Lista de Poemas
Poema vindo dos dias
Não fica bem em nenhum jardim da cidade
dizem os vereadores e é verdade
E além disso os nossos olhos cívicos
ficam-se nos corpos de que nos cercaste
Saudamo-nos por fora como bons cidadãos
Submetemos os ombros ao teu peso
mas há tantos outros pesos pelo dia
E quando tu por um acaso passas
retocado pelas nossas tristes mãos
através dos pobres hábitos diários
só desfraldamos colchas e pegamos
em pétalas para te saudar
Queríamos ver-te romper na tarde
e morrem-nos as pálpebras de sono
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 55 | Editorial Presença Lda., 1984
Os estivadores
o preço de estar vivo sobre a terra
Só nessas mãos enormes é que cabem
as coisas mais reais que a vida encerra
Outros rirão e outros sonharão
podem outros roubar-lhes a alegria
mas a um deles é que chamo irmão
na vida que em seus gestos principia
Onde outrora houve o deus e houve a ninfa
eles são a moderna divindade
e o que antes era pura linfa
é o que sobra agora da cidade
Vede como alheios a tudo o resto
compram com o suor a claridade
e rasgam com a decisão do gesto
o muro oposto pela gravidade
Ode marítima é que chamo à ode
escrita ali sobre a pedra do cais
A natureza é certo muito pode
mas um homem de pé pode bem mais
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 151 e 152 | Editorial Presença Lda., 1984
Sexta-feira sol dourado
Sexta-feira sol dourado
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
A exegese de um sentimento
em meio deste dia as paredes de uma tarde antiga
Começa-lhes no bico aquela alegria
onde eu corria de canto para canto
e andava dentro dela de janela em janela
Que me trouxe de novo até à minha casa?
Podem calar-se os pássaros inúteis
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 36 | Editorial Presença Lda., 1984
Escatologia
quando de todo recolheres
a linha dos meus dias
e eu for varar na tua face
com o meu cumprido olho de peixe
Aceita eu ser uma só palavra
e nela todo dizer-me
Talvez então eu sinta
no compromisso do olhar
que já te conhecia c nenhuma outra praia
para o meu coração via
Mas eras ou não eras pescador
grande demais para dois olhos
que só a tua ausência enchia?
Recebe no teu mar senhor
meu íntimo destino de algas e de escamas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 38 | Editorial Presença Lda., 1984
Enterro sob o sol
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho sob o sol enterro de água
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 13 | Editorial Presença Lda., 1981
Terrível horizonte
a linha humana dessa fronte
Aí qualquer coisa começa
Não há na natureza à volta tão terrível horizonte
nem nada que se pareça.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 21 | Editorial Presença Lda., 1984
Pôr do Sol na Boa-Nova
que cortas dedos na luz
abro-me todo: sou porta
que só contigo transpus
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 49 | Editorial Presença Lda., 1984
Epígrafe para a nossa solidão
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemperâneos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 40 | Editorial Presença Lda., 1984
Tarde interior
ó cheia de dois olhos minha amiga
Olha-me olha-me como quem chove
conicamente sobre
um coração deposto
do corpo que o cercava
No ulmeiro do caminho
vegetal comentador do nosso amor
a folha tímida não partiu ainda
e ameaça encher a tarde toda
Cubra-te ela a fronte
quando morrer aquém dos pássaros
Repousa minha amiga as mãos
sobre o lugar onde estiveram as palavras
e que os gestos
arredondem um templo para a luz
que dos olhos despedes
Já nos pesa nos pés a sombra
e pomos-lhe por cima o pensamento
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 30 | Editorial Presença Lda., 1984
Comentários (3)
Muito obrigado. Muito obrigado
Amei darling
tambem
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Poeta e ensaísta português, natural de São João da Ribeira, Rio Maior. Licenciado em Filologia Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa, obteve o grau de doutor em Direito Canónico pela Universidade Gregoriana de Roma, com uma tese intitulada «Ficção Literária e Censura Eclesiástica». Exerceu, ainda que brevemente, um cargo de director-adjunto no então ministério da Educação Nacional, mas o seu relacionamento com opositores ao regime da época, a participação na greve académica de 1962 e a sua candidatura a deputado, em 1969, pelas listas da Comissão Eleitural de Unidade Democrática, levaram a que as suas actividades fossem vigiadas e condicionadas. Ocupou, ainda, um lugar de leitor de Português na Universidade de Madrid (1971-1977). Regressado, então, a Portugal, foi-lhe recusada a possibilidade de leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa, dando aulas na Escola Técnica do Cacém, no ensino nocturno. Em 1991 foi condecorado, a título póstumo, com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'iago da Espada. Tendo sido, na sua passagem pela imprensa, director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo, os seus primeiros livros de poesia foram Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e O Problema da Habitação (1962). Às colectâneas de ensaios Poesia Nova (1961) e Na Senda da Poesia (1969), seguiram-se obras cuja temática se prende ao religioso e ao metafísico, sob a forma de interrogações acerca da existência. É o caso de Boca Bilingue (1966), Homem de Palavras(s) (1969), País Possível (1973, antologia), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). O versilibrismo dos seus poemas conjuga-se com um domínio das técnicas poéticas tradicionais. A sua obra, organizada em três volumes sob o título Obra Poética de Ruy Belo, em 1981, foi, entretanto, alvo de revisitação crítica, sendo considerada uma das obras cimeiras, apesar da brevidade da vida do poeta, da poesia portuguesa contemporânea. Apesar do curto período de actividade literária, Ruy Belo tornou-se um dos maiores poetas portugueses da segunda metade deste século, tendo as suas obras sido reeditadas diversas vezes. Destacou-se ainda pela tradução de autores como Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca. Em 2001, publica-se Todos os Poemas
Ruy Belo foi um dos mais importantes poetas e ensaístas portugueses do pós-guerra, nascido a 27 de fevereiro de 1933 na cidade de São João da Ribeira, Rio Maior, morrendo repentina e demasiado prematuramente na cidade de Queluz, a 8 de agosto de 1978, com apenas 45 anos.
