Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

n. 1979 PT PT

Raquel Nobre Guerra é uma poeta contemporânea portuguesa cujo trabalho se destaca pela intensidade lírica e pela exploração de temas como o corpo, o desejo, a violência e as relações humanas. A sua poesia, muitas vezes crua e direta, aborda a fragilidade da existência e a complexidade da experiência feminina, com uma linguagem que privilegia a força imagética e a concisão expressiva.

n. 1979, Lisboa

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Pura

esta gente que colhe água para derramá-la
compassivamente sobre a chaga
esta virtuosa carraça da solidão pública
com redentor cigarro público também
esta solidão assediando cretinos e sábios
esta deserta implausível cartada
grande força erguida a prumo

esta gente sobre esta imperial e sopa à frente
esta gente que se levanta de peito e escreve
para não matar ninguém
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Poemas

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Quem nunca hesitou

Quem nunca hesitou na paragem do 28
e pensou: ali vai a metáfora da minha vida.
E nem por pensá-lo escapou ao açude
de mandar parar tanta gente só por si.

Não é possível ser feliz com tanta correspondência
e entre nós que vamos em itinerários românticos
a cruz na porta da tabacaria é tão-só o aviso
para lavar a cabeça contra o pessimismo.

Se não te aconchega o lumaréu de estar vivo
não te aflijas quando predizem a meteorologia
uma estação no inferno será sempre o destino
1 406

resistimos a todas as noites

resistimos a todas as noites não à nossa
tudo indica que se insinua levita até
uma primavera vulpe a que se somam
detalhes médicos gongóricos e um tanto

da metafísica para desatar esta malha em rodilha
uma oração disposta a todas as misérias
um golo certo para abrandamento cardíaco
mas continuamos gente, singular detalhe

paramos arrefecemos

neste mistério participado, entrelaço de que seguramos
firme a ponta para que nela recaia a substância
de efeitos mágicos

morremos, nós que morremos tão apenas
na hora conciliadora de todas as agulhas
de bordalo indiferente ao dedilhado

e desenrolamo-nos todos no chão
1 245

Pelicano

enquanto o teu nome não for um estado restrito
de universo, uma sensação de seres
colhido pelo camaroeiro do Tejo
alma-ideia de ser antigo entrar em Deus
por mim

Enquanto for semântica na boca, a paixão dos homens
e vier um deles com pedras macias de domínio
não direi

que é inumerável o corpo sendo muitos ou sábio -
que as línguas de fogo hão-de tomar a pele como um texto
e sacro
1 460

Deixa que nos chamem

Deixa que nos chamem
pequeno cemitério de animais em flor.
O meu coração gótico espera por ti
aqui onde ninguém dança.

Porque havemos sempre de brincar
vestidos de santos até adormecer
nos olhos da cabra que, escuta:
I touched her thigh and death smiled.

Se perguntarem por nós aponta para cima
e responde com humor tipicamente irlandês
Senhor Roubado. Linha Amarela. Estação Terminal.
720

É evidente que nos mentem

É evidente que nos mentem quando põem por escrito
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)

Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.

Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.

Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.

Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.

Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.

Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.

E estava certo.

Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
718

deus por cima

deus por cima
o grande abandono
1 230

Vir às mãos / Aforismos terceiros

subindo rei no horizonte sou rei de luzes apagadas
sou rei na divina loucura do trono
o trono vazio sou eu
1 285

Biqueirões Caseiros

para beber o abismo deve-se bebê-lo líquido
prepará-lo como carne boa para montada
lamber-lhe o carnaz até ao osso tomá-lo
na garganta, deixá-lo crescer para cima

deve-se manter escravo o desejo à entrada
o apetite subirá púrpura num exótico
que não pode aqui

é preciso implicar no covil no seu grau maior
entrar gardinando a tamborilhar-lhe os bordos

é preciso persistir para engoli-lo, contê-lo
como uma erecção -

comecemos delicadamente pelo topo
1 264

Quanto de Areia e Brita

os nossos mestres estão mortos insisto
não exagero que perdemos coragem
até à mãe que pariu isto da beata vita

deram-nos a cruz latada por onde o diabo trepa
separando por jóias os ocidentais dramas
tudo indica que fosse templo de uma reza trena
um still mudo que dissesse que é urgente tocar
à dura-máter do zoo genético, digo

aos que juram que hão-de salvar isto pela literacia
dêem-me as vossas azias cubro-as de cimento quente
esvazio-vos as barrigas, se havemos de nos ler todos
por mãos gitanas

lembrando a médica teórica da mesótes
foi o oráculo enganando que se enganou
estava torto etc, sublinhe-se a morta facilita
a cerveja assiste no limbo perfeito dos deuses
e seus anexos suicidas

torceram-nos ainda as mãos como molhando-as
sobre a cama não é certo o que dormir
e uma presença de coisas exuberando não chega
para que se imponha ao homem a própria vida

adunámos corpo a corpo multiplicámos fornicámos
até ser virgem a porcaria

deitámo-nos fora com um murro sensualmente
e abrimos as persianas sobre isto

muitos paraísos seguidos de paraísos e muita merda
a cobrir-nos por cima
1 262

Aprendi a tranquilidade

Aprendi a tranquilidade de passar sobre os dias
com o domínio de um coração baixo.
De me perturbar menos a posição astrológica
de certas palavras no coração do verso.

Houve vezes em que me embaracei na musa
e tanto quis largar-me à doçura desse humor
que me cheguei de cara toda à carcaça
julgando que o bife na mesa fosse meu.
Mas a natureza morta da metáfora
não me deu talho para o poema.

Sei que qualquer aragem me atravessará o corpo
e que a mentira da manhã vai folgando entre nós
como um sol mobilizado para a morte.

Sei, porque me chego para a frente com força
que o poeta transporta um saco de luz
com um coração doente que canta
mas não há verdade nesse coração
que não termine com duas senhoras de negro.

Que não me falhe a pontaria na hora de traçar
uma obra futura para nutrimento do espírito
- essa besta furiosa que nunca chega a ser livre
por muito que fulja e se agite no homem
com mais homens dentro. Que isso seja mais
que cair na tentação de durar por escrito.

Minto, porque cedo ao poder das palavras
o que trago no saco são coisas remendadas
que vou deixando cair.

Se ao menos tivesse dois ou três dentes de ouro
e na lei que me confere vencida a ética
fizesse, como tu, felizes tantas bocas.

Mas aprofundei-me na ocupação da violência
um arzinho de filosofia para empernar meninos
um pai matemático e obsessivo como um poço sombrio
um príncipe melancólico com abalos de amor
por mulheres mais tristes que uma mulher
a correr urgências psiquiátricas para arranjar namoradinho.

Reconheço, no meio disto, a cantiga do bandido.

Se ao menos aprendesse a bravura dos recrutas:
Vá - pago um copo / a quem disser que me ama!

Mas não, garanto e mal este pouco verso
para que o leitor avance dobrado sob mim.

Corrijam-me se estiver errada
mas a razão comovida de tudo
podia começar por aqui.
Agradecer aos destroços, abrir lume,
destinar-lhe estas últimas sete palavras.

Ser convicto enfim mesmo sem saber como.
1 049

Obras

2

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Uma poesia de boa estirpe - severa, mas com porta aberta para uma visão larga de uma sociedade cada vez mais fechada em seu desespero de filha da Mãe-Pressa.

anjocaido333

escreve-se para dar forma ao medo e abrandar-lhe o peso. ( bom)