Lista de Poemas
Poema
Este poema não quer ser nada.
Não quer dizer nada.
Este poema pode até ser provisório
— apenas enquanto não se pensa em nada —.
Este poema,
nem quer ser poema!
Sei que ele quer explodir,
invariável,
mudo.
Creio apenas que quer
romper os dedos de minhas mãos,
e cair, teimoso,
dando vida,
à uma folha abstrata de papel.
Mas este poema não tem resistência alguma,
como folhas, soltas ao vento,
frio,
sem pecados...
Salvador, 20 de dezembro de 1996
No Espelho
Profundas,
como os abismos em meu coração.
Vi também caminhos.
Caminhos traçados em minhas retinas,
aquáticas,
sufocadas,
quase afogadas,
em minha tristeza.
Vi minhas marcas de infância,
infantis cicatrizes,
camufladas em um rosto jovem,
melancólico.
Vi meus lábios,
vermelhos
— sangrentos —,
riscados como papel,
por palavras,
em explosões metafóricas.
Mas vi também um corpo.
Um corpo duro,
petrificado,
como um rosto no espelho...
Salvador, 08 de janeiro de 1997
Pensamentos
Tirar-me a vida podre,
inútil,
inválida.
Não reconhecida.
Apenas desejo não mais existir.
Não ter mais a lembrança dos momentos.
não sentir mais o peso de minhas lágrimas,
ferindo o meu rosto.
Não ser mais o culpado por tudo que aconteça.
Não quero mais a calma das manhãs de sol,
não quero mais o frescor das longas tardes,
nem mesmo a solidão angustiante e companheira
de todas as noites.
Não quero mais a minha simbólica presença.
Abstrata.
Quero contemplar a morte,
e o alívio — de todos —
da minha ausência permanente.
Nós
Não somos um só.
Mas sabemos quem somos.
Com você, sei muito de mim.
Com você, encontrei comigo, e me vi,
enquanto olhava para você.
E nos encontramos.
Foi vivendo minha solidão,
que nos encontramos.
Ficamos sabendo quem realmente somos.
Nos conhecemos.
Conhecemos minha insegurança;
e sua fortaleza.
Conhecemos meu jeito infantil;
e sua maneira de tratar-me. Somente sua.
Conhecemos minha fragilidade;
e sua segurança.
Conhecemos minha mudez arrogante;
e seu grito de alerta.
Não somos um só,
mas, nos refletimos.
Você reflete-me o que sou,
o que fui,
o que posso vir a ser.
Somos um grupo.
Um grupo,
enquanto capazes de,
diferencialmente,
sermos nós mesmos,
sempre juntos.
Salvador, 26 de novembro de 1995
Intervenção da Morte
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .
. . .
Terminou?
. . .
E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .
Salvador, 10 de julho de 1994
Poema Quase Erótico
A sentir-te,
num toque de lábios.
Sinto-te perto de mim,
com teus pequenos passos,
escorregadios,
a acariciar-me a face.
Os teus toques,
apesar de gélidos,
esquentam-me o corpo inteiro,
fazendo-me queimar,
de ternura.
E num simples tocar,
derreto-me, perco-me, distraio-me.
E tu continuas a tocar-me,
escorrendo-me pelo corpo,
fazendo-me cócegas,
excitantes.
Até que tu vais,
sem nem deixar-me saber
quem tu és.
Mas, agora,
percebendo e sentindo,
o mais íntimo dos teus toques,
começo a saber.
É como se fosse,
e é...
orvalho!
Salvador, 28 de outubro de 1996
Súplica
Deitei-me triste e vazio.
Procurei uma fuga,
no vasto mundo dos sonhos.
Enganei-me.
Minha vida não mudou enquanto eu dormia.
Estou entregue à amargura, ao sofrimento.
Minha alma agora sofre,
meu coração está sedento.
Como dói relembrar cada momento!
A minha vontade, agora, é de gritar.
Gritar minhas desesperanças!
Gritar minhas desgraças!
Mas a vida é breve, a vida é vã,
como uma borboleta que passa. . .
Mas tenho que sofrer sem um murmúrio sequer.
Meus olhos banham-se na pureza de minhas lágrimas.
E faço silêncio.
Um silêncio tão intenso,
a ponto de perder-me,
na minha mudez aterrorizada.
Entenda, mundo insano!!
Hoje, respiro um ar sôfrego
e expiro tristeza.
A decepção dói no meu corpo.
Poupem-me, ainda que por um momento!!
Não afastem-se de mim,
temendo a minha revolta!
Não retirem-se da minha presença,
desprezando o meu silêncio,
pois que neste silêncio,
revela-se o mal da minha existência. . .
Paisagem
Imagino que o dia está absolutamente perfeito.
Pelo vidro suave da janela,
o céu azul,
resplandescente,
ofusca qualquer pensamento vil.
Nas ruas,
as pessoas andam sorridentes e gentis,
com ensaios de "bom-dia",
"boa-tarde" e
"boa-noite".
Lá fora os ventos correm,
— brincando! —
como crianças num dia de sol,
embaraçando cabelos,
afagando folhas solitárias com suas doces carícias invisíveis...
O mar, verde como uma floresta virgem,
lança suas ondas de finas espumas sedosas,
e a areia ,
— ah! a areia!... —
com seus flocos dourados,
assiste a tudo,
inebriando-se...
E sinto!
Sinto a felicidade em mim,
tomando conta de toda a minha alma,
como se injetada por agulha fina, anestésica...
E o ar brinca em meu coração,
borbulhando todo o meu sangue,
numa taça profunda, de cristal...
O dia,
aos poucos,
vai desaparecendo por trás dos montes,
— verdes como o mar! —
dando luz e vida
a uma nova criança que está por nascer...
E a lua surge,
completa,
afiada,
seduzindo estrelas e puros corações.
Os vizinhos em suas varandas,
prestigiam um novo espetáculo.
E vão dormir felizes,
preenchidos por um calor que emana de cada um,
e com um misto de satisfação e ansiedade,
certos de um novo espetáculo,
que irá surgir pela manhã...
A vida não tem sentido,
se você não compõe sua própria paisagem...
Súbito
foi um dos poucos dias em que me senti feliz.
E, de súbito,
veio-me uma vontade de abraçar o mundo.
Mas, já viram,
não posso.
Estou preso, em janelas.
E dentro de mim.
Lira
há tempos me corrói. . .
O que se passa pela cabeça das pessoas que,
por pura mediocridade,
tentam, em esforços vãos,
mudar a personalidade alheia?
Hoje,
sinto muito por essa mediocridade.
Profundamente atordoado,
este ambiente, agora, causa-me repugnância.
Além de todas as pessoas que me cobram outras personalidades,
como se não me faltasse mais ninguém,
agora, vem-me um tio,
com cismas insanas,
a aborrecer-me.
Um tio!
"Senhor Universal da Razão";
"Rei do Absoluto".
Estas são suas denominações. Auto-denominações.
Que maçada. . .
Vive no obsoleto. . .
Falas de razão,
e eu?
Eu, ouço tudo, e calo.
A razão que pensa ter,
é uma mentira!
E é por isso que na minha lira,
de assuntos fúteis, poucas vezes falo.
Mas, a passagem dos tempos, por vezes assombra-me.
E aprofundado em meus pensamentos,
ponho-me a questionar-me:
A razão. E essa "razão", quando irei por fim segui-la?
NUNCA!!
Nunca, ouviram?!!
De razões cotidianas,
todos estão cheios.
Cheios de nada.
Eu, para vocês miseráveis, posso também ser nada,
mas, ao erguer-me no meu pedestal,
olho-os de cima. Silencioso. . .
E questiono-me novamente:
Quem sou? Para onde vou?
Quem sou? Sei quem sou, e isto já basta;
Para onde vou? Não sei onde estou indo,
nem onde vou chegar,
mas sei que estou no meu caminho, que por si só,
emana uma rutilância análoga à minha vida.
Vida humilde, nesta louca hierarquia.
Vivo com a minha loucura,
mas, a partilhar desta loucura, desta razão,
prefiro apodrecer sozinho,
no silêncio da minha pequenez. . .
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