Escritas

Lista de Poemas

As metades do corpo

Marianne
   Moore
apreciava animais

e atletas
   em igual
escala. Motivo: o

"estilo"
  das duas
espécies citadas

    "é, prova
        -velmente,
desleixado"; uns e
 
    outros, dis
        -se Miss
Moore numa entre

  -vista,
       alcançam a
"exatidão" devido

   à prática
       que "as
metades do corpo",

    neles (nos
         animais
e nos atletas que

     possuem
         um estilo),
adquiriram

"para se
    contra
-balançarem".
👁️ 363

Paupéria revisitada

Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
👁️ 768

Qualquer voz

Agora, ali, era muito antes. Consegue
imaginar a voz da moça de outro dia,
caída na rua, mas ainda respirando? Coisas
postam-se entre elas mesmas, interrompidas.
Onde começa e onde termina o olhar?
Outro verbo sem presente: morrer. Eu não
disse lembrar — imaginar foi o que eu disse.
Consegue? A voz dela, alguma voz que
você nunca ouviu, qualquer voz. Antes de
alguma coisa, ali. O olhar talvez comece
antes das pálpebras se abrirem. E acaba?
Não acaba.
👁️ 711

UMA ALEGRIA

jamais minas gerais
vibrou dentro de mim

o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor

transatlântico negro
como naquele breve maio

ensolarado de alegrias
quando eu deambulava

pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri

em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas

áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
👁️ 598

Elsie sings the

Elsie  Houston
morre no fim:
pílulas para dor-
mir. Mas a voz
dela escapa do

corpo sem vida
dela na forma
de um som
de cor tão cla-
rescura e rara

(Uirapuru no
breu da jângal
– ou sereia
no fundo do
mar – cantan-

do só para nin-
guém ouvir)
que ouvi-la
agora será per-
correr com

ela uma longa
trilha ao revés
(e de reveses
) até a gar-
ganta da qual

naquele vinte
do dois de mil
novecentos e
quarenta e três
ela escapará
👁️ 641

Estrondo para Maria Esther Maciel

Naquele entrecho
mais lento dos
dias, aqui, onde,

não importa o
modo como os pés
pisem as folhas

ao caminhar, o
barulho quebradiço
da sombra deles

(espraiada entre
a calçada e as
pedras-escombros

da casa) bem poderia,
se ouvido por
uma detalhista

como você, ser
chamado de troar,
estouro, estrondo.
👁️ 619

Noite

O menino viu
sair da boca

da mulher, talvez
sua mãe, uma voz

estrídula e lábil, que
logo desandou,

em cadência
de sonho, a quê?

– A enumerar desas-
tres já ocorridos

e por ocorrer,
a fecundar

harpias, a frisar
as marcas

da passagem
da pantera pelo quarto,

a aturdir relógios,
a enegrecer o sol

e outras mais
de tais proezas.
👁️ 380

Dedicatória

Prefiro a paciente
proeza das traças,

meu caquético rapaz,
aos versinhos

bem traçados
dos quais

te mostras capaz
(assépticos e sérios

como os de
ninguém mais).

Ah! Ler-te é
penetrar na paz

dos cemitérios.
Pelo modo como caminhas,

nota-se que ainda
respiras, mas

já entreleio,
junto aos títulos

dos teus livros,
os dois precisos

vocábulos
("Aqui jaz")

com que, um dia,
te saudarão os vivos.
👁️ 451

NUMA FESTA

Creio ter ouvido certo.
Alguém do grupo junto

à janela pronunciou,
enquanto eu observava,

apenas por fastio,
o deslizar de um peixe

amarelo no aquário, sozinho,
a palavra sodomita.

Nunca a ouvira antes.
Pareceu-me grave — naquele

lugar,
naquele instante e nos dias

seguintes —,
bíblica.


👁️ 511

Máquina zero

Quarto dia: entendo que o q
ue preciso, se q

uero mesmo continuar a p
erambular com alguma chance de êxito p

or uma cidade ( duas ) como Berlim, é
de sapatos de largo fôlego. Caminho ( penso e

nquanto caminho ), permeável a t
udo: ao frio sol cortante, às crianças t

urcas com seu comércio informal de b
rinquedos usados, à b

eleza sem rumo da adolescente que ( longas p
ernas abertas sobre um p

rosaico selim de bicicleta ) c
avalga o c

omeço da tarde, aos grafites que “d
ariam belas fotos”, à Topografia d

o Terror, às ruínas, ao r
asta que me saúda ( “R

asta!” ) na Wilhelmstrasse, às l
ascas do Muro na vitrine da pequena l

oja, ao a
marelo-zoom do metrô a

pontando na curva a
ntes do teatro, à
 
História,
👁️ 527

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment

NoComments