteira de luz.
Da vida nada senão a melhoria
De um paraíso sonhado e procurado
Com ternura, coragem e espírito sereno.

Doçura luminosa de um olhar. Ameno
Brincar de almas verticais em pleno
Sol de alvorada que descerra as pálpebras.

2 478

Entrei pelo mar

Entrei pelo mar mulher
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.

O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.

2 424

De monte a monta

De monte a monta, o meu grito
soa, soa, como voz
de um eco do infinito
ecoando em todos nós.

Timor cresce como um grito
ecoando em todos nós.

2 364

Agarrei no ar

Agarrei no ar um véu
esmaecido de azul,
igual ao azul do céu
iluminado pela lua.

Eu passo a vida a sonhar
iluminado pela lua.

2 580

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