Lista de Poemas
A pintura
Tentando criar uma inusitada obra de arte, o artista olha o corpo nu.
O corpo é tela em branco, onde produz graciosos afrescos, cria em pensamentos eminentes cordilheiras, revela traços nos seios da amada, imponentes picos.
Nas curvas do corpo nu desenha as estradas que ainda não percorreu. Observa seu quadro inacabado, são pequenos rascunhos.
Produz esboços de divertidas nuvens de algodão disfarçadas entre as estrias do corpo nu. Acima do coração eterniza os momentos que foram bons.
Com a ponta dos dedos cheios de tinta, observa o painel, enxerga o contorno de um corpo, continua compondo a pintura, pinta a beleza em movimento e a tempestade afável sem vento, os dias turbulentos, agitadas formas estranhas, as mínimas manifestações dos dias de calmaria, pinta a Lua grandiosa e algumas partes encobertas, nuvens melindrosas...
Pinta os mistérios, o dia principiando, continua pintando a tela, corpo vazio, corpo nu, pinta o Romantismo, o Realismo, o Impressionismo, o Expressionismo.
Seus olhos brilham, ele renasce. Triste artista, pinta suas lamúrias, continua pintando...
Pinta o calor do Sol aquecendo sua alma, o canto das cigarras, o som das matas, o cheiro do mato molhado.
Artista insaciável devora sua tela, pinta mais e mais...
Pinta estradas desconhecidas, procura desbravar novos caminhos; pinta o instrumento silencioso do cantador, o olhar apaixonado do homem comum, o som estridente da alegria das crianças e suas lúdicas fantasias.
A tela é corpo cansado...
Precisa adormecer, é corpo exaurido, corpo nu.
Nos pés descalços.
Mais e mais pinturas, pinta cada pedaço.
Não és mais tela em branco, és tela habitada de entretons
Colorido impossível de imprimir...
Pela manhã, a mulher matizada, renasce tatuada de beleza.
A arte e as marcas da pintura estão encravadas em seu corpo.
Pureza e contentamento.
Depois de pintar tão belo quadro,
O artista de olhos desconexos apenas observa.
Contempla seu ofício, admira e se orgulha...
Sua obra, tela corada, é corpo marcado de encanto.
Quadro harmonioso...
Pintura sutilmente traçada pelas mãos do artista.
Pelos dedos pincéis
Ele continua examinando o corpo nu vestido de beleza. Artista, apaixonado pela sua criação
Se entrega à paixão e ama delicadamente sua mais recente obra-prima.
Incêndio
de sentir-se notado,
o descomedido e algoz prometido,
ateia fogo na casa.
Ela só pensa em salvar seu gato
e o pobre pássaro macróbio
que padece na gaiola.
As chamas alvoroçadas
parecem dançar,
dar saltos sucessivos
e depois se dissipam,
como fumo escuro,
combustão dos versos tatuados de antigos livros.
Ela abarca a gaiola do pássaro de penas parcas
enquanto
abraça o bichano de bigode queimado
e coração agitado.
Situações improváveis
que não rendem sequer uma mísera metáfora
para se refletir
sobre as perdas ordinárias dos objetos,
essas coisas
suscetíveis à destruição.
Bom mesmo
seria perder a memória,
apagar da mente o incêndio que a persegue todas as noites,
atear fogo às lembranças
do que um dia foi casa.
Abortando voo
Meu medo tem uma origem, numa decolagem. A aeronave prestes a subir abortou, foram alguns segundos de frenagem com a pista molhada, os ruídos eram intensos e os passageiros tiveram seus corpos projetados violentamente.
O mais assustador não foi o ato de frear de forma súbita ou os gritos ou, ainda, os rostos assustados da tripulação, o mais perturbador foi saber que dentro dos aviões são transportados passageiros e que alguns sinônimos da palavra são: breve, fugaz, efêmero, finito.
Teu Nome
talvez eu te chamasse de adorável,
ser encantado que desorienta minhas razões.
Ou te chamasse de caminho, mas não qualquer um,
tu serias aquele com harmonioso cenário,
ainda poderia chamar-te de mistério ou de infinito,
já que não posso imaginar tua dimensão.
Teu nome poderia ser chuva, rio
ou o nome de qualquer substância fluida que mate a minha sede,
também te chamaria de marés
e lembraria o balanço do teu corpo sobre o meu.
Então começo a divagar por pensamentos e me vem a saudade,
palavra bonita que também me lembra de ti.
Recordo tantas outras belas palavras:
coragem, esperança, memória,
sem dúvida, teu nome seria o mais sublime de todos.
Mas nome bonito mesmo é liberdade
e tu terias nome e sobrenome.
Autora: Ive Nenflidio
Paixões impossíveis
deixo-te ir,
amor improvável,
amo-te livre!
Voa para me esquecer
e se sentir saudades;
voe para voltar,
volte para me amar.
No mais íntimo da minha volúpia,
chegue sem pressa!
Autora: Ive Nenflidio
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Ivete Nenflidio, São Bernardo do Campo, 01/11/1973.
Pós-graduada em Direitos Humanos e Questões Étnico-Sociais pela Pontifícia Universidade Católica, especializada em História e Cultura no Brasil pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). Complementou seus estudos em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas pelo Sistema Educacional Brasileiro (SEB) e em Educação para Africanidades pela UNICAMP. Sua pesquisa concentra-se em Estudos Teóricos e Práticos da Cultura, Arte e Políticas Públicas. Foi parecerista na criação do projeto pedagógico do curso Superior de Tecnologia em Produção Cultural do Centro Paula Souza (CPS), vinculado à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo. É sócia-fundadora da In Totum Cultura Criativa (2010), agraciada com o Prêmio Mérito Cultural do Fundo Municipal de Cultura de Santo André, e atua como responsável pela curadoria artística do Festival de Arte Vale do Paraíba, projeto dedicado ao Mapeamento da Cultura Brasileira. Integrou o júri do 37 Festival de Marchinhas, promovido pela Prefeitura de São Luiz do Paraitinga em 2021. Em parceria com o musicólogo e jornalista Zuza Homem de Mello, realizou diversos projetos culturais, incluindo concertos internacionais com artistas como o guitarrista e cantor norte-americano de blues e rock Buddy Guy e a cantora e compositora inglesa de soul e RB Joss Stone. Durante a pandemia, concebeu e executou três grandes festivais multiculturais através do Proac Editais e Lei Aldir Blanc. É autora de obras literárias, estreando no cenário com a coletânea de contos e crônicas "País Estrangeiro", baseada em viagens pelo interior do Brasil, explorando os costumes culturais de todas as regiões do país. Em 2022, lançou a obra "ATAQUE Cale-se agora e para sempre", pela Editora Kotter, com prefácio de Menalton Braff. Em 2023, foi premiada pela Lei Paulo Gustavo para criação de roteiro cinematográfico.
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