Estudou direito na Universidade de Coimbra, concluindo o curso em Lisboa em 1956, quando partiu para Roma, doutorando-se em direito canônico pela Universidade S. Tomás de Aquino (Angelicum), com uma tese intitulada "Ficção Literária e Censura Eclesiástica".
Retornou a Portugal e em 1961 ingressou na Faculdade de Letras de Lisboa, recebendo uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para pesquisa acadêmica, tornando-se ainda professor de Língua e Literatura Portuguesas em Madri entre 1971 e 1977.
Mais tarde, ainda que tenha trabalhado no então Ministério da Educação Nacional, sua oposição ao regime de Salazar, a participação em uma greve acadêmica de 1962 e a sua candidatura a deputado, em 1969, pela Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, tornaram-no perigoso demais para a conjuntura política do país, levando-o a ser vigiado pelo governo e à recusa de sua candidatura a lecionar na Faculdade de Letras de Lisboa.
Foi diretor da Editorial Aster e chefe de redação da revistaRumo, estreando em livro com os volumesAquele Grande Rio Eufrates (1961) eO Problema da Habitação (1962), assim como a coletânea de ensaiosPoesia Nova (1961), seguida deNa Senda da Poesia (1969). Publicou aindaBoca Bilingue (1966),Homem de Palavra(s) (1969),Transporte no Tempo (1973),País Possível (1973),A Margem da Alegria (1974),Toda a Terra (1976) eDespeço-me da Terra da Alegria (1978). Traduziu Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca.
A reunião de seus poemas, organizada em três volumes sob o títuloObra Poética de Ruy Belo, foi lançada em 1981, três anos após sua morte, e aos poucos passou a firmar-se criticamente como uma das obras mais importantes da poesia portuguesa contemporânea.
No Brasil, o poeta é praticamente desconhecido, publicado apenas esparsamente. Um esforço recente de divulgação foi empreendido pela revistaInimigo Rumor, dirigida à época no Brasil por Carlito Azevedo e em Portugal por Osvaldo Manuel Silvestre, dedicando seu número 15 à obra do português, com um dossiê que trazia ensaios de Manuel Gusmão, Gustavo Rubim, Vítor Mendes e Pedro Serra, além de textos de poetas brasileiros e portugueses a partir de poemas de Ruy Belo, incluindo os autores Nuno Júdice, Eucanaã Ferraz, Vasco Graça Moura, Tarso de Melo, A. M. Pires Cabral, Luís Quintais, Fernando Guerreiro, Heitor Ferraz ou Gastão Cruz, entre outros.
Surgida em Portugal no fim da década de 50 e início dos 60, quando no Brasil vociferava o debate entre os poetas do Grupo de 45 e das neovanguardas brasileiras, com as pesquisas e reviravoltas críticas empreendidas pelo Grupo Noigandres em São Paulo, o Grupo Neoconcreto no Rio de Janeiro, além da Poesia Práxis de Mário Chamie e os trabalhos dos poetas em torno do Poema Processo, entende-se como a poesia lírica e sálmica de Ruy Belo poderia ter acolhida difícil no País naquele momento. Mas, agora que tais dicotomias em luta por hegemonia começam a arrefecer, e em vista da parca mas clara acolhida e valorização no Brasil do trabalho de poetas como Herberto Helder, Hilda Hilst ou Roberto Piva, é espantoso que o trabalho de Ruy Belo não tenha ainda se tornado referência maciça entre os poetas contemporâneos brasileiros, com algumas exceções. "A margem da alegria" parece-me um dos grandes poemas longos do pós-guerra em língua portuguesa, e seus pequenos poemas líricos são cristais de clareza estonteante. No Brasil, creio que seu trabalho poderia entrar em diálogo com textos como asCinco elegias (1943), de Vinícius de Moraes (1913 - 1980), assim como a poesia lírica de Joaquim Cardozo (1897 - 1978), Hilda Hilst (1930 - 2004) e Leonardo Fróes (n. 1943). São aproximações sem qualquer referência genética ou hierárquica.
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