Lista de Poemas
Gosto de achar
Quando morrer colocada sob a luz mais favorável
dirão que me movi com a ira de um rei trocista.
Farão romarias ao Senhor Roubado para esmolar
o pouco que não tenha sido apontado.
Amigos que enterraram corpos amigos
um só amor capaz de morrer de tão antigo
um burro tombado de vícios e vaidades.
Os meus duzentos e seis ossos farão a desculpa
para doutoramentos sobre o Estádio, esse tabique,
que impedia o Letes de engolir o rasto dos dias.
Ao fim ao cabo não terá corrido mal
a tão alardeada beleza já nos estava prometida.
Sabes, tenho pouco para dizer a afinal.
Apreciar sobretudo não ter para onde ir
fazer do amor o passageiro frequente
cobrir cada vez mais a cabeça de camélias.
Merecerá mais a literatura que a minha vida?
Fiz a tropa toda no grande bluff da noite literária
contribuí para a mania da minha geração
sofro o meu próprio termo de orfandade e aceito
que a medida daquilo a que chamam realidade
seja um aparador de bibelôts com as pernas bambas
que sem querer um animal faz desandar.
Já pouco escrevo que convenha à javardice diária
escrevo a bebedeira das palavras escolhidas
porque nunca ninguém escreveu para se elevar
escreve-se para dar forma ao medo e abrandar-lhe o peso.
Acreditem, sou supersticiosa, penhorem-me a vida
tenho uma perninha no bem, outra no mal
e mijo no meio, é honesto pensar assim.
Quando me levarem levem-me inteira
mas antes deixem-me surfar a ressaca da última onda.
Pura
compassivamente sobre a chaga
esta virtuosa carraça da solidão pública
com redentor cigarro público também
esta solidão assediando cretinos e sábios
esta deserta implausível cartada
grande força erguida a prumo
esta gente sobre esta imperial e sopa à frente
esta gente que se levanta de peito e escreve
para não matar ninguém
Bílis negra
estremecendo à sabedoria dos tolos
aqui certo clima de nojo e uma galeria viva
de absurdos para a visão integral da coisa
solene
peçam-se óculos para ver melhor, peçam-se janelas
para ver o mar
eu estarei certa à chuva própria desse estado
adequada e a direito despejando-me aqui
chamo a minha mãe ao corpo, não tenho nada
preparado, tenho um telegrama visual e chamo
alto e chego para provar que este mote é só um meio
de porte
há-de encastelar em areia o finalismo rente aos dedos
subir-me à boca subir em bando à do louco onde
terei posto a minha
e aí na ervinha de um passeio restar
à perseguição da luz como um animal deslumbrado
que atravessou
Sorrio aos mortos
como um objecto escuro
por que rodaram mãos e jeitos de luz.
Vivo como se não estivesse aqui
roupa leve como na vida.
E vou da primeira à última batida
na respiração de um pulmão doido.
Lê assim
podia arder a uma pouca distância de ti
nessa praceta que é um poema teu
e as coisas voltariam a mim, meras,
como o ser transportada pelos dias
mas cairei por aqui.
Meu amor
Porta no trinco e nada nas mãos.
Há muito que é tudo o que resta.
O fim do mundo
O vietnamita eleva uma maçã acima da cabeça
como se me atravessasse nesse seu gesto corso.
Gente que está viva, diria, pasto para as sensações
e isto não quer dizer nada senão que sigo a forma
dos objectos mortos para que as coisas passem.
Que me esforço por um certo sossego.
Ainda sou essa criança predadora
que empurra a noite para o lado com os dentes.
Acordo no lado mais duro da terra
faço contas ao corpo antes de ser bicho.
Penso, esta obsessão não é verdade
estou morta, sou infinita
e a manhã despenca como uma grua.
Agora vou ao café todos os dias
para que o mundo que me percorre
entre pela ordem exacta dos punhos.
Respiro com as raparigas da cidade
digo, como é quente e pesado este fato preto
que vai doendo menos abrir os olhos debaixo de água
que se canta melhor na Praça das Flores
de frente como estás para mim.
Que eu só queria existir um pouco
na de definitiva passagem do fogo
e suster a passo veloz os estragos
a força de um corpo resumido ao vento.
Agora escrevo diários íntimos
para cumprir o instinto canalha
de quem rouba para ser apanhado
de quem mata pela beleza de um corpo
por onde se enfiou um dos braços
até não saber a que altura se pôs a noite.
Depois nada, a minha vida é só a minha vida
um olhar bovino treinado para devolver ao mundo
o mínimo insulto sem me mexer um milímetro.
