Perdão e Reconciliação

Poemas neste tema

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Toada do Amor

E o amor sempre nessa toada:
briga perdoa perdoa briga.

Não se deve xingar a vida,
a gente vive, depois esquece.
Só o amor volta para brigar,
para perdoar,
amor cachorro bandido trem.

Mas, se não fosse êle, também
que graça que a vida tinha?

Mariquita, dá cá o pito,
no teu pito está o infinito.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Rosmaninho que me deram,

Rosmaninho que me deram,
Rosmaninho que darei,
Todo o mal que me fizeram
Será o bem que eu farei.
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Paio Soares de Taveirós

Paio Soares de Taveirós

O Meu Amigo, Que Mi Dizia

O meu amigo, que mi dizia
que nunca mais migo viveria,
       par Deus, donas, aqui é já.

Que muito m'el havia jurado
que me nom visse, mais, a Deus grado,
       par Deus, donas, aqui é já.

O que jurava que me nom visse,
por nom seer todo quant'el disse,
       par Deus, donas, aqui é já.

Melhor o fezo ca o nom disse:
       par Deus, donas, aqui é já.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Noites Sem Nome, do Tempo Desligadas

Solidão mais pura do que o fogo e a água,
Silêncio altíssimo e brilhante.

As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Viés

Ó lua, fragmento de terra na diáspora,
desejável deserto, lua seca.
Nunca me confessei às coisas,
tão melhor do que elas me julgava.
Hoje, por preposto de Deus escolho-te,
clarão indireto, luz que não cintila.
Quero misericórdia e por nenhum romantismo
sou movida.
1 452
Adélia Prado

Adélia Prado

Argumento

Tenho três namorados.
Um na Europa que é um boneco de gelo,
outro na cidade vendo futebol no rádio
e o terceiro tocando violão na roça.
Todos mamíferos, sangue vermelho e ossos friáveis.
Um deles cuspiu no chão, o que escolhi pra casar.
Mesmo tendo feito o que fez, só ele me perdoará.
1 073
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Poema da Purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As águas ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Oásis

Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu — o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra

Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira
2 009
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando te vais a deitar

Quando te vais a deitar
Não sei se rezas se não.
Devias sempre rezar
E sempre a pedir perdão.
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