Noite
O menino viu
sair da boca
da mulher, talvez
sua mãe, uma voz
estrídula e lábil, que
logo desandou,
em cadência
de sonho, a quê?
– A enumerar desas-
tres já ocorridos
e por ocorrer,
a fecundar
harpias, a frisar
as marcas
da passagem
da pantera pelo quarto,
a aturdir relógios,
a enegrecer o sol
e outras mais
de tais proezas.
Máquina zero
Quarto dia: entendo que o q
ue preciso, se q
uero mesmo continuar a p
erambular com alguma chance de êxito p
or uma cidade ( duas ) como Berlim, é
de sapatos de largo fôlego. Caminho ( penso e
nquanto caminho ), permeável a t
udo: ao frio sol cortante, às crianças t
urcas com seu comércio informal de b
rinquedos usados, à b
eleza sem rumo da adolescente que ( longas p
ernas abertas sobre um p
rosaico selim de bicicleta ) c
avalga o c
omeço da tarde, aos grafites que “d
ariam belas fotos”, à Topografia d
o Terror, às ruínas, ao r
asta que me saúda ( “R
asta!” ) na Wilhelmstrasse, às l
ascas do Muro na vitrine da pequena l
oja, ao a
marelo-zoom do metrô a
pontando na curva a
ntes do teatro, à
História,
Estrondo para Maria Esther Maciel
Naquele entrecho
mais lento dos
dias, aqui, onde,
não importa o
modo como os pés
pisem as folhas
ao caminhar, o
barulho quebradiço
da sombra deles
(espraiada entre
a calçada e as
pedras-escombros
da casa) bem poderia,
se ouvido por
uma detalhista
como você, ser
chamado de troar,
estouro, estrondo.
Dedicatória
Prefiro a paciente
proeza das traças,
meu caquético rapaz,
aos versinhos
bem traçados
dos quais
te mostras capaz
(assépticos e sérios
como os de
ninguém mais).
Ah! Ler-te é
penetrar na paz
dos cemitérios.
Pelo modo como caminhas,
nota-se que ainda
respiras, mas
já entreleio,
junto aos títulos
dos teus livros,
os dois precisos
vocábulos
("Aqui jaz")
com que, um dia,
te saudarão os vivos.
Labirinto
Conheço a cidade
como a sola do meu pé.
Espírito e corpo prontos
para evitar
outros humanos polícias
carros ônibus buracos
e dejetos na calçada,
incorporo hoje o Sombra amanhã
o Homem In
visível sexta à noite
o perigoso Ninguém
e sigo.
Como os cegos
conheço o labirinto
por pisá-lo
por tê-lo
de cor na ponta dos pés
à maneira também do que
fazem uns poucos
com a bola
num futebol descalço
qualquer. Conheço a
cidade toda (a
mínima dobra retas cada borda
curvas) e nela – à
custa de me
perder – me
reconheço.
NUMA FESTA
Creio ter ouvido certo.
Alguém do grupo junto
à janela pronunciou,
enquanto eu observava,
apenas por fastio,
o deslizar de um peixe
amarelo no aquário, sozinho,
a palavra sodomita.
Nunca a ouvira antes.
Pareceu-me grave — naquele
lugar,
naquele instante e nos dias
seguintes —,
bíblica.
Elsie sings the
Elsie Houston
morre no fim:
pílulas para dor-
mir. Mas a voz
dela escapa do
corpo sem vida
dela na forma
de um som
de cor tão cla-
rescura e rara
(Uirapuru no
breu da jângal
– ou sereia
no fundo do
mar – cantan-
do só para nin-
guém ouvir)
que ouvi-la
agora será per-
correr com
ela uma longa
trilha ao revés
(e de reveses
) até a gar-
ganta da qual
naquele vinte
do dois de mil
novecentos e
quarenta e três
ela escapará
Paupéria revisitada
Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
BISPO DO ROSÁRIO
quem fez e refez
cem vezes o
caminho do mundo
até antes
cem vezes na
cabeça o longo
trecho entre o
mar e o
céu
quem re fez o
caminho da perda
com seu manto
de
ver deus filho.