E eu já não sei a que altura se pôs a noite
nem da fraqueza do sol que cai de borco.
O café ilumina-se de todos os anjos filhos da puta.
Daqui a pouco sairei de casa
estou certa que daqui sairá o poema mais triste.
Trapézio
e chamar deus à vontade
de subir
Deixa que nos chamem
pequeno cemitério de animais em flor.
O meu coração gótico espera por ti
aqui onde ninguém dança.
Porque havemos sempre de brincar
vestidos de santos até adormecer
nos olhos da cabra que, escuta:
I touched her thigh and death smiled.
Se perguntarem por nós aponta para cima
e responde com humor tipicamente irlandês
Senhor Roubado. Linha Amarela. Estação Terminal.
Não foi preciso muito
começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.
Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.
Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.
Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.
Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.
É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.
E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:
I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters
Ficas a dever-me uma.
Aprendi a tranquilidade
com o domínio de um coração baixo.
De me perturbar menos a posição astrológica
de certas palavras no coração do verso.
Houve vezes em que me embaracei na musa
e tanto quis largar-me à doçura desse humor
que me cheguei de cara toda à carcaça
julgando que o bife na mesa fosse meu.
Mas a natureza morta da metáfora
não me deu talho para o poema.
Sei que qualquer aragem me atravessará o corpo
e que a mentira da manhã vai folgando entre nós
como um sol mobilizado para a morte.
Sei, porque me chego para a frente com força
que o poeta transporta um saco de luz
com um coração doente que canta
mas não há verdade nesse coração
que não termine com duas senhoras de negro.
Que não me falhe a pontaria na hora de traçar
uma obra futura para nutrimento do espírito
- essa besta furiosa que nunca chega a ser livre
por muito que fulja e se agite no homem
com mais homens dentro. Que isso seja mais
que cair na tentação de durar por escrito.
Minto, porque cedo ao poder das palavras
o que trago no saco são coisas remendadas
que vou deixando cair.
Se ao menos tivesse dois ou três dentes de ouro
e na lei que me confere vencida a ética
fizesse, como tu, felizes tantas bocas.
Mas aprofundei-me na ocupação da violência
um arzinho de filosofia para empernar meninos
um pai matemático e obsessivo como um poço sombrio
um príncipe melancólico com abalos de amor
por mulheres mais tristes que uma mulher
a correr urgências psiquiátricas para arranjar namoradinho.
Reconheço, no meio disto, a cantiga do bandido.
Se ao menos aprendesse a bravura dos recrutas:
Vá - pago um copo / a quem disser que me ama!
Mas não, garanto e mal este pouco verso
para que o leitor avance dobrado sob mim.
Corrijam-me se estiver errada
mas a razão comovida de tudo
podia começar por aqui.
Agradecer aos destroços, abrir lume,
destinar-lhe estas últimas sete palavras.
Ser convicto enfim mesmo sem saber como.
Onde se come
assim cantará no meu epitáfio.
Sais de casa porque a morte te agita
transpiras pelo empregado de mesa
que lê Balzac, tens ambições literárias
razões, enfim, para andar mal vestido
despenteado com um saco na cabeça
para que se diga ali vai a poesia portuguesa.
Queres até salvar o mundo do enxofre
da má sina dos coitados que aspiram
à avara sedução do matadouro.
Serei breve.
Quero entrar para a história da literatura
com um verso roubado a alguém,
por exemplo,
uma adolescente grávida com um grande espaço entre os dentes
a dar na chinesa com a mãe.
Grande imagem sacada à presteza dos dias
mas que importa? Se aqui neste bairro ninguém sabe ler
e eu ardo na cupidez de ganhar para a lírica
porque nestes casos o melhor é ser-se culinário
e fazer segredo, dizer apenas que sou feliz
no meio da porcaria a dez minutos da humanidade.
Senhor Roubado-Café Lenita - Senhor Roubado
Quero escrever o poema mais feliz do meu bairro
levantar ao alto os olhos do dealer
dizer que é possível remediar os dias
fazer magia, dizer sim, moro aqui
com uma reserva de Foucault e uma mesinha
que me dá liberdade a um combro do lixo.
Mas sou uma criatura tão pequena quanto a certeza
de que esta gente toda me perdoaria se eu dissesse
que me envergonha morar aqui
e que lhes levo a vida com a ligeireza de um carteirista.
Comentários (2)
Uma poesia de boa estirpe - severa, mas com porta aberta para uma visão larga de uma sociedade cada vez mais fechada em seu desespero de filha da Mãe-Pressa.
escreve-se para dar forma ao medo e abrandar-lhe o peso. ( bom)